Rabia: As Esposas do Estado Islâmico (2024)

Bombas no horizonte

título original (ano)
Rabia (2024)
país
França, Alemanha, Bélgica
gênero
Drama, Guerra
duração
94 minutos
direção
Mareike Engelhardt
elenco
Megan Northam, Lubna Azabal, Natacha Krief, Lena Lauzemis, Klara Wördemann, Maria Wördemann, Andranic Manet, Lena Urzendowsky
visto em
2º Festival de Filmes Incríveis (2025)

O primeiro elemento de surpresa neste drama diz respeito às motivações que levam as amigas Jessica (Megan Northam) e Laïla (Natacha Krief) à Síria, para se casarem com combatentes do Estado Islâmico. Diversos filmes abordando o tema se concentram no extremismo religioso, revelando as convicções inabaláveis daqueles que aderem ao combate. Privilegia-se o espetáculo da radicalização, retratando a cegueira ideológica enquanto grito de alerta aos olhares moderados. Em contrapartida, neste longa-metragem francês, nenhuma fé particular guia as duas jovens adultas, que viajam ao país em conflito na expectativa de alguma forma de aventura.

Em seu país de origem, as heroínas imaginadas pela diretora Mareike Engelhardt dedicam-se a trabalhos entediantes, e convivem com familiares que não as apreciam. Assim, a oportunidade de se mudarem para uma realidade distinta, convivendo com outra língua e costumes, soa como uma rebeldia juvenil, um modo de provocar o sistema. Elas aprendem o mínimo necessário de árabe, e leem os aspectos elementares do Corão. Riem diante da informação de que não podem raspar os pêlos pubianos antes do casamento; e fazem piadas sobre a nova vida doméstica. Quem sabe, também poderão pegar em armas e partir ao campo de batalha? O futuro se anuncia estranhamente empolgante às duas francesas com pouco a perder.

Rabia: As Esposas do Estado Islâmico impressiona pela qualidade bruta das atuações. Infelizmente, o roteiro sutil, a princípio, se torna cada vez mais didático.

Rabia se dedica, então, ao subgênero da descida ao inferno (descente aux enfers, segundo os franceses), que consiste em confrontar a ingênua protagonista às consequências de suas ações, de modo progressivamente violento. Assim, ela (e o espectador, por extensão) aprenderá a gravidade de tomar por brincadeira algo tão sério quanto um grupo terrorista em guerra. Inicialmente, Jessica descobre que o homem a quem estava prometida não se casará mais com ela. Depois, é separada da amiga. Segue-se então uma jornada de violências, humilhações, tentativas de estupro, sequestro, tortura e escravidão. Apela-se ao cautionary tale, ou à educação através do medo e do anti-exemplo de conduta.

Apesar da configuração propensa ao maniqueísmo (uma figura muito doce enfrentando vilões perversos), o roteiro consegue escapar à caricatura. Jessica logo se converte numa espécie de carrasca, assimilando o comportamento de suas detratoras enquanto forma de sobrevivência. Ela deixa de ser vista como vítima a partir do momento em que inflige a terceiros punições tão graves quanto aquelas sofridas por ela. Face à (anti-)heroína, a Madame (Lubna Azabal) constitui uma figura tão sedutora quanto autoritária, alternando rompantes de gentileza e violência. Trata-se, possivelmente, da melhor personagem do projeto, encarnada com a devida ambiguidade por uma atriz em estado de graça.

Afinal, esta mulher encarna a ponte entre os dois mundos — tanto cultural quanto eticamente. A Madame se formou em direito na França, entretanto, repudia a liberdade de costumes no país que a abrigou. Ela fornece a Jessica um olhar materno e uma sensação de importância irresistíveis. A jovem, que se sentia invisível, recebe uma valorização simbólica fundamental, além da inédita aprovação familiar. Ela se radicaliza menos por convicção do que pelo senso de acolhimento e pertencimento fornecido pelo grupo. Em última medida, não seria este o elemento central para o recrutamento em células extremistas?

Infelizmente, o roteiro sutil, a princípio, se torna cada vez mais didático. O longa-metragem aproveita uma série de coincidências para acentuarem a progressão da personagem, embora soem inverossímeis por uma perspectiva naturalista. O retorno do combatente (Andradic Manet) e da melhor amiga Laïla em circunstâncias adversas soa conveniente demais para o discurso esfregar no rosto da jovem seu despotismo recém-adquirido. É difícil de pensar que a esposa fugidia receberia a permissão para sair da sala sozinha e buscar os pertences em algum lugar distante, somente para que o roteiro lhe proporcione o destino trágico previsível. Quando as questões de maternidade já se tornaram suficientemente claras, o texto ainda deposita nos braços de Jessica um bebê providencial, de modo que se sinta uma mãe responsável, e tenha motivos para planejar a escapada.

Em outras palavras, os rumos se tornam cada vez mais domesticados e formulaicos, porque Mareike Engelhardt insiste em ressaltar ao espectador os horrores da clausura na Síria, mesmo que comandada por mulheres. É fundamental à autora que ninguém suspeite de um final feliz a Jessica, razão pela qual sublinha cada novo percalço no caminho. Com provável receio de ser considerada conivente ou apática face à agressão alheia, a autora toma o caminho simetricamente oposto, mostrando-se punitiva e pedagógica até demais. Ainda que bem filmado em termos de linguagem, com um misto de elegância e contenção, o bombardeio do prédio se converte no ápice da derrocada pessoal da estrangeira. O fracasso de sua empreitada transparece em símbolos externos, claros, mesmo óbvios.

Pelo menos, Rabia: As Esposas do Estado Islâmico impressiona pela qualidade bruta das atuações. Nenhuma atriz demonstra autopiedade, enquanto os poucos rapazes em cena escapam à armadilha do exagero. O texto se mostra suficientemente educativo para que as atuações precisem sublinhar intenções e gestos. A diretora sabe calibrar o elenco de modo que atuem com certo automatismo, sem questionar suas ações. A principal violência se encontra justamente na aparente banalidade de tantas agressões, cometidas como práticas cotidianas e toleradas. Os personagens se conduzem com a certeza de quem não questiona o funcionamento daquele mecanismo social — a reflexão ou possível indignação caberá ao espectador, diante dos absurdos que ocorrem em tela. Além disso, grande parte das opressões ocorrem entre mulheres, que incorporam um ideal de repressão herdado da masculinidade reinante.

Ao final, a guerra permanece tão próxima quanto distante — ela se encontra literalmente no horizonte, com fumaça e explosões à vista. Enquanto isso, as mulheres acreditam ocupar um paraíso de louvor e religiosidade, transformado em prisão autogerenciada. A cineasta sugere, assim, que a guerra invadiu o espaço doméstico, para além do campo de batalha. Segundo este discurso, o terrorismo surte efeitos que superam os cadáveres e armas. Ele infiltra as famílias, destrói as subjetividades e corrompe perspectivas de futuro. Conforme Jessica, Laïla e as outras garotas se entregam de bom grado ao futuro de parideiras para os líderes do Estado Islâmico, elas nem mesmo possuem um presente a si próprias. Abdicam de qualquer integridade em nome de uma ilusão que se prova rapidamente insustentável. Talvez, por isso, a narrativa de Rabia se assemelhe tanto à estrutura de um longo pesadelo.

Rabia: As Esposas do Estado Islâmico (2024)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.