
Se Eu Fosse Vivo… Vivia é dedicado à investigação da permanência amorosa. Quando duas pessoas estão conectadas desde a juventude, de que maneira o sentimento se transforma com o passar do tempo? Que tipo de intimidade adquirem no amadurecimento, e quais perspectivas teriam na velhice, quando um se encontrar longe do outro, devido à morte? O diretor e roteirista André Novais Oliveira efetua um salto de cinquenta anos no tempo, na sua cidade predileta de Contagem (MG), para acompanhar a história de Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo).
Para a juventude dos protagonistas, ele desenha uma cidade vibrante, apesar dos hábitos pacatos. Durante os anos 1970, o local é marcado pelos bailes black, pelas serenatas durante a madrugada e a formação de novas bandas de rock. Com o suporte de uma intensa granulação da película, além de uma atenção especial aos figurinos, penteados (o black power, claro) e cenários, o diretor se concentra numa época de delícias. Cada plano de detalhe nos lábios da mulher amada, ou nas mãos atrás das costas dela, conforme dançam juntos, transparece um misto de carinho, desejo sexual e simples prazer de estar vivo.
André Novais Oliveira nunca havia mergulhado de maneira tão clara e, ao mesmo tempo, tão literal, no universo fantástico.
O início, portanto, se prova fortíssimo. Os jovens atores estão excelentes nos papéis de rebeldes apaixonados, enquanto as broncas dos pais remetem a um tipo de criação patriarcal abordada com ternura, mas também, senso de paródia. O olhar crítico do diretor nunca implicou em indignação, acusações ou qualquer outro sentimento sanguíneo em relação à nossa educação — algo compreensível para um artista que sempre trouxe seus pais, literalmente, à sua cinematografia. Ele sempre soube rir da moral e dos bons costumes.
Uma vez crescidos, os heróis embarcam num segmento narrativo ainda mais potente. Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo formam um casal excelente, seja quando vão ao médico juntos (e revelam ao doutor as más condutas do esposo e esposa), seja quando implicam na maneira de salgar a carne e descascar a laranja. O roteiro incorpora com naturalidade a noção de uma dupla plenamente habituada aos gestos alheios. Seria difícil imaginá-los separados, posto que a trama sempre os definiu pela presença do outro, e sua força (cômica, dramática) está intimamente ligada ao delicioso jogo cênico instaurado entre ambos. André Novais Oliveira cria praticamente sua dupla-prodígio, seu buddy movie.
Entretanto, a perspectiva da separação se anuncia no horizonte. Mencionam-se os problemas de saúde dos dois idosos vivendo juntos. Romanticamente, sofrem um colapso simultâneo: ele sente uma forte pontada no peito enquanto ela desfalece em uma loja no centro da cidade. Durante uma festa esvaziada, Jacira especula a respeito da vida de Gilberto após sua própria morte. Sugere que ele se case com a atual cunhada — para o horror do marido. Garante que, mesmo morta, retornará para se juntar ao marido de alguma forma. Nas cenas seguintes, é levada ao hospital.
Neste instante, a beleza do filme é tão intensa quanto preocupante. O diretor se encontra no ápice de seu domínio da linguagem cinematográfica. Trabalha com um texto impecável, e implementa com desenvoltura seu método de preparação de atores não-acadêmicos. O espaço da casa é belamente registrado, o que vale tanto para o quintal onde o marido gosta de ficar, quanto para a frente da casa, onde a esposa sobe num banquinho para espiar a briga dos vizinhos. Na sala de casa, a direção de fotografia, a partir de uma janela em scope, evita a frontalidade excessiva das cenas, encontrando imagens anguladas que valorizam os espaços. Além de transbordar de humanidade, humor e afeto, este segmento faz prova de um controle estético absurdo. André Novais Oliveira é, sem dúvida, um dos maiores cineastas em atividade no país.
Entretanto, a fantasia desperta reticências. Desde o início, o realismo mágico pede licença para adentrar a trama. Surge discreto na noite dos vagalumes, quando os namorados, ainda adolescentes, se perdem. (Inclusive, a luz dos insetos se expande de tal forma que permite à tela quadrada se esticar até o formato do widescreen). Em seguida, as insinuações de retorno após a morte nos preparam para algum elemento disruptivo em relação ao naturalismo reinante. Quando, enfim, a magia toma conta da obra de maneira escancarada e ostensiva, o projeto se transforma por completo.
