POV: Presença Oculta (2025)

O medo e o sentido

título original (ano)
Bodycam (2025)
país
Canadá
gênero
Terror
duração
75 minutos
direção
Brandon Christensen
elenco
Jaime M. Callica, Sean Rogerson, Catherine Lough Haggquist, Angel Prater, Colette Nwachi
visto em
Cinemas

No cinema de terror, vale tudo para provocar medo ou susto? Mesmo que as peças não se encaixem, ou que as motivações sejam incoerentes, elas se tornam aceitáveis caso provoquem algum desconforto no espectador? Em outras palavras, neste gênero, a sensação é mais importante do que o sentido? Este tipo de pensamento vem à mente diante de um projeto como POV: Presença Oculta, dirigido por Brandon Christensen. Na trama, dois policiais matam um homem por engano, despertando uma força maligna que os persegue.

O principal interesse reside no dispositivo de filmagem. Conforme atesta o título original, Bodycam, trata-se de uma filmagem a partir das câmeras corporais instaladas na farda dos policiais em atividade. Por isso, o grande dilema do found footage, em relação à legitimidade (por que os personagens continuariam filmando enquanto são perseguidos?) é solucionado de maneira bastante orgânica pela premissa de uma câmera que registra apesar dos personagens, contra a vontade deles. Ao contrário dos jovens curiosos de A Bruxa de Blair, ou da repórter incansável em Rec, aqui os protagonistas adorariam que a câmera parasse. Devido a esta premissa, muitos cinéfilos e críticos já elogiaram o resultado, como se intenção e realização fossem equivalentes.

O uso da imagem subjetiva transparece problemas graves. Além disso, Christensen confunde dependência química com possessão; vulnerabilidade social com monstruosidade.

Ora, o próprio uso da imagem subjetiva transparece problemas graves. Em primeiro lugar, a promessa de um filme inteiramente captado com o dispositivo não se materializa. A narrativa se inicia com a câmera do carro policial (ou seja, o ponto de vista de ninguém) e, durante um acidente na segunda metade da trama, voltamos a esta câmera para revelar os fatos ao espectador. O diretor adora dispensar o dispositivo que justifica a narrativa inteira: rumo ao final, oferece a câmera subjetiva de um adversário que não utiliza câmera nenhuma (como é possível?) e sugere que os policiais podem simplesmente retirar o equipamento do peito e colocá-lo em outro lugar. Neste caso, por que continuariam filmando a si próprios, incriminando-se fala após fala, diante da lente-que-tudo-vê? Nunca pensaram em esconder, cobrir o aparelho?

A ideia de que os atores seriam os próprios diretores e diretores de fotografia — são eles, em última instância, que iluminam as cenas com suas lanternas, escolhem os ângulos e registram — tampouco funciona na totalidade. O longa-metragem aparenta trapacear algumas vezes com este pressuposto: a qualidade das gravações varia bastante, assim como a pixelização dos registros (em situações equivalentes de luz) e a abertura da lente, em graus variados de grande angular. A câmera no peito às vezes parece captar à altura dos olhos (a exemplo da cena do celular), sugerindo planos subjetivos falseados, quando interessa à direção. Inserções em preto e branco, ou com luzes intensas das cores do giroflex também surgem aleatoriamente. Christensen estabelece suas próprias regras pelo prazer de ignorá-las.

Isso vale, igualmente, para o roteiro. O autor cria um adversário ora invisível, ora bastante concreto; capaz de possuir a mente das pessoas e interferir em dispositivos eletrônicos, mas vivendo escondido com um pequeno grupo de seguidores; que não aparece em frente às câmeras, até subitamente decidir fazê-lo. Essa inconsistência, digna de projetos como Atividade Paranormal, enfraquece uma trama paupérrima em reflexão social, política ou cinematográfica. O texto mergulha na dicotomia simples do policial bom (Jaime M. Callica) e policial malvado (Sean Rogerson), que nunca adquirem o mínima aprofundamento de personalidade. Eles se reduzem ao arquétipos de policiais, desta vez, amedrontados pelos cidadãos que os perseguem.

