Ressonância (2025)

Lugar de mulher é na estrada

título original (ano)
Ressonância (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
19 minutos
direção
Anna Zêpa
elenco
Soia Lira, Quitéria Kelly, Amora Maux, Alexandre Muniz
visto em
20º Festival Comunicurtas (2025)

Margarida (Soia Lira) se encontra em uma fase da vida onde ainda se sente plenamente capaz e potente, embora as demais pessoas afirmem o contrário. Na casa dos 60 anos, a mulher segue trabalhando como caminhoneira. Ela pretende continuar nessa função, mas sofre a pressão da filha e do genro para interromper as atividades e permanecer no lar. Efetua uma ressonância magnética no hospital, e enfrenta as dores nas costas de maneira pragmática, com uma cinta comprada na farmácia — aparentemente, por iniciativa própria. Quando a neta lhe pergunta se ela não tem medo da estrada, a avó responde que seu medo seria ficar em casa.

Os melhores instantes do curta-metragem decorrem das miudezas cotidianas. A diretora Anna Zêpa possui belo olhar de cronista ao filmar a avó tomando o comprimido assim que acorda, com uma bolsinha posicionada sobre o móvel ao lado, e pedindo à criança um copo d’água. Existe uma aparência de naturalidade e repetição neste gesto, como se o fizesse todos os dias. O preparo da buchada na cozinha, o jogo de dominó na entrada da casa e a aparente frieza do genro ao cumprimentá-la descrevem uma família de fácil identificação. A cineasta elabora uma construção verossímil, de anos de convivência, a partir de poucas cenas funcionais.

Enquanto isso, a fotografia de Carlos Segundo opta por filmar esta mulher através de objetos, por entre frestas, como se ela estivesse, de fato, impedida, presa pelas demandas de terceiros. Existe uma elegância discreta no dominó registrado através das barras do portão da casa, e o mesmo vale para a sequência do posto de gasolina, onde enxergamos a mulher pelo vão do capô aberto. Nosso olhar, neste caso, permanece no banco de trás do carro, como se fôssemos nós a criança que tanto admira a avó caminhoneira. Existe uma mistura de pudor e respeito no olhar por essa figura que ainda preserva seus mistérios ao público. Os verdadeiros olhos da casa, que correspondem àqueles do espectador, são de fato os olhos infantis de admiração.

Não por acaso, a obra é dedicada à avó de Zepa, também chamada Margarida, o que presume a construção de uma história real e uma homenagem, na qual a cineasta corresponderia à menina do título. De qualquer modo, o curta se sobressai na construção das duas mulheres (avó e neta), enquanto soa mais simples na elaboração da filha e do genro, muito próximos do maniqueísmo. O roteiro teria se beneficiado de algum respiro na relação com os donos da casa, sempre sentados à mesa, com suas frases abruptas à avó (mesmo neste caso, filmada em posição mais afastada da câmera do que os demais). A representação do emprego da protagonista também soa modesto, carecendo de algumas sequências em que o transporte de mercadores se concretizaria em imagens.

Mesmo assim, Ressonância se sobressai na tarefa de registrar um instante de transição de um adulto funcional àquele forçosamente colocado numa posição doméstica, limitada, inativa. Margarida está perfeitamente ciente de suas limitações, porém, prefere lutar contra elas, ao invés de acatá-las passivamente. Por isso encontra tamanho espelhamento na menina corajosa, inventiva, disposta a escalar as escadas do gigantesco caminhão. As duas transparecem vigor, em oposição à vida de conformidade imposta pela geração intermediária. A mulher ainda vibra, vai a bares, brinca com a neta. Por isso, os aparentes cuidados da filha lhe soam tão castradores. Há uma delicadeza neste retrato que se atém, rigidamente, à perspectiva de Margarida.

Ressonância (2025)
7
Nota 7/10

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