Push: No Limite do Medo (2024)

O mito da mulher frágil

título original (ano)
Push (2024)
país
EUA
gênero
Terror
duração
89 minutos
direção
David Charbonier, Justin Douglas Powell
elenco
Alicia Sanz, Raúl Castillo, Gore Abrams, David Alexander Flinn, Justin Marcel McManus, Luke Barnett, Shaan Sharma
Visto em
Pré-estreia (Castelinho da Rua Apa)

Pobre Natalie (Alicia Sanz). Ela perdeu o marido há pouco tempo, e ainda sofre com o período de luto. Além disso, é desprezada pela própria família, como se descobre na cena inicial. Chegando ao nono mês de gravidez, esta corretora imobiliária em crise financeira aceita a tarefa ingrata de vender uma mansão onde os proprietários foram assassinados. No local, nenhum comprador aparece. Subitamente, as luzes do imóvel se apagam. A porta emperra. O elevador quebra. O carro quebra. Ela não consegue se comunicar com ninguém para pedir ajuda (estamos numa época pré-celulares). Um homem estranho começa a persegui-la. 

O cenário é cuidadosamente pensado para aumentar as dificuldades (e, consequentemente, a tensão), garantindo que a mulher seja perseguida durante 90 minutos. Caso o invasor o desejasse, ele poderia facilmente atacar a sua vítima, que se encontra sozinha numa casa isolada. Ela inclusive abre a porta para ele. No entanto, a figura silenciosa prefere o terrorismo, batendo à porta e correndo em seguida (tal qual uma criança), ou abrindo torneiras e ligando caixinhas de música e vitrolas à distância (sabe-se lá como). Ele possui força e poderes sobrenaturais, conforme se atestará no terço final. Mesmo assim, brinca com sua presa e posterga o ataque pelo prazer de fazê-lo. O filme o acompanha nesta diversão.

Push: No Limite do Medo parte da premissa da fragilidade feminina. Essa mulher pode ser admirada, contanto que sofra muitíssimo antes.

Assim, Push: No Limite do Medo (ignore-se o subtítulo genérico) parte da premissa da fragilidade feminina. Natalie possui todos os revezes possíveis: o sofrimento psíquico, a baixa autoestima, além da gravidez avançada, típico sinônimo de fraqueza nas narrativas comandadas por homens — que assinam, neste caso, a direção, roteiro, direção de fotografia, edição e direção de arte. Como se não bastasse a agressão gratuita e repentina do adversário (“Eu vou arrancar este bebê da sua barriga com uma faca!”, ele dispara), ela precisa lidar com o trabalho de parto, iniciado, convenientemente, durante o ataque. Experimente você se livrar de um homem grande, agressivo, enquanto tem contrações e dá à luz a um bebê. Para os diretores David Charbonier e Justin Douglas Powell, esta ideia soa deliciosa.

Entretanto, para provar a força feminina e o instinto guerreiro de uma mãe em defesa de sua prole, basta torturá-la durante a integralidade da trama. A heroína é humilhada, perseguida, agredida. Ela espreme a barriga de 9 meses numa viga metálica, cai da janela do segundo andar, pisa em cacos de vidro, rompe barras de ferro com as mãos, além de outros empecilhos no caminho. Caso resista à lógica do escape room, será considerada impressionante e digna de felicidade — até o próximo ataque, na sequência, tal qual ocorre a todas as final girls. Essa mulher pode ser admirada, contanto que sofra muitíssimo antes. Pode finalizar o processo do luto e acreditar em si mesma, à condição de vencer um brutamontes na luta corporal. A batalha não parece muito justa.

Em defesa de Push, pelo menos o roteiro não a trata como indefesa ou chorosa, a exemplo de tantas produções semelhantes. Diante do perigo, a protagonista se arma e parte para o ataque. Ela possui estratégias de fuga inteligentes, e nunca se desespera, nem grita. Trata-se de uma personagem racional e ponderada — característica normalmente reservada aos homens, em oposição às figuras femininas emotivas, dominadas pelos hormônios. Alicia Sanz também a interpreta com sobriedade, evitando idealizações: Natalie não seria a melhor mãe do mundo, nem a pior. Não possui qualquer habilidade excepcional de combate. Encarna uma mulher comum, no sentido mais universal do termo.

