
Há de se pensar quantas animações se dedicam a representar o ato sexual. Sobretudo, em se tratando de dois homens árabes — incluindo materializações do pênis e da ejaculação no peito alheio. A primeira surpresa diante deste curta-metragem decorre de sua simples existência enquanto dedicação a um amor romântico, homoafetivo, no qual sentimentos não se distinguem do desejo sexual. Ao contrário de tantas idealizações da saudade e da distância, o curta-metragem dirigido por Matheus Monteiro começa e termina na concretização sem impedimentos dos laços entre os protagonistas.
A narrativa se acelera (até demais), tanto no início quanto na conclusão. Em questão de segundos, Ibn Ammar e al-Hakam já estão juntos, e a trajetória de ambos se suspende de maneira abrupta. A iniciativa aparenta funcionar como o teaser de um filme mais extenso — algo que se compreende diante do fato que Poesia no Vinho de Seus Lábios foi realizado dentro da universidade. Em outras palavras, correspondia a um exercício audiovisual, que conquistou, em seguida, surpreendente carreira em festivais (Mix Brasil, Cine Ceará, Tiradentes, Quelly).
Um mundo de tableaux, onde a ornamentação das cores e da natureza se prova mais importante do que a riqueza de detalhes nas expressões dos protagonistas.
A limitação de recursos é evidente. Por isso, os traços são simples, assim como a movimentação e materialidade dos corpos, que jamais aparentam possuir peso ou textura. É curioso que um filme tão focado na libido aposte num estilo quase infantil, lúdico, em contraste com a aparência de naturalismo que se espera da representação do sexo. Enquanto investe em ilustrações bastante diretas do poema hispano-árabe de Ibn Khafaja (o rapaz literalmente bebe vinho na palma das mãos de seu amado), o cineasta constrói um mundo de tableaux, onde a ornamentação das cores e da natureza se prova mais importante do que a riqueza de detalhes nas expressões dos protagonistas.
Logo, o que resta na memória, após este sucinto relato de uma homoafetividade histórica, são as composições com aparência de pinturas clássicas, ou tapeçarias antigas. Monteiro conquista a verossimilhança pela imersão cultural em símbolos e representações do mundo árabe, em detrimento de uma aproximação do mundo tal qual o vemos. Ele consegue atribuir uma aparência de elegância e refinamento à animação artesanal, comprovando sua preciosa capacidade de pensar o filme em termos de produção, tanto quanto estética. É evidente que o percurso poderia ganhar um desfecho mais satisfatório e sutil. No entanto, indica um diretor cujo forte potencial soa prestes a se materializar em iniciativas com maior estrutura e tempo de realização.




