Quem se Move (2025)

Fantasmas em Lisboa

título original (ano)
Quem se Move (2025)
país
Portugal, Brasil
gênero
Drama
duração
20 minutos
direção
Stephanie Ricci
elenco
Olivia Torres, João Nunes Monteiro, Izabel Nejur
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

René (Olivia Torres) não sabe se permanece em Lisboa, ou se volta para o Brasil. Sem visto de imigrante, nem trabalho na capital portuguesa, ela vive em condição de incerteza, embora os amigos e amores a motivem a permanecer na Europa. A jovem não quer voltar, mas também não se mostra particularmente feliz em ficar. “Nenhuma cidade vai resolver a sua vida”, dispara a amiga, num gesto de bruta sinceridade. Assim, durante uma noite, ela perambula com os amigos, entre festas e bares. 

A decisão parece tão urgente quanto dispensável, como se a protagonista pudesse postergá-la indefinidamente. Torres, certamente uma das atrizes brasileiras mais interessantes em atividade, encarna esta figura com desenvoltura. Ela tem a fala fácil, embora em volume baixo, sem precisar articular demais as palavras. Comunica-se como quem rumina pensamentos a si mesma, porém, espiados pelos amigos. Ajuda bastante o fato de interagir com João Nunes Monteiro, outro ator de potência ímpar, que sabe dançar com a câmera e preservar uma camada de mistério a cada personagem que encarna.

Quem Se Move é provavelmente um dos filmes mais instigantes, ou mesmo perturbadores (para o bem e para o mal) da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso. Por um lado, apresenta as imagens mais fluidas e hipnóticas desta edição. Existe uma segurança absurda por parte da diretora Stephanie Ricci, e do diretor de fotografia Leonardo Simões, ao adotarem uma câmera na mão, fluida, permitindo tremidas e solavancos, e ainda efetuando longos zooms-in e out e direção aos personagens. As cenas da dança, com seus flashes próximos ao cinema de animação, e a performance de Quizás, Quizás, Quizás ao karaokê, num longo plano que desliza entre mesas e personagens, transmitem uma corporalidade marcante.

Por outro lado, a visão a respeito da vida de imigrante resulta pouco satisfatória. Estes personagens são retratados como fantasmas locomovendo-se a esmo, sem vontades nem objetivos, de moral tão ampla quanto sua sexualidade. A cena do roubo do dinheiro, e mesmo o final, sobre a varanda, aproximam-se da performance meramente evocativa. Temos personagens de classe média, que nunca se esclarecem aos nossos olhos em termos de motivações para irem (ou para ficarem), em suas situações precisas de estudo, trabalho e amor. O curta-metragem se insere nesta onda de projetos que encaram o imigrante enquanto um indeciso, uma figura perdida — espécie de alma penada num constante purgatório. (Ou ainda um vagabundo, no sentido estrito daquele que vaga por aí).

Assim, a discussão a respeito de fluxos migratórios se esvazia de seu evidente contexto político, das mudanças de governo, dos vistos. Nem mesmo as barreiras culturais soam determinantes neste caso, tornando-se uma não-questão. René se encontra em Lisboa, mas poderia estar em qualquer outra cidade mundo afora, posto que o contexto particular deste país não interessa à direção. Pensa-se o imigrante enquanto estado de espírito, uma condição existencial e psicológica, ao invés de uma questão política e social.

Deste modo, Quem Se Move proporciona o maior gozo estético possível, aplicado a uma discussão politicamente inerte. Ele interessa bastante enquanto cinema queer, e se sobressai formidavelmente como pesquisa de linguagem. No entanto, a forma se sobrepõe ao tema, e o fagocita. Esta profusão alucinante de estímulos e deslocamentos se presta a uma reflexão blasé, culminando no desfecho abertíssimo. Em suma, o filme passeia pelo tema da imigração sem jamais mergulhar nele.

Quem se Move (2025)
7
Nota 7/10

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