Obeso Mórbido (2026)

O corpo fálico

título original (ano)
Obeso Mórbido (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Drama
duração
93 minutos
direção
Diego Bauer
elenco
Diego Bauer, Thais Vasconcelos, Isabela Catão, Victor Kaleb, Denis Lopes, Marilta Figueiredo, Karol Medeiros, Wallace Abreu, Rosa Malagueta
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Em 2018, Hannah Gadsby apresentou na televisão um dos melhores e mais tristes espetáculos de comédia dos últimos anos. Em Nanette, após uma série de boas piadas a respeito da identidade lésbica, masculina e gorda da humorista, ela muda bruscamente o tom. Declara que está habituada a expor suas fragilidades, e ganhar a vida com os risos voltados à sua figura. De fato, a australiana sempre possuiu um olhar afiadíssimo sobre ela própria, assim como sobre os grupos sociais que representa. No entanto, a partir daquele momento, não faria mais piadas autodepreciativas. Com o tempo, ela percebeu que, por trás do aparente desapego em falar de si de maneira tão íntima, havia um componente de desprezo, de violência disfarçada pelo humor. A linguagem cômica equivalia, portanto, a uma armadura e a uma estratégia de combate — antes que me ataquem, vou atacar a mim mesma, deixando-os sem ação

Este movimento de ataque e defesa, de autoexposição e de autopreservação, vem à mente diante de Obeso Mórbido, filme dirigido, escrito e estrelado por Diego Bauer. Na ficção, ele interpreta uma versão de si próprio, com o mesmo nome, e adaptando experiências assumidamente pessoais. O autor apresenta e registra seu corpo em todas as formas possíveis: magro ou gordo, ativo ou apático, super performático ou impotente, venerado ou ridicularizado, elogiado ou ignorado. A imagem deste criador-e-criatura estampa a maioria absoluta do longa-metragem, numa narrativa onde não existe uma cena sequer sem a presença de Diego. A janela mais quadrada contribui aos close-ups, com o rosto do protagonista ocupando o centro do quadro. 

Obeso Mórbido se torna um filme tão divertido quanto incômodo. Cada vez que Diego Bauer nos convida a rir de sua imagem, parece fazê-lo em detrimento de sua integridade.

A obra constitui aquilo que os franceses chamam de filme de tema: um projeto obsessivamente dedicado às variantes de um único objeto de estudo, no caso, o corpo do autor. Quando o protagonista, na função de motorista via aplicativo, transporta três rapazes de aparência ameaçadora, a sequência produz um inesperado alívio. Trata-se do primeiro instante, já na segunda metade da narrativa, desprovido de qualquer relação com o emagrecimento ou ganho de peso por parte do herói. Antes disso, o corpo magro influi no seu trabalho (o comercial em que se nega a beber refrigerante), nas relações sexuais (a postura ultra viril em decorrência da silhueta esbelta), nas amizades (a admiração e inveja dos colegas mais musculosos), na convivência familiar (a cobrança dos parentes em relação ao peso). 

Logo, a narrativa possui um caráter exemplar: cada cena visa um propósito específico, uma questão em particular que pretende abordar dentro da extensa discussão a respeito da masculinidade e da autoimagem. Nada escapa ao texto bastante abrangente: o questionamento de uma mulher para quem Diego não era tão gordo assim; o encontro com a ex-colega de faculdade, que também engordou; a expectativa para ser bastante performático na cama, uma vez atingida a forma desejada. As quatro primeiras cenas giram em torno do herói seduzindo mulheres, com direito à escolha da pretendente (a colega de cena, ou a cinegrafista). Quando se prepara para um novo teste como ator, ele entoa o lema de ataque: “Come o cu deles!”.

Em consequência, ignora-se o respiro na explanação, ou o desenvolvimento progressivo do olhar. Não se trata de um protagonista que, entre outras coisas, possui conflitos com aparência e identidade, mas de um sujeito cuja rotina gira exclusivamente em torno de ser muito magro (interpretado como sucesso, conquista, força de vontade) ou muito gordo (sinal de fracasso, desleixo, depressão). A necessidade de exteriorizar todos os movimentos de Diego, somada à lógica do humor, favorece o recurso aos extremos, mais claramente visíveis na imagem. Logo, o esbelto, porém contrariado protagonista, decide abandonar a dieta e comer chocolates e pizzas a noite inteira. Acorda, no dia seguinte, com uma barriga protuberante (sugerindo um salto temporal, é claro). Obeso Mórbido sustenta uma aparência quase fabular, tal qual uma Cinderela que, passada a meia-noite, volta a se revelar gata-borralheira. A manutenção de uma forma física que não lhe vem naturalmente suscita o temor de que a “verdade” (a identidade enquanto homem gordo) retorne a qualquer instante.

