
No papel, a empreitada parece ótima. Reunir Omar Sy, um dos maiores astros do cinema popular francês, com Kerry Washington, enquanto casal de agentes procurados por gangues, apoiados por Da’Vine Joy Randolph e Method Man. Enquanto os astros cuidam da ação, romance e drama, o humor fica por conta da dupla secundária, compondo um elenco de maioria negra que venera a música de Lionel Ritchie e viaja por inúmeros países atrás dos adversários, nos moldes de um 007. Marido e esposa atiram e cuidam do filho pequeno ao mesmo tempo (às vezes, na mesma cena). O slogan sintetiza: “Família acima de tudo”.
Logo, apela-se a um discurso conservador genérico, que sempre impulsionou o heroísmo brucutu (“Posso matar quem eu quiser em nome da proteção da minha família”), mesclado a um progressismo discreto (elenco negro, coadjuvantes multiétnicos no esquadrão Shadow Force, vilão na forma de um empresário corrupto da política tradicional). Há traições, agentes infiltrados, e uma criancinha em risco no meio em meio a pelo menos três tiroteios. Os ajudantes são chamados de “Tio” e “Tia”, enquanto o principal adversário representa um romance do passado. É preciso que tudo gire em torno da vida íntima e familiar de Kyrah e Issac — a matança e perseguição é concebida para eles.
Todos ali sabem, em certa medida, que estão trabalhando num filme B. Pelo menos, na consciência de suas limitações criativas, Joe Carnahan apresenta um resultado competente.
Então, alguns problemas de produção aparecem. Shadow Force — Sentença de Morte dispõe de um orçamento inferior às necessidades do projeto, o que se traduz na supressão de importantes momentos de ação. Personagens caem na água, dentro de um carro, porém, a cena é filmada de longe, dispensando qualquer indício de que os atores estejam, de fato, submersos. Depois, eles conseguem escapar para uma ilha ao redor, embora os vejamos somente caminhando pós-fuga. O pai salva o filhinho de um tiroteio no banco, apesar de nunca presenciarmos em detalhes as habilidades de Issac. A maioria dos filmes do gênero se deliciaria com estes instantes de perigo, meramente suprimidos pela montagem aqui. Nem o merchandising explícito e desajeitado de uma marca de streaming de música garante ao longa-metragem os recursos necessários para executar suas principais sequências a contento.
Outras complicações são de ordem do roteiro. O texto assinado por Leon Chills e pelo diretor Joe Carnahan aposta em sequências descontextualizadas em termos de tom, propósito e motivações. Depois de anos separados (por motivos de força maior), marido e esposa se reencontram e lutam como inimigos mortais, aos socos e pontapés. Emula-se um pastiche de Sr. e Sra. Smith (2005) desprovido de justificativas plausíveis para tamanha brutalidade. Ao se deparar com os antigos colegas da Shadow Force, Kyrah começa a chorar de emoção, embora jamais saibamos o que eles significaram para ela no passado. Sabendo que o filho pequeno corre perigo, Issac decide deixá-lo em outro cômodo enquanto toma banho. Adivinha o que acontecerá ao pequeno? Trata-se de soluções convenientes, e preguiçosas em termos de dramaturgia.
Percebe-se então que os produtores e criadores nunca realmente apostaram na grandiosidade e no refinamento, contentando-se com a produção aquém das capacidades dos atores e dos demais responsáveis das equipes criativas. Caso não tivesse estes nomes de destaque no elenco (o que ainda inclui Mark Strong), possivelmente nem seria realizado. Shadow Force constitui um destes filmes materializados para colocar a indústria em movimento, não por serem particularmente ambiciosos ou inovadores. É preciso fazer a máquina girar, e continuar produzindo novos projetos, sobretudo nesta época de streaming, marcada por opções audiovisuais no atacado. Todos ali sabem, em certa medida, que estão trabalhando num filme B. Ninguém investe mais dinheiro ou energia do que o mínimo necessário para torná-lo agradável o suficiente para o consumo secundário (visualizações caseiras em geral). Era improvável que algum executivo da Lionsgate esperasse resultados expressivos no cinema, onde a obra faturou míseros US$ 5 milhões mundialmente, para um orçamento de US$ 40 milhões.
Pelo menos, na consciência de suas limitações criativas, Joe Carnahan apresenta um resultado competente em suas funções gerais. Apesar dos problemas apresentados acima, o cineasta consegue amarrar todas as suas pontas soltas, costurando a trama com uma única canção de Lionel Ritchie (pequeno artifício mais astucioso do que aparentava à primeira vista). O diretor ainda consegue injetar, em suas cenas frenéticas (numa montagem picotada à la anos 1990), doses eficazes de romance e humor. Ele investe em nada menos que dois clímaxes diferentes, ambos condicionados por uma ação modesta, ainda que interessante na capacidade de colocar crianças ou coadjuvantes em posições inesperadas.


Ao final, pode-se falar numa balança razoavelmente equilibrada. Por um lado, encontramos inúmeras soluções desajeitadas: a deficiência auditiva enquanto “superpoder”, os diálogos longos e mal escritos de Tio e Tia, a romantização do abuso sexual de Kyrah face a Jack. Por outro lado, existem artifícios bastante satisfatórios para tal escopo de projeto: a resolução tragicômica durante uma festa de casamento, a oportunidade de empoderar mulheres tratadas até então como meros alívios cômicos, a conjunção de gags simultâneas, incluindo uma cicatriz no ombro, o aparelho auditivo e a canção já citada de Lionel Ritchie. É uma pena que Shadow Force não tenha recebido mais tratamentos de roteiro, e despertado atenção de produtores maiores. Esta mesma premissa, com alguns ajustes, teria rendido um excelente filme de ação.
Em contrapartida, o principal pecado (no sentido moral do termo), aos olhos da opinião pública, parece residir em seu caráter genérico. As críticas mais destruidoras da imprensa norte-americano batem nesta tecla: as cenas já foram vistas em outros filmes, e o desfecho soa previsível. Eles têm razão, é claro. Surpreende, entretanto, que esta régua não seja aplicada a tantas iniciativas hollywoodianas marcadas por igual nível de padronização. Onde estavam estas vozes diante dos muito bem avaliados Lilo & Stitch, Bailarina e Premonição 6, por exemplo? É mais fácil desqualificar a obra pequena, de estúdios menores, por sua baixa inspiração, do que apontar as mesmas falhas em projetos equivalentes de majors mais consequentes. Shadow Force é frágil enquanto cinema, entretanto, está longe de ser desonesto, ofensivo ou incômodo. Trata-se de um parâmetro baixo, sem dúvida. Porém, há espaço em nosso acelerado mercado audiovisual para investidas miúdas como esta.




