
Era uma vez um tolo. Sérgio (Erik Breno) sonha em se tornar ator, porque gosta de imitar as expressões de riso e espanto dos atores nos filmes. No entanto, ao invés de se inscrever num curso, ou buscar livros a respeito das artes dramáticas, bate à porta de um ator egocêntrico e falido. Gil (Nill Marcondes) o convence a abandonar o emprego, e passar 24h por dia na casa dele, cuidando da mãe idosa do ator e executando a função de secretário. Apesar da óbvia desonestidade do anfitrião, e de ensinamentos nulos neste período, o aprendiz permanece.
Outono em Gotham City pretende que o espectador ria da ingenuidade deste rapaz sem família, sem amigos próximos, sem profissão, e sem objetivo real — ele nunca demonstra verdadeiro interesse pelo mundo da atuação. Defende, em paralelo, o riso a partir das hipocrisias e arrogâncias do falso professor. Curiosamente, promove cenas cômicas envolvendo uma senhora em necessidade de cuidados médicos, a quem se oferece comida de cachorro; ou então atores profissionais e animalescos, que atacam o pobre protagonista em sua visita ao teatro. Alguns filmes gostam de rir do real, porém, este longa-metragem prefere rir da caricatura da realidade.
A comédia nunca se decide entre a filiação a um cinema caseiro e assumidamente amador, ou se abraça todas as fórmulas do cinema-Netflix.
Diversos aspectos prejudicam a imersão na narrativa. O roteiro jamais constrói seus personagens para além de uma ou duas características evidentes (a inocência do herói, a malícia do antagonista, etc.). Como nos identificar com figuras tratadas como imbecis ou asquerosas? Como torcer pala ambição repentina de um rapaz desinteressado pelo único conflito que o move? De que maneira podemos imergir nesta coletânea de referências e citações (de Parasita a Possessão), se possuem impacto nulo na trama? O diretor Tiago A. Neves mira os universos de O Balconista (1994) e Alta Fidelidade (2000), entretanto, jamais demonstra crença real nos personagens, nem nos conflitos gerados.
O descaso se estende à estética. O longa-metragem possui inúmeros problemas de som, fotografia e montagem. Nas cenas externas, e noturnas, mal se enxergam os caminhantes em meio a tamanha escuridão. No interior do apartamento de Gil, a situação não melhora muito, com as fracas luzes de lâmpadas, e a ausência de correção de cor. Há desníveis evidentes de som, entre diálogos e ruídos. O estilo sugere uma captação ao acaso, com câmera caseira, dispensando refletores, e munindo-se do mínimo de equipamentos possíveis. O longa-metragem aparenta ser sido filmado como se pôde, na hora, rejeitando a preparação ou reflexão prévia acerca de enquadramentos, profundidade de campo, movimento de câmera ou dinâmica de cena.
Talvez o aspecto mais problemático, neste sentido, seja a montagem. Cada sequência de Outono em Gotham City dura muito mais do que o ritmo cômico, ou mesmo a fluidez narrativa, permitiria. O abraço de Gil com a mãe, a “possessão” de Sérgio na rua, e as piadas banais com o protagonista falando um francês improvisado duram uma eternidade, de modo que o modesto humor das situações se perde devido à insistência. A montagem prejudica cenas já muito fracas em termos de composição e fotografia, caso da briga entre os dois irmãos, captados no corredor de entrada do apartamento. Em determinados instantes, prossegue-se com a fala quando o personagem já foi embora (na cena do táxi), e suspende-se o som direto enquanto as bocas continuam se movendo (no Teatro Municipal). As escolhas beiram a aleatoriedade.
Estas decisões de linguagem se tornam mesmo questionáveis, eticamente, graças aos alvos da chacota. Incomoda bastante que a mulher de saúde frágil seja colocada em situações degradantes no intuito de sublinhar as trapalhadas do cuidador. A fetichização do corpo negro, num plano de detalhe da sunga de Gill Marcondes, soa tão grosseira quanto as falas agressivas a pessoas sem instrução (“Não sabe ler, analfabeto, vaza!”) e a travestis (“Você precisa ficar com pessoal, com gente, travesti”). Existe uma espécie de tudo-vale nesta abordagem que nunca aparenta ter pensado antes de escrever, realizar e finalizar. Filma-se porque parece divertido, num gesto de rebeldia próximo à provocação juvenil.
Ora, a obra nunca sabe ao certo o que pretende criticar, abordar, ou que mensagem transmitir a partir deste encontro entre um sádico e um masoquista. Falta não apenas ritmo à trama, mas também senso de propósito à convivência da dupla, que se arrasta sem se transformar. Prova desta errância em círculos vem do final, quando todos os problemas se resolvem magicamente. O filme deixa seu protagonista em segundo plano, para se focar no homem soberbo, redimido e transformado em pessoa gentil. Já o aluno descobre, enfim, que os métodos de seu instrutor não o preparavam à vida profissional. Quem diria! Impressiona que, depois deste humor exagerado, a narrativa ainda se venda como fábula comovente e inspiradora.


Costuma-se dizer, das peças de teatro, que a baixa qualidade de um espetáculo pode ser medida pela quantidade de caretas ostentada pelos atores no cartaz promocional, de modo a frisar que esta é uma comédia, e que farão de tudo para despertar nosso riso. Algo semelhante se aplica ao cinema. Outono em Gotham City solicita trezentas caretas a Erik Breno e Nill Marcondes, que se prestam ao jogo com dedicação, embora o filme prefira rir deles a rir com eles, das situações que os cercam. Deveríamos nos divertir porque são patéticos, ridículos, absurdos, em contextos ainda menos prováveis (vide o teste de elenco no final, e a aula de zumba envolvendo Zezita Matos e Soia Lira).
Ora, o longa-metragem nunca se decide entre a filiação a um cinema caseiro e assumidamente amador (pela fotografia, som e montagem), ou a adesão a todas as fórmulas do cinema-Netflix, a exemplo da narrativa autoirônica, em off, repleta de frases explicativas. “Um cara, eu, tentando entender como fui parar neste espetáculo”, “Se eu fosse um bom ator, eu teria saído desse filme faz tempo”, “Aqui estou: seis anos depois, catalogando os sonhos de outras pessoas”, “Se eu fosse Picasso, esse seria o meu período da tristeza bege”. Nada tem muito sentido: os criadores parecem se aproximar de um raro cinema do brainstorming, do tanto faz, do “pra quê se levar tanto a sério”, do “mas é só uma comédia”, etc. Nem mesmo o título possui a mínima justificativa na trama — e, neste sentido, se mostra tragicomicamente coeso com o restante do projeto.




