
Corpos desfilam pela tela. Andam da esquerda para a direita, num fluxo contínuo, sem olharem para nós. Trata-se de representações metafóricas, distantes de qualquer naturalismo: os corpos são esticados, as expressões do rosto são simplificadas, e os trajes se confundem com aqueles que os vestem. Caminham diante de um fundo chapado, colorido e sem profundidade de campo.
Em Procissão, o diretor Alisson Pereira Flor evoca a ideia do deslocamento por motivos religiosos sem buscar retratá-los, enquanto tais, com fidelidade histórica. Pelo contrário, promove um amálgama de diferentes crenças e formas culturais, que vão desde as crenças canônicas às manifestações do folclore regional. Em comum, atravessam a imagem em fluxo semelhante, imperturbáveis. A narrativa nunca se preocupa com o lugar onde chegarão, nem os motivos que os levam a tal jornada. Dispensa-se a psicologia dos personagens, assim como a sociologia destes grupos migrantes. O meio, neste caso, constitui finalidade.
O tratamento de sons é particularmente interessante. Nenhuma fala se torna compreensível, embora possamos reconhecer conversas distantes e misturadas dos passantes, junto aos barulhos dos pés sobre o chão. O criador combina, num único processo, as falas, os barulhos e a trilha sonora, transformados num gesto único e fluido — novamente, impera a ideia de fluxo. Assim, acreditamos na verossimilhança destas representações alegóricas do povo, da comunidade e da crença.
O curta-metragem desperta certo efeito hipnótico devido ao mecanismo da andança ininterrupta, assim como às pequenas transformações incorporadas ao dispositivo. De repente, alteram-se as cores ao fundo, surgem cartas pelo trajeto (o que abordariam?), e novos elementos religiosos se inserem. A animação de figuras escuras, com aparência de sombras (Catapreta e Michel Ocelot vêm à mente), cede espaço para o artesanato de bois, girando em torno do próprio eixo, e perpassando igualmente o nosso olhar.
Paira a curiosa impressão de que o cineasta estabelece regras para si próprio, para o prazer de romper com as mesmas em seguida: surpreendem as sucessivas guinada de estilo de animação, de cores, de trilha sonora (o inesperado violino no final), de ritmo (a “falta de imagem” durante longos segundos). Nosso olhar jamais se acomoda: somos constantemente convidados a decifrar o que se passa em tela, determinando de que maneira o procedimento se desenvolve, e o que representariam as novas formas introduzidas.
Assim, Alisson Pereira Flor solicita um espectador ativo e parceiro. Ao contrário de tantos criadores de animação, não acredita na necessidade de se explicar, nem de reduzir os sentidos para a melhor compreensão. Esta é uma das virtudes do melhor cinema de animação: apostar na nossa capacidade, enquanto espectadores, de nos perder naqueles significados, texturas e sons. Ele utiliza as religiões e crenças enquanto ponto de partida para um processo estético próprio, evitando colocar o tema acima da forma. Deste modo, oferece uma experiência singular e potente, que nenhum live action poderia transmitir.