Revelar exatamente o que ocorre nos rumos de Se Eu Fosse Vivo… Vivia constituiria um spoiler dos grandes. Basta dizer que, em primeiro lugar, o roteiro escolhe separar os amantes inseparáveis. Posto que sua força era extraída do convívio, o projeto sofre um baque considerável a partir desta bifurcação. Mesmo os enquadramentos se revelam perdidos pela primeira vez (vide duas estranhas caminhadas dos personagens rumo à câmera, saindo do quadro pelas laterais, e espremendo-se diante do dispositivo). Ainda mais grave será a decisão de se despedir de uma personagem fundamental, como quem a abandona em casa, numa condição física e psíquica extrema. Embora se trate de uma representação possível do luto, sua ausência total se faz sentir. (Seria esta a intenção precisa dos criadores?).
Enquanto isso, a outra metade do casal, uma vez solitária, manifesta problemas de saúde graves e repentinos, que afetam seu destino por completo (quando um sofre, o outro também sofre em simultâneo, lembra?). O personagem se converte em outra pessoa. Parte numa jornada própria, seu road movie íntimo e particular pelo centro da cidade. Muda de classe social e de aparência. Em contrapartida, foca-se numa subtrama envolvendo seres extraterrestres, e a ânsia por encontrar, junto às criaturas, uma nova forma de lar. Encontramo-nos, praticamente, num filme distinto.
É possível comemorar a decisão corajosa dos artistas da Filmes de Plástico em promover uma guinada tão radical, abraçando sem meios-termos o imaginário da ficção científica. O diretor sempre flertou com estes conceitos: a imagem de sua mãe quase voando, agarrada às grades da casa, estampa a vinheta da distribuidora Malute. Em contrapartida, Oliveira nunca havia mergulhado de maneira tão clara e, ao mesmo tempo, tão literal, no universo fantástico. Entram em cena diversas cenas com efeitos visuais um tanto artificiais, e nem sempre assumidos como tais. Eram muito mais graciosos os portais no espaço-tempo, rasgando o quintal de casa, do que a imagem direta de um disco voador. A fantasia interessava mais quando servia de metáfora para comentar o real, não uma alternativa para substituí-lo.


Ora, uma vez separado o casal em seus rumos (e acompanhando apenas o percurso de um deles), o longa-metragem perde um tanto de sua força e seu encanto. Nenhuma imagem, enquadramento ou recurso de som se equipara à excelência encontrada nas primeiras partes (de fato, Oliveira havia colocado a barra altíssima para si próprio). Os rumos ainda divertem bastante, em virtude da recusa da catarse em contextos propícios ao maravilhamento e ao espanto. Ele aborda o sobrenatural com a gentileza de um bom-dia (vide a cena final). Entretanto, resolve o mundo, não o amor. Costura o elemento da magia que sempre atravessou a jornada dos heróis, porém, o próprio casal soa esquecido, minimizado, num projeto que se anunciava enquanto grande carta de amor a ambos.
Trata-se de uma escolha marcante, sem dúvida. Graças a esta profunda quebra de expectativas, o resultado não corre o risco de ser esquecido tão cedo. André Novais Oliveira poderia ter se restrito ao romance, em tom linear e coeso — algo semelhante à ambientação proposta em Ela Volta na Quinta e Temporada, por exemplo. Ele certamente saberia seguir pela linha narrativa da primeira metade deste novo roteiro, e ofereceria ao espectador mais uma obra-prima de carinho e crônica cotidiana. Em contrapartida, preferiu se arriscar, como é importante a qualquer artista. Lançou-se num registro inédito, uma transformação inesperada. Em especial, abraçou uma utilização bruta da linguagem digital, para uma obra que se mostrava tão palpável, tão próxima da vivência do espectador, tão pé no chão. A fusão do cotidiano com o sobrenatural sempre demanda um equilíbrio delicado.