É uma pena que a personagem digna de interesse se depare com todos os clichês possíveis dos subgêneros da invasão domiciliar, das mansões mal-assombradas e da psicopatia. Os efeitos sonoros altíssimos proporcionam sustos baratos e descontextualizados — o voo de corvos pela janela surge com a potência de foguetes rasgando o céu. Sempre há um vulto no fundo do corredor, lâmpadas piscando repentinamente, além da arma no chão, que a mulher combatente quase consegue alcançar. O morto há de se levantar e continuar a perseguição, por mais evidentemente morto que estivesse. Mesmo a semiótica se mostra precária: a mãe gentil porta um vestido branco, de pureza e bondade, enquanto o vilão representa uma figura preta na escuridão.  Em pleno 2026, o terror ainda estima ser necessário recorrer a truques tão baratos para gerar medo?

Os diretores trazem algumas iniciativas valiosas, é claro. Inicialmente, Natalie percorre o casarão num plano-sequência que detalha ao espectador a geografia do local, insinuando que o conhecimento dos incontáveis cômodos e salões será relevante a seguir. (Mas não é o caso). A direção de fotografia de Daniel Katz evita ao máximo revelar o rosto do agressor, sugerindo que o espectador poderia descobrir algo acerca de sua motivação pela simples aparência (Isso tampouco acontece). Em especial, na segunda metade da jornada, o ponto de vista subitamente muda, passando a acompanhar o adversário anônimo. Paira a impressão de que Natalie se tornará a perseguidora de seu perseguidor. (Nova pista falsa).

Em outras palavras, havia elementos cinematográficos suficientes para brincar com a perspectiva, o ponto de vista, a alternância de poder neste pretenso jogo de gato e rato num casarão vazio. Ora, Push prefere se ater aos imaginários inverossímeis da feminilidade: a corretora ainda sofre com enjoos aos 9 meses de gravidez; ela tem contrações junto ao rompimento da bolsa; e nunca precisa expelir a placenta. O corpo feminino é estranho, grotesco e imprevisível, de acordo com este olhar masculino pouco interessado, de fato, nos conflitos psíquicos de uma mulher em tal situação. O problema do projeto ainda consiste em se filiar, essencialmente, ao olhar do perseguidor masculino, deleitando-se em abusar reiteradas vezes do corpo de sua vítima. Nós, espectadores, somos convidados a desfrutar do mesmo show.

PS: É uma pena que o filme tenha sido apresentado à imprensa nas piores condições possíveis. Os distribuidores tiveram a ideia lúdica de apresentar o filme no Castelinho da Rua Apa, em São Paulo, aproveitando o imaginário dos assassinatos cometidos no local. Entretanto, a sala ao ar livre não estava nada preparada para uma boa projeção. (Projeções ao ar livre podem ser excelentes em termos técnicos, conforme atestam a Mosta de Gostoso e o FestAruanda). Ora, o filme foi exibido num projetor simples, muito distante da qualidade do DCP. Com tanta luz ao redor, a tela claríssima dificultava enxergar as cenas majoritariamente escuras da trama. Em consequência, o trabalho de fotografia, de direção de arte e mesmo de atuação se perdia no borrão cinzento da tela. As buzinas e demais ruídos da avenida prejudicavam o som, sem falar num pobre cão preso logo abaixo da tela, ganindo e pedindo para sair. Obviamente, a prioridade deveria ser a melhor qualidade de som e imagem ao público, valorizando o trabalho dos criadores e também a disponibilidade do espectador. O filme não pode se tornar secundário em relação à experiência de um local atípico. 

Push: No Limite do Medo (2024)
4
Nota 4/10

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