Soumsoum, The Night of the Stars (2026)

O feitiço das mulheres

título original (ano)
Soumsoum, La Nuit des Astres (2026)
país
França, Chade
gênero
Drama, Fantasia
duração
101 minutos
direção
Mahamat-Saleh Haroun
elenco
Maïmouna Miawama, Ériq Ebouaney, Achouackh Abakar Souleymane
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

A filha do sangue encontra a filha da lua. Este filme franco-chadiano parte de duas mitologias, ou melhor, dois preconceitos misóginos contra suas protagonistas. No vilarejo onde vive, Killou (Maïmouna Miawama) é chamada de “filha do sangue” devido à morte da mãe durante o parto. A garota é acusada, com frequência, de ter assassinado a mãe em benefício próprio. Ela encontra acolhimento sobretudo junto a Aya (Achouackh Abakar Souleymane), mulher mais velha, e considerada “filha da lua” por ter sido concebida na madrugada em que os pais festejavam os astros, numa orgia intolerável aos costumes conservadores da região. Por isso, ambas estariam fadadas a fazer o mal, portando a semente maldita de sua concepção. 

Soumsoum, The Night of the Stars visa honrar ambas as protagonistas, libertando-as, ainda que simbolicamente, desta maldição popular. O diretor Mahamat-Saleh Haroun (de Um Homem que Grita) possui uma perspectiva muito clara acerca do machismo das tradições, decorrentes tanto de ignorância quanto da retórica religiosa. Por isso, recorre a inúmeras cenas consideradas, pelos padrões do roteiro clássico, bastante didáticas. Assim que Killou menstrua, todo o vilarejo é informado do acontecimento. Um colega de classe a provoca: “Você precisa pertencer a um homem agora”, ao que ela retorque: “Eu não sou um objeto”. Depois, a jovem (interpretada por uma atriz muito mais velha do que uma pré-adolescente) começa a namorar um amigo, e o casal se esconde a poucos metros dos pais dele, escutando uma música altíssima, que permite a descoberta do frágil esconderijo.

Esta é uma lenda e também uma representação verossímil de um Chade contemporâneo, no qual as fantasias atravessam o cotidiano sem interrompê-lo.

Diversas cenas semelhantes se multiplicam ao longo da trama. Killou é apedrejada no meio da rua, em plena luz do dia, aos gritos de “filha da puta”. Ela fica com a cabeça sangrando. Um conselho de homens visita Aya para afirmar, com impressionante clareza, que ela seria a responsável pelo adoecimento de bebês no vilarejo e precisaria, portanto, partir. Nenhuma destas violências surge de forma progressiva, nem pretensamente cordial. O roteiro opta por agressões diretas, intensas e pedagógicas. Interessa ao autor tratar estas mulheres enquanto vítimas, ao passo que os homens se restringem à posição de vilões arquetípicos, ignorantes e brutos. Não nos encontramos num terreno verossímil, mas fabular.

Isso explica, inclusive, a utilização lúdica dos espaços — caso do lago secreto e vazio, descoberto pela garota após uma curta caminhada (como ninguém mais tinha acesso àquele oásis?), e destas esquinas onde os amantes fogem à vista de todos, ainda que ninguém os veja. Uma artificialidade atravessa a totalidade da obra, chamando atenção para si própria. Pode ser considerada voluntária ou não, benéfica ao propósito da fantasia, ou talvez prejudicial à mesma. Em contrapartida, favorece uma ambientação inteiramente suspensa, etérea. Face a tantas representações ultra naturalistas, beirando o documental, que nos chegam de países africanos aos cinemas europeus e latino-americanos, este projeto franco-chadiano prefere imaginar uma terra de magias — e, em consequência, de infinitas possibilidades.

Logo, as incongruências se justificariam pelo caráter alegórico das interações. Maïmouna Miawama atua num misto de torpor e sensualidade, como se fosse, em simultâneo, bastante infantil e um tanto maliciosa. Por esta razão, a aproximação entre as duas mulheres sugere tanto uma sororidade quanto uma possível tensão homoerótica. A forma como se olham, se admiram, e depois dormem coladas numa cama pequena, permite uma leitura queer desta salvação por meio da força e do desejo direcionado a outras mulheres. Num terreno onde todos os homens (pais, irmãos, namorados, amigos) representam adversários, compreende-se que o afeto circule de uma protagonista para a outra.

O estranhamento diante da estética proposta pelo diretor pode se justificar, igualmente, por uma elaboração de linguagem avessa aos padrões ocidentais. O aspecto teatral da fala e dos textos, além da montagem óbvia em metáforas (Killou beija o namorado — corta — acorda ao lado de um bebê chorando), permitem a projeção numa maneira distinta de contar histórias. Os personagens são construídos de outra forma, e sua jornada do herói atravessa critérios diferentes dos nossos. Por isso, o encontro com almas penadas e o auxílio de um fantasma rumo a uma iconografia do sagrado feminino favorecem o distanciamento de uma cobrança imediata por relações lógicas de causa e consequência.

Assim, Soumsoum, La Nuit des Astres (no original) dilui configurações de espaço e tempo, num local tão precisamente identificado geograficamente, e cujos anos parecem não se passar nunca (as ações, aliás, ocorrem numa duração limitada). Por isso, a jovem adulta se confunde com uma adolescente, a mulher mais velha se converte em mãe simbólica e, depois, em pretensa amante; e a condição de estrangeiro do pai aparece apenas no terço final. Mahamat-Saleh Haroun nos convida a nos perder num Chade labiríntico, ao invés de nos explicar tantos rituais e códigos de conduta. Mesmo a noite das estrelas, que batiza a trama, possui regras um tanto herméticas.

Deste modo, a aparência de uma produção de poucos recursos, estruturada em torno de uma filmagem caseira, se confirma até certo limite. De fato, trata-se de um longa-metragem particularmente simples em comparação com tantos projetos endinheirados, coproduzidos entre várias nações, que disputam o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Ora, seria igualmente possível interpretar o resultado enquanto uma estética própria, um distanciamento calculado, capaz de aproveitar as limitações práticas para desenvolver fantasmas profundamente humanos, vilões improváveis num sistema naturalista, e mulheres heroínas contra a própria vontade. Esta é uma lenda e também uma representação verossímil de um Chade contemporâneo, no qual as fantasias atravessam o cotidiano sem interrompê-lo. Há certo encantamento nesta porosidade dos registros. 

Soumsoum, The Night of the Stars (2026)
7
Nota 7/10

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