The Loneliest Man in Town (2026)

O cinema como museu

título original (ano)
The Loneliest Man in Town (2026)
país
Áustria
gênero
Comédia, Drama
duração
86 minutos
direção
Tizza Covi, Rainer Frimmel
elenco
Alois Koch, Brigitte Meduna, Alfred Blechinger, Flurina Schneider
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Aos 80 anos, o austríaco Alois Koch leva uma rotina voltada ao passado. Desde a juventude, é apaixonado pelo blues e pelo rock norte-americanos. Por isso, guarda em seu velho apartamento incontáveis álbuns e objetos relacionados a Elvis Presley, além de gravações próprias, sob o pseudônimo Al Cook. Mantém, em paralelo, pilhas de discos e fotografias no porão. Preserva o piano desafinado que costumava usar, a mesma guitarra de décadas atrás, além de quadros da esposa falecida e algumas preciosidades de colecionador. Ocasionalmente, ainda se apresenta nos bares austríacos, cantando para os clientes locais. 

Para os diretores Rainer Frimmel e Tizza Covi, a vida deste sujeito é profundamente solitária, mas não triste. Ele parece feliz, bem acostumado a dormir e acordar sozinho, encontrando pouquíssimas pessoas em sua jornada. Ele passa até a noite de Natal sozinho, escutando trilha sonora de blues e apreciando a modesta ceia improvisada. Descobre-se, então, que Koch representa o último morador de um prédio com os dias contados para a demolição. Ele é pressionado diariamente por especuladores imobiliários que cortam a água, a eletricidade e disparam ameaças diárias ao morador incômodo. Entretanto, não pretende sair do local onde construiu memórias tão importantes.

A homenagem se tinge de certa tristeza, uma indefinição entre o sucesso (ele ainda vive de música, fiel aos seus princípios) e fracasso (nunca enriqueceu com a arte, nem conquistou o reconhecimento em sua área).

A premissa abriria caminho para um belo suspense, ou um drama social — Aquarius (2016) que o diga. No entanto, os cineastas preferem uma triste comédia de situações. Isso significa que não há piadas em texto, gags ou humor físico. Nenhum personagem faz graça. A comicidade surge das circunstâncias improváveis, além do desnível em relação à forma como os personagens reagem. Logo, ao se descobrir sem energia elétrica nem água, o herói simplesmente leva seu barbeador elétrico ao banheiro do bar mais próximo. Como forma de intimidação, o dono do edifício invade o apartamento dele, promete comer o pão com mortadela de Koch, e cochila no sofá de seu inimigo. Pouco tempo depois, os dois estarão conversando de novo.

Existe certo tom de melancolia e inevitabilidade nas ações, reforçado pelo blues que domina a banda sonora. Ao invés de lutar contra a especulação imobiliária, o músico posterga ao máximo a saída, ainda que aceite com relativa facilidade sua saída daquele espaço. Em oposição à defesa incondicional de suas preciosidades, prefere vendê-las ao primeiro comprador. E se ele aproveitasse este empurrão dos acontecimentos para, enfim, conhecer os Estados Unidos que sempre admirou? Uma possível compradora de suas estátuas considera a hipótese absurda, especialmente no país sob Trump. A referência ao regime autocrático contemporâneo se faz direta.

Entretanto, The Loneliest Man in Town estuda as possibilidades de fazer as pazes com o passado como forma de se projetar a um futuro — isso para um sujeito em idade avançada. Enquanto isso, aproveita o ímpeto colecionador do herói para erguer a própria obra enquanto museu. Afinal, os autores ficcionalizam o percurso de um artista real, a quem solicitam que assista às próprias gravações de décadas atrás. O jovem Alois já reclamava de seu país, que não lhe permitia prosperar com o blues. “Meu sonho seria sair dessa Áustria conservadora”, ele afirmava a uma repórter, com pouco mais de 30 anos. Muito tempo mais tarde, ele continua na Viena de sempre. 

A homenagem se tinge de certa tristeza, uma indefinição entre o sucesso (ele ainda vive de música, fiel aos seus princípios) e fracasso (nunca enriqueceu com a arte, nem conquistou o reconhecimento em sua área). Koch assiste com carinho às próprias palavras, já usando o topete à la Elvis, e se depara com vídeos muito ternos da falecida esposa. Enquanto isso, atrás dele, os objetos começam a desaparecer, incluindo a mobília e a decoração. Os autores coroam esta experiência com um tom pacífico, uma espécie de aceitação do fim — não da morte, no caso, mas o fim de um modo de vida. Caso consiga imigrar para os Estados Unidos, sua trajetória se transformará por completo. Os anos daquele apartamento, dos bares e de Elvis, de certo modo, acabaram.

Em paralelo, a direção de fotografia de Frimmel procura pequenas rimas visuais, ou composições cuja graça provenha do próprio enquadramento. A montagem de Covi com Emily Artmann também surpreende pela duração extensa de planos simples, ou pelos cortes bruscos onde se imaginaria alguma contemplação. Por exemplo, a compradora de estátuas de onças veste as mesmas cores amarela e preta dos animais. Já seu cachorro caramelo possui pelagem das duas cores. Juntos, provocam um efeito inesperadamente kitsch, tais quais os modelos de um ensaio fotográfico absurdo. O mesmo vale para a longa duração de um sofá sendo arrastado pelo casal brasileiro, enquanto o protagonista aguarda, pacífico, num canto apertado do enquadramento.

Esta forma de olhar transmite um rigor inesperado na construção estética. Por trabalhar a partir de figuras e objetos verídicos, poderia se esperar maior reverência conceitual e dependência da observação documental — ou seja, o simples ato de abrir a câmera para captar aquilo que o cantor oferecesse por si próprio. Em contrapartida, o protagonista se presta ao jogo abertamente fictício. Por exemplo, ele se penteia diante de dois espelhos, em ângulos distintos, destinados a provocarem reflexos diferentes de seu corpo. Para no exato centro do enquadramento na intenção de observar a fachada de um comércio fechado. Existe uma pose, uma coreografia bastante rígida, que o ator não-experiente parece gostar de desempenhar. Com simplicidade, entrega-se ao faz de conta de si próprio.

Ao final, The Loneliest Man in Town pode ser questionado pelo imaginário ainda tolerante e sonhador em relação aos Estados Unidos. Apesar da pequena cutucada anterior, sustenta-se um American Dream nunca criticado de fato pelas pessoas ao redor, nem inviabilizado face aos recursos financeiros insuficientes. Prefere-se uma saída fabular, apostando que ele poderia, de fato, imigrar caso o desejasse. Esta foi uma possível forma de oferecer um final feliz ao sujeito retirado do lar, deslocado contra a sua vontade. Imagina-se a concretização abrupta do sonho de juventude, de maneira parcialmente ingênua e parcialmente nostálgica. Sem choros nem arroubos de felicidade, Koch simplesmente segue em frente, e o projeto se dispõe a acompanhá-lo. Neste fluxo — ou seja, no dinamismo imposto ao homem rigidamente fixo num único endereço —, encontra-se uma forma de alegria.

The Loneliest Man in Town (2026)
8
Nota 8/10

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