Rosario (2025)

A maldição dos imigrantes

título original (ano)
Rosario (2025)
país
Colômbia, EUA
gênero
Terror
duração
88 minutos
direção
Felipe Vargas
elenco
Emeraude Toubia, David Dastmalchian, José Zúñiga, Diana Lein, Emilia Faucher
visto em
Cinemas

Quando vemos Rosario (Emeraude Toubia) comandando uma grande empresa de finanças, sendo respeitada pelos demais, e se impondo face a homens brancos arrogantes, podemos criar boas expectativas para este longa-metragem. Afinal, quantos mexicanos, filhos de imigrantes ilegais, ganham uma representação de beleza e poder no cinema industrial? Entretanto, a ilusão se rompe: o roteiro logo revela que o sucesso da jovem ambiciosa se deve a um pacto com as forças do mal — nunca ao seu esforço pessoal, muito menos, àquele dos familiares que atravessaram perigosamente a fronteira, em busca de um futuro melhor. Conforme o próprio pai diz, a única possibilidade para a ascensão social da garota seria o apelo à magia negra.

O caráter assombroso deste longa-metragem decorre de uma representação particularmente catastrófica e catastrofista do Palo Mayombe. A religião de origem africana, praticada por pessoas escravizadas, também se popularizou em partes da América Central e do Sul. O diretor colombiano Felipe Vargas se apropria então das velas, mandingas, decorações e acessórios típicos desta crença para imaginar demônios que entram nos corpos, grudam no teto, desaparecem sem motivo e se escondem em salas secretas.

O longa-metragem molda a cultura de africanos e mexicanos para o olhar dos norte-americanos brancos — nunca se tem por objetivo que os espectadores latinos se enxerguem na tela.

Isso é possível porque o cineasta acredita que o exagero corresponde a uma sobrecarga de medo, ou seja, quanto mais estímulos, mais assustadora seria a sua história. Trata-se de uma falácia, é claro. Mesmo assim, o apartamento da avó morta se aproxima da caricatura cômica do cortiço: as paredes estão descascando, e as luzes acesas ainda deixam os cômodos inexplicavelmente escuros. Cada peça do mobiliário ostenta enormes manchas de sujeira, enquanto larvas caminham pelos cantos. Tudo é sujo, nojento, perturbador. Vale ressaltar que esta configuração já existia muito antes do falecimento da vó-bruxa. A direção estima que a mulher vivia seus dias mergulhada num calabouço de podridão.

Assim, o principal incômodo diante de Rosario reside no exotismo da alteridade. Sob pretexto de homenagear a crença alheia, os criadores a tornam digna de escárnio. Os imigrantes, neste filme, são associados a pessoas pouco civilizadas, incompatíveis com o resto da sociedade, vivendo como ratos num edifício dominado por figuras estranhas, ameaçadoras, empoeiradas. Todos os personagens estrangeiros desta jornada se envolvem, de maneira mais ou menos direta, com rituais satânicos associados à autoflagelação, assassinato e suicídio. Em tempos de Donald Trump e popularização da extrema-direita, tamanha estigmatização do estrangeiro corresponde a um gesto reacionário, para dizer o mínimo — uma abordagem ainda mais lastimável por se tratar de um diretor latino.

Mesmo observando por uma perspectiva puramente estética, o resultado se mostra desastroso. Vargas introduz uma infinidade de sustos fáceis, além de efeitos sonoros repentinos e outros lugares-comuns do terror de assombração. Vultos escuros passam por trás da protagonista, filmados em planos inclinados (que o diretor estima serem mais amedrontadores, sabe-se lá o porquê). A montagem interrompe os planos abruptamente, apresentando grande dificuldade em sugerir a passagem do tempo. Por que o pai demoraria uma noite inteira para chegar? Por que, pouco tempo após descobrir a existência de um pacto com o mal, Rosario já está desesperada, gritando “Vou romper com essa maldição! Você não vai vencer”?.

Além disso, a decisão de colocar a jovem sozinha em cena durante metade da trama tampouco ajuda a direção. Precisando transmitir diversas informações ao espectador, e sem encontrar um interlocutor para as demandas da protagonista, Vargas solicita à atriz que verbalize seus pensamentos em voz alta. “Só o caldeirão pode quebrar a maldição!”, ela conclui, sem nenhum indício para tal. “Que comece a sangria!”, ela festeja sozinha. “Onde coloquei aquele livro de feitiço?”, questiona. “Vou te prender ao corpo da minha avó”, ela explica ao objeto inanimado. Trata-se de recursos paupérrimos de roteiro, sobretudo considerando que o projeto contava com um excelente ator, David Dastmalchian, no papel do vizinho com quem a heroína poderia desenvolver interações dignas de interesse. No entanto, o pobre Joe se limita a clamar por uma AirFryer emprestada.

Enquanto isso, a mise en scène acumula conflitos com tal intensidade que se assemelha a uma esquete de comédia. Ao fugir do prédio mal-assombrado, Rosario enfrenta, em questão de minutos, uma nevasca intensa, homens abusadores na porta do edifício, um possível assaltante no metrô, um cão assassino e grades que a esmagam. Ao esclarecer que a avó teria um espaço escondido, o roteiro concebe uma espécie de calabouço gigantesco (escuro e nojento, obviamente), dotado de uma improvável abertura no teto, e com amplitude capaz de dobrar a dimensão do imóvel. A direção de arte satura os sentidos de tal modo que beira a ridicularização. Entretanto, Rosario se leva muitíssimo a sério, como se estivesse discutindo um grave dilema afetando distintas gerações de mexicanos nos Estados Unidos.

Atenção: possíveis spoilers a seguir.

Entretanto, a pretensa culpa da protagonista por ter abandonado a mãe e avó nunca convence, devido à falta de evidências (uma vez mais, ela precisa explicar seus sentimentos em diálogos). A descoberta de livros, símbolos e rezas ocorre com uma rapidez inverossímil, provocando na empresária um senso generalizado de repulsa. No final, Rosario representa o olhar do norte-americano branco, de classe média, que observa os estrangeiros na condição de figuras estranhas, com costumes bizarros, que seria melhor manter a uma boa distância — para a nossa própria segurança. 

É um tanto perverso construir uma figura de origem mexicana para veicular um discurso xenofóbico e racista. Entretanto, o longa-metragem molda a cultura de africanos e mexicanos para o olhar dos norte-americanos brancos — nunca se tem por objetivo que os espectadores latinos se enxerguem na tela e identifiquem com aquele retrato. Rosario representa, em paralelo, a sugestão de embranquecimento via assimilação cultural, percebida como única via possível para o sucesso. Afinal, ela mal fala espanhol, e abandonou as práticas de sua infância. No entanto, nem Rosario, nem os pais mereciam tais conquistas, obtidas “ilegalmente”, trapaceando por meio do pacto com Kobayende. 

Por fim, resta a constatação de que a heroína pode se esforçar muito, porém, nunca será uma norte-americana igual aos colegas brancos. Não se espanta que, em sua ideia de final feliz, Vargas afaste a heroína da grande empresa, sem motivos aparentes, relegando-a a uma micro consultoria pessoal, onde ajuda pequenas famílias mexicanas. Ela se reconecta com sua cultura, às custas de se separar do mundo empresarial dos Estados Unidos, no qual ocupava um cargo elevado. “Que ela fique entre os seus”, sugere o filme, incapaz de conceber aos imigrantes uma forma honesta e positiva de pertencimento.

Rosario (2025)
2
Nota 2/10

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