Isso porque o roteiro deixa claro que a atitude violenta do policial Bryce ocorreu em legítima defesa, embora eles saibam que ninguém acreditaria neles. “O foco está em vocês. São reféns da opinião pública”, alerta um diálogo. Apesar de algumas críticas protocolares de Ally Jackson (Catherine Lough Haggquist) à corporação, o discurso se mostra pró-polícia (eles tentam fazer o certo, mas ninguém acreditaria nestes pobres agentes da lei). Em contrapartida, todos os personagens em situação de rua e/ou dependentes químicos (as duas características se equivalem, neste caso) são monstruosos, zumbificados, possuídos, vivendo numa espécie de seita onde todos se conhecem, se entendem, e respeitam a tal criatura sobrenatural. “Você tira algo dela, ela tira algo de você”, repetem, letárgicos.

Assim, embora demonstre compaixão pelos dois protagonistas (um deles liga para a esposa prestes a dar à luz, reproduzindo o heroísmo convencional hollywoodiano), POV: Presença Oculta não se preocupa com nenhum personagem ao redor deles. O retrato fica ainda mais questionável a partir da imagem de uma mulher negra zumbificada (Colette Nwachi), com a voz comicamente alterada, e pela descrição de uma casa profundamente suja, asquerosa, ostentando símbolos de uma seita genérica na parede. Christensen confunde pobreza com incivilidade; dependência química com possessão; vulnerabilidade social com monstruosidade. Trata-se de um ponto de vista conservador e reacionário.

Além disso, a obra se ressente do mínimo cuidado de produção, em uma trama tão simples. Há problemas graves com a maquiagem de sangue, seja intensidade exageradíssima, seja na continuidade variável. Os efeitos visuais nas cenas noturnas do carro dirigindo pelas ruas, ostentando luzes de prédios virtuais, tampouco convencem. O que dizer então da “casa maligna”, cujas luzes acesas no andar de cima sugerem dois olhos de um vilão perseguidor? Este recurso se justificava somente em produções infantis, caso da animação A Casa Monstro (2016). Aliás, um aspecto infantil atravessa a totalidade deste filme de terror, que imagina uma espécie de bicho-papão atacando as pessoas porque sim, sem método nem finalidade, enquanto os mocinhos se reduzem ao ímpeto de sobrevivência. 

Logo, não há causa, nem consequência; não há origem, nem antídoto para a criatura. Trata-se de um mecanismo muito simples de predador e caça, no qual as regras são criadas durante a perseguição, tal qual ocorreria no faz de conta de crianças pequenas. Esqueça qualquer reflexão política a respeito da violência policial, da relação com comunidades vulneráveis, da ilusão da imagem enquanto prova de verdade em tempo de IA e fake news. Nada disso interessa a Brandon Christensen, disposto a abraçar incontáveis clichês do found footage (a pessoa de costas contra a parede, tal qual A Bruxa de Blair) e os diálogos mais desgastados da pseudo psicologia (“Acha que Deus se importa? Acha que ele me perdoará?”). Além disso, ele recorre a infinitos corredores escuros e câmeras tremidas na tentativa desesperada de gerar desconforto — o que não equivale a significado, valor ou interesse.

PS: O filme foi apresentado à imprensa em cópia dublada. Entenda-se: a versão dublada é importantíssima nas salas de cinema, porque democratiza o acesso ao filme. Ela é bastante solicitada pelo público, e precisa existir no circuito comercial. Além disso, temos ótimos dubladores em atividade no país. Em contrapartida, em uma sessão para a imprensa, a cópia precisa ser original. Como avaliar o trabalho dos atores se não escutamos a sua voz; como pensar no trabalho de som se parte da banda sonora foi substituída? Precisamos avaliar o trabalho tal qual foi concebido pelo diretor e sua equipe — os roteiristas canadenses certamente não escreveram frases como “Não é brinquedo, não”, utilizada na versão brasileira. Quando uma entidade está “ascendendo”, rising, a tradução prefere um “Ela está subindo!”. Mudam-se as entonações, os significados. Os críticos de cinema deveriam assistir aos filmes na versão original, sempre, em qualquer circunstância. Esta é uma forma de respeito ao nosso trabalho, inclusive.

POV: Presença Oculta (2025)
2
Nota 2/10

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