Os esforços continuados de transformação corporal unem Diego, o personagem fictício, e Diego, o diretor da ficção autobiográfica. Sempre houve, no cinema, uma valorização excessiva da percepção de sacrifício em nome da arte — caso do artista disposto a intensas modificações na aparência em nome de um papel. Isso representaria profundo comprometimento, abertura ao martírio, abdicação de si em prol de algo maior (a arte). Fortes mergulhos psíquicos em estados emocionais delicados não despertam tanta atenção quanto o intérprete disposto a emagrecer ou engordar, raspar o cabelo, mostrar-se nu em cena, ou fazendo sexo. Por isso, a iniciativa do cineasta sustenta o teor de entrega e de dedicação.

Isso nos leva de volta a Hannah Gadsby, e a Nanette. Quando a humorista ria de sua masculinidade e fazia chacota do corpo gordo, passava por humilde, sincera, verdadeira. Em tempos de autoimagem fabricada pela publicidade, de fake news, de filtros e performances calibradas para as redes sociais, colocar-se diante do público em franco debate a respeito de suas fragilidades constituiria um gesto nobre. Logo, as possíveis acusações de egocentrismo se dissipam face ao intuito de constituir um exemplo para pessoas em situações semelhantes, capazes de expurgar suas dores mediante sacrifício do outro. Não consigo rir dos meus próprios complexos e traumas, mas rio daqueles sublinhados num terceiro. O humorista autobiográfico se martirizaria em nome do prazer dos demais. Existe movimento mais generoso (e fundamentalmente cristão) do que esse?

Por isso, Obeso Mórbido se torna um filme tão divertido quanto incômodo. Cada vez que Diego Bauer nos convida a rir de sua imagem, parece fazê-lo em detrimento de sua integridade. Durante a exibição da Mostra de Tiradentes, o público gargalhou durante a passagem do comercial de cuecas, quando o herói é humilhado pelo fotógrafo (numa cena semelhante até demais àquela de Triângulo da Tristeza), e também na sequência do ator se masturbando freneticamente enquanto a prostituta espera para iniciar o ato. Provocou muitos risos quando os familiares, igualmente gordos, o ridicularizam pelo tamanho do prato de comida na ceia de Natal. Em paralelo, despertou comoção no plano-sequência em que devora fatias gigantescas de bolo, ao limite do vômito, enquanto forma de autopunição, e quando se sente ameaçado pelo homem mais forte que, pressupondo o interesse homoerótico do colega de academia, o coage ao sexo oral (numa perturbadora sugestão de violência sexual).

Cena após cena, o texto expõe, ri, ameaça, humilha, constrange o protagonista e seu corpo. Obviamente, trata-se de uma proposta voluntária, controlada e desejada pelo autor — ninguém pode acusar terceiros de uma representação abusiva. Talvez este projeto (e o curta que deu origem ao longa) sirva de processo terapêutico ao cineasta, como serve a tantos humoristas de stand-up que extraem seu material das dores mais profundas. Em contrapartida, a experiência incomoda bastante devido à sensação de cumplicidade e voyeurismo do público diante de tais agressões. Nunca acompanhamos Diego, o ator, mas Diego, o ator gordo. Não seguimos Diego, o jovem tentando se afirmar junto às mulheres, mas Diego, o rapaz agora esbelto, em processo de flerte.

Por isso, o encaminhamento beira a fantasia e o delírio. Sequências envolvendo jovens que expõem o pênis num boteco, diante dos demais; ou um cartaz de campanha contra a gordofobia (assinado por quem?); e mesmo da chuva providencial na conclusão, seguida da luz do pôr do sol, remetem ao realismo mágico. Este mundo é feito para o personagem, em função dele. Distantes de um desenho naturalista e verossímil, as relações sociais são moldadas para servirem ao propósito pedagógico do autor. No final, Obeso Mórbido cumpre seu objetivo com louvor: ele transparece plena consciência de seus objetivos, e conseguiu estabelecer uma comunicação muito direta com a plateia. 

Fica a dúvida, no entanto, acerca dos custos de uma abordagem tão violenta consigo próprio. Seria possível, ou desejável, discutir os mesmos aspectos com o mínimo distanciamento, estranhamento? A lógica da imersão, do close-up extremo, da abordagem invasiva, seria a mais apropriada — ou ainda, a humanizada? Em outra palavra, como traçar a linha entre rir de Diego e rir com ele, entre escarnecer seu personagem fictício e escarnecer o próprio autor? Em que medida nossa risada seria empática ou meramente perversa? Para o bem ou para o mal, esta proposta tão intensa desperta questões fundamentais em relação à ética e à moral da representação de si.

Obeso Mórbido (2026)
6
Nota 6/10

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