Os Ruminantes (2025)

A obra-prima invisível

título original (ano)
Os Ruminantes (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
80 minutos
direção
Tarsila Araújo, Marcelo Mello
com
Jean-Claude Bernardet, Marina Person
visto em
20ª CineOP (2025)

Um filme sobre um filme que nunca existiu. O maior desafio deste documentário reside na ausência de materiais de arquivos diretamente conectados ao seu tema de estudo. Afinal, os cineastas Tarsila Araújo e Marcelo Mello investigam o processo de criação de A Hora dos Ruminantes, longa-metragem que o cineasta Luiz Sérgio Person jamais conseguiu concretizar. Partindo de uma pesquisa de doutorado, os autores trazem aos cinemas o “fracasso” de uma iniciativa que prejudicou em definitivo a carreira do protagonista, falecido precocemente aos 39 anos.

A narrativa, em si, desperta grande curiosidade para além do círculo cinéfilo. Trata-se de um mergulho metalinguístico no misterioso processo de criação artística: como se escolhe o tema de um filme? De que maneira o livro homônimo seria transposto à linguagem audiovisual? O que levaria uma possível obra-prima a ser abortada e considerada “maldita”? Ora, os estudos de cinema costumam se concentrar nas vitórias: os melhores filmes, os grandes autores, os sucessos exemplares. No entanto, poucos pesquisadores se dedicam aos longas-metragens detestados pelo público, marcados por conflitos, ou simplesmente abandonados — iniciativas estas que nos ensinam tanto sobre o cinema quanto os cânones da sétima arte.

O documentário se mostra tão eficiente em alguns aspectos (a descrição da trajetória de Person, a comprovação da censura dos militares) quanto relapso em outros (a representação da obra original).

Logo, a investigação disseca os bastidores do financiamento, da produção, da censura durante o regime militar, e dos desentendimentos entre criadores. Jean-Claude Bernardet, teórico do cinema e co-roteirista de A Hora dos Ruminantes, dispensa qualquer idealização a respeito do projeto. Afirma ter escolhido o romance de José J. Veiga às pressas, a partir de pouca reflexão, escancarando com franqueza e naturalidade as divergências criativas em relação ao diretor. Descreve-se como um roteirista de pouca experiência, e maior interesse na política das formas do que na padronização habitual da escrita cinematográfica.

Marina Person, filha do protagonista, e também cineasta, compartilha um ponto de vista mais pessoal. Ela atesta que a incapacidade de viabilizar o maior filme da vida do pai frustrou expectativas, mas também expande a discussão ao colocar Person em choque direto com as iniciativas do Cinema Novo. Para o diretor de São Paulo S/A (1965) e O Caso dos Irmãos Naves (1967), as produções de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e afins pensavam no povo enquanto tema, ao invés de público-alvo. Eles falariam das classes desfavorecidas para a elite, numa linguagem que o público médio jamais entenderia. Em revancha, o cinema precisaria ser, na compreensão do diretor, “algo que entra na emoção e no intelecto do espectador”.

Os Ruminantes possui diversas qualidades. A primeira delas reside nesta disposição a tomar a não-obra enquanto ponto de partida, ao invés de objetivo em si. Araújo e Mello discorrem a respeito da liberdade criativa, da preocupação com o público, e da política representada de maneira referencial ou alegórica. Traçam um percurso amplo da carreira de Person, incluindo as experiências com publicidade e teatro, além dos filmes rejeitados pelo próprio autor — caso de Panca de Valente (1968) e Cassi Jones, o Magnífico Sedutor (1972). Evitam a hagiografia para desenhar uma personalidade multifacetada, entre provocação e a acomodação ao sistema; entre ousadia estética e aspiração à popularidade.

