
Para apresentar o fato que Samuel (Pedro Lucas) é gay, o menino é visto, desde a cena inicial, se maquiando em frente ao espelho. Para introduzir a homofobia dentro de casa, coloca-se um pastor evangélico na função paterna. Sabemos que o homem tem vergonha do filho, porque ele assim o diz. Compreendemos que o menino perdeu a mãe, porque menciona o luto ao pai (e ao espectador). Entendemos que se sente culpado pelo falecimento dela (uma mulher mais acolhedora e tolerante, aparentemente), porque o menino também o verbaliza.
Queimando por Dentro apresenta seus conflitos de maneira rápida, direta, e surpreendentemente literal. Jamais presenciamos o garoto no dia a dia: ele será restrito ao conflito da ordem da família e da sexualidade. O rápido flerte com outro menino ocorre durante a celebração religiosa, e o único vestígio de amizade decorre da interação com as meninas do culto. O pai será, única e exclusivamente, pastor. Nenhum personagem existe para além do grupo social, ou do exemplo de caso, ao qual pertence. Faz muita falta humanizar estes personagens para além de sua sexualidade ou fé.
Enock Carvalho e Matheus Farias, dupla responsável por alguns dos melhores curtas-metragens recentes do cinema brasileiro, optam por uma visão menos metafórica ou aberta às interpretações, como ocorria ao excelente Inabitável. Agora, para sugerir que o rapaz queima por dentro, utilizam o som do fogo projetado sobre o rapaz, junto de um quadro devorado pelas chamas. De repente, a narrativa que se construía em chave extremamente próxima aos filmes de Carolina Markowicz acaba preferindo as ferramentas de Retrato de uma Jovem em Chamas, onde o fogo era utilizado, igualmente, da maneira mais referencial e óbvia possível.
Por fim, o conflito se torna claro, assim como a crítica a um Brasil conservador e intolerante. As imagens são polidas, Pedro Lucas se encaixa muito bem papel central, e a montagem demonstra uma precisão implacável. Entretanto, o curta se filia a uma iconografia já desgastada do cinema queer, devido à sexualidade limitada a um problema, e à religiosidade reduzida à condição de antagonismo. Nenhum destes fatores se insere num cotidiano plausível — os personagens são desprovidos de contradições, e tampouco evoluem ao longo do percurso.
Mesmo a solução oferecida a Samuel soa tímida. A dança executada somente para os olhos do espectador, num pátio vazio, sobreposta ao óbvio som da fogueira, transparece a impressão de derrota, mesmo de conformismo, ao invés de propor a explosão do enfrentamento anunciado (e talvez concretizado, porém, fora de campo). O filme que nos prometia incêndios prova-se tão profissional quanto morno.






