Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026)

O bordel do fim do mundo

título original (ano)
Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026)
país
Brasil
gênero
Drama, Suspense, Fantasia
duração
96 minutos
direção
Denise Vieira
elenco
Pietra Sousa, Cida Souza, Aysha Layon, Erica Mailane, Tainá Cary, Sanara Medeiros, Laura Ferreira, Jirlene Pascoal, Denize Passos
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

É preciso ter muita ousadia para reunir, num longa-metragem de estreia, uma fantasia distópica e a linguagem do cinema documental. Por um lado, Sabes de Mim, Agora Esqueça se baseia numa premissa descolada do realismo. Num futuro próximo e indefinido, os Lanternas são agentes de um regime opressor, encarregados de apreender indivíduos indesejados pelas ruas. A ultravigilância masculina enfrenta a resistência de uma ferramenta misteriosa comandada pelas mulheres, capaz de interferir na memória dos homens. Enquanto eles oprimem pelo controle do espaço público, elas se defendem na manipulação da intimidade.

Por outro lado, as protagonistas desta ficção, abrigadas num bordel, convertem-se numa família cujas interações transparecem uma aparência de improviso. Em determinado momento, as mulheres conversam sobre seus limites na cama com os clientes. As trocas a respeito de sexo anal, cheiros corporais e dirty talk aparentam decorrer de um estímulo livre às atrizes, a partir de um tema amplo, condicionado previamente. Algo semelhante ocorre quando a cafetina assume seu caráter briguento, elencando as recordações de quando revidou contra seus algozes. O que dizer, então, da fala perfeitamente naturalista da costureira junto a Rúbia, recém-chegada na casa? A narrativa está repleta de pérolas de um absurdo verossímil, porque compartilhado entre todas as partes (ou seja, pelas garotas da casa, umas com as outras, mas também com o espectador).

Os filmes mais libertários e politicamente provocadores do cinema brasileiro recente leem o corpo e a sexualidade enquanto espaços de afeto, mas também de fantasia, de acolhimento, de reinvenção de si.

Assim, as heroínas encontram refúgio neste local tão protegido quanto perseguido — um parêntese do real, porém existente em função das violências que o cercam. Do lado de fora, pastores evangélicos pregam contra os pecados da prostituição, que ameaçariam a “família tradicional”. Ali dentro, elas distribuem roupas e chinelos encontrados, e jamais se envolvem em nenhuma rivalidade interna. A diretora Denise Vieira está muito mais interessada em pesquisar laços de sororidade numa situação adversa do que em mergulhar nos artifícios habituais do suspense (incluindo espiões, delatores, personagens vendidos ao sistema, etc.). A tensão se encontra principalmente nas sugestões, através do som e do espaço fora de quadro. Cabe ao espectador imaginar a brutalidade deste governo, jamais materializadas pela fotografia de Victor de Melo.

Logo, estamos em território de uma fantasia metafórica, plenamente ciente do escopo de sua produção de baixo orçamento. Experiente diretora de arte, Vieira aposta suas fichas neste espaço labiríntico do bordel, evitando explorar os espaços ao redor para além dos terrenos desérticos das cenas inicial e final. Prefere construir as luzes coloridas dos corredores, a disposição das camas no quarto dividido entre Rúbia e uma colega sonhadora, ou o pátio onde recebem os frequentadores para “atendimentos”. Quando a novata cogita procurar clientes nas redondezas, recebe como resposta: “Se você não tiver medo de morrer…”. A fala provém da gerente da casa, mulher “de 258 anos”, que já morreu “50 vezes”. As moradoras estranham os números, mas não tanto assim — algo nesta extrapolação ainda soa possível. Aí reside o indício do perigo.

Quanto aos homens, são reduzidos a passantes curiosos, porém submissos às estritas regras da casa. As trabalhadoras ditam o funcionamento das interações sexuais e, mesmo quando são amarradas, o fazem por exigência própria. Aos poucos, o longa-metragem permite que este sexo proibido se materialize em cenas explícitas, mas também leves, descompromissadas, imbuídas de forte teor cômico. Enquanto um homem controlador descobre o prazer da dominação, outro performa uma dança solitária pelos corredores, esperando sua vez de ser atendido. Depois, perambula numa rua vazia e desbotada. A alegria se encontra somente neste sexo de ocasião — ainda que o gozo dependa do esquecimento. A única maneira de viver plenamente, num universo autoritário, reside na voluntária ignorância dos acontecimentos ao redor. Este cabaré do fim do mundo constitui, portanto, um esconderijo e uma resistência.

Sabes de Mim, Agora Esqueça surpreende pela qualidade bastante homogênea do elenco. Pietra Sousa sustenta uma força inabalável no olhar, de grande naturalidade, avessa à vontade de impressionar. Sua presença muito despojada em cena justifica a quantidade expressiva de close-ups na atriz: ela ocupa com méritos o posto de protagonista. Já Aysha Layon, no papel da garota sensível, evita a ingenuidade caricatural do imaginário de uma prostituição inocente, preferindo certa ternura ancorada na realidade (vide o reencontro com o cliente). As mulheres idosas são, sem exceção, excelentes em seu comando da casa, e cada atriz coadjuvante recebe ao menos um instante para demonstrar seu talento. Não há um único elo fraco no elenco.

O projeto acumula tantas qualidades que os possíveis revezes provêm de cenas minúsculas, que passariam despercebidas na maioria das obras — caso de uma interação durante a festa com os homens, cujo som aparenta estar dublado, ou fora de sincronia. Ora, nada disso oculta a qualidade de um suspense construído sem pressa, no qual tanto o corpo quanto a memória se desnudam de maneira muito bem calculada em termos de roteiro e realização (vide a aparição inicial do corredor escuro, a grade trancada, e os primeiros sinais do que ocorre no quartinho dos fundos). A montagem convence tanto no instante mais claramente ficcional (a fuga das mulheres à noite, entre caminhões) quanto no bate-papo das amigas dentro de casa. Chegada a noite das múltiplas interações sexuais em paralelo, a montagem de Frederico Benevides imprime um ritmo catártico, buscando compartilhar o prazer com o espectador.

É muito interessante que os filmes mais libertários e politicamente provocadores do cinema brasileiro recente provenham desta leitura do corpo e da sexualidade enquanto espaços de afeto, mas também de fantasia, de acolhimento, de reinvenção de si. Grandes obras como Parque de Diversões, de Ricardo Alves Jr., Vento Seco, de Daniel Nolasco, Vulkan, de Julia Zakia, Uma Paciência Selvagem me Trouxe Até Aqui, de Éri Sarmet, e Casa de Bonecas, de George Pedrosa, transmitem a noção de uma resistência através das famílias eletivas, ou das amizades sem tabus, baseadas num princípio do gozo democrático. Trata-se de filmes nos quais o corpo jamais procura chocar, sendo filmado com admiração, respeito, mas também potência. Festeja-se que Vieira se junte ao grupo, retratando feminilidades (cis e trans, jovens e maduras) com tamanho cuidado e complexidade. O espectador não corre o risco de se esquecer das mulheres desta casa tão cedo.

Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026)
9
Nota 9/10

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