Melhor ainda, rumo ao término, a dupla de cineastas imagina de quais maneiras o teor de A Hora dos Ruminantes ecoaria o Brasil atual. Neste momento, o documentário encontra seu ponto mais ambicioso — em plena conjunção com os métodos de seu protagonista. Sugere-se que o roteiro provocador, aludindo aos militares apoderando-se de uma cidadezinha, dialogaria de modo diretor com a bancada ruralista e os interesses do agronegócio na Câmara dos Deputados. A frase infame a respeito de “passar a boiada” durante a pandemia costura-se à descrição literal de bois invadindo a localidade imaginada pelo livro e pelo filme dos anos 1960. A Hora dos Ruminantes ainda seria um filme corrosivo e atual em 2025.

Em contrapartida, outras escolhas artísticas se provam mais modestas. Na ausência de fragmentos do filme-nunca-filmado, os diretores buscam referências evidentes e pouco criativas para aquilo que o projeto poderia ter sido. Encontram em outros longas-metragens do cinema brasileiro trechos de bois invadindo uma cidade, ou fotografias ilustrando a repressão da ditadura. Estes materiais são funcionais, porém, também referenciais e óbvios demais. Deste modo, inexiste qualquer fricção entre imagem e som, ou expansão estética dos sentidos. A invasão animal mencionada no roteiro poderia ter sido ilustrada pelo cinema de animação, por invasões de outros animais (ou pessoas), ou ainda por um fluxo vertiginoso na montagem em estrutura vertoviana. Escolhas ousadas em Os Ruminantes teriam representado de maneira mais apropriada a inventividade que se supõe à concepção de Person.

Ora, Araújo e Mello contentam-se com os talking heads tradicionais, nos quais as excelentes falas de Jean-Claude Bernardet e Marina Person encontram-se com uma textura de imagem, uma escolha de luz e de som aquém das preciosas contribuições de ambos. A montagem interrompe frases no meio da reflexão, em linguagem mais apropriada à edição de Internet e de redes sociais do que à reflexão do cinema. Não parece haver preocupação com a coesão entre entrevistas, nas quais se vê o fio do microfone sobre a camiseta, e se limita a um único enquadramento por conversa. Os encontros com a filha e o colaborador — um material indispensável ao filme — provam-se tímidos enquanto construção cinematográfica, transparecendo a disposição em colocar o conteúdo acima da forma.

Além disso, é curioso que a obra a respeito de A Hora dos Ruminantes nunca apresente, de fato, a narrativa que o filme teria. Descrevem-se duas cenas centrais (a chegada dos cachorros e a chegada dos bois à cidade fictícia), porém, de resto, ignora-se a trama que Person teria filmado. Desconhecemos os protagonistas, suas motivações, as reviravoltas, e mesmo o processo de adaptação do livro ao roteiro. O que foi mantido ou modificado do texto de José J. Veiga? Com o roteiro em mãos, uma leitura por atores, ou encenações semelhantes, teriam permitido ao espectador compreender do que, afinal, se trataria a obra-prima abortada. Sabemos que o drama banhado no realismo fantástica refletiria os horrores da ditadura, entretanto, ignoramos de qual forma ele o faria.

Ao final, o documentário se mostra tão eficiente em alguns aspectos (a descrição da trajetória de Person, a comprovação da censura dos militares) quanto relapso em outros (a representação da obra original, o encontro com outros profissionais associados ao projeto para além do diretor e do roteirista). Enquanto obra autônoma, Os Ruminantes apresenta uma elaboração imagética e sonora pouco instigante — algo contraditório face ao maravilhamento dos criadores com o filme-dentro-do-filme. Mesmo assim, o documentário parece estar ciente de seu alcance modesto, constituindo a porta de entrada para um estudo que não pretende ser exaustivo, nem se dar por encerrado. Em comparação com a pesquisa de doutorado efetuada pelos autores sobre o tema, o filme corresponderia a uma versão inicial da tese — algo que, face ao ineditismo do tema e às lacunas históricas relacionadas ao objeto de investigação, possui valor evidente.

Os Ruminantes (2025)
6
Nota 6/10

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