
Aos 80 anos, o austríaco Alois Koch leva uma rotina voltada ao passado. Desde a juventude, é apaixonado pelo blues e pelo rock norte-americanos. Por isso, guarda em seu velho apartamento incontáveis álbuns e objetos relacionados a Elvis Presley, além de gravações próprias, sob o pseudônimo Al Cook. Mantém, em paralelo, pilhas de discos e fotografias no porão. Preserva o piano desafinado que costumava usar, a mesma guitarra de décadas atrás, além de quadros da esposa falecida e algumas preciosidades de colecionador. Ocasionalmente, ainda se apresenta nos bares austríacos, cantando para os clientes locais.
Para os diretores Rainer Frimmel e Tizza Covi, a vida deste sujeito é profundamente solitária, mas não triste. Ele parece feliz, bem acostumado a dormir e acordar sozinho, encontrando pouquíssimas pessoas em sua jornada. Ele passa até a noite de Natal sozinho, escutando trilha sonora de blues e apreciando a modesta ceia improvisada. Descobre-se, então, que Koch representa o último morador de um prédio com os dias contados para a demolição. Ele é pressionado diariamente por especuladores imobiliários que cortam a água, a eletricidade e disparam ameaças diárias ao morador incômodo. Entretanto, não pretende sair do local onde construiu memórias tão importantes.
A homenagem se tinge de certa tristeza, uma indefinição entre o sucesso (ele ainda vive de música, fiel aos seus princípios) e fracasso (nunca enriqueceu com a arte, nem conquistou o reconhecimento em sua área).
A premissa abriria caminho para um belo suspense, ou um drama social — Aquarius (2016) que o diga. No entanto, os cineastas preferem uma triste comédia de situações. Isso significa que não há piadas em texto, gags ou humor físico. Nenhum personagem faz graça. A comicidade surge das circunstâncias improváveis, além do desnível em relação à forma como os personagens reagem. Logo, ao se descobrir sem energia elétrica nem água, o herói simplesmente leva seu barbeador elétrico ao banheiro do bar mais próximo. Como forma de intimidação, o dono do edifício invade o apartamento dele, promete comer o pão com mortadela de Koch, e cochila no sofá de seu inimigo. Pouco tempo depois, os dois estarão conversando de novo.
Existe certo tom de melancolia e inevitabilidade nas ações, reforçado pelo blues que domina a banda sonora. Ao invés de lutar contra a especulação imobiliária, o músico posterga ao máximo a saída, ainda que aceite com relativa facilidade sua saída daquele espaço. Em oposição à defesa incondicional de suas preciosidades, prefere vendê-las ao primeiro comprador. E se ele aproveitasse este empurrão dos acontecimentos para, enfim, conhecer os Estados Unidos que sempre admirou? Uma possível compradora de suas estátuas considera a hipótese absurda, especialmente no país sob Trump. A referência ao regime autocrático contemporâneo se faz direta.
Entretanto, The Loneliest Man in Town estuda as possibilidades de fazer as pazes com o passado como forma de se projetar a um futuro — isso para um sujeito em idade avançada. Enquanto isso, aproveita o ímpeto colecionador do herói para erguer a própria obra enquanto museu. Afinal, os autores ficcionalizam o percurso de um artista real, a quem solicitam que assista às próprias gravações de décadas atrás. O jovem Alois já reclamava de seu país, que não lhe permitia prosperar com o blues. “Meu sonho seria sair dessa Áustria conservadora”, ele afirmava a uma repórter, com pouco mais de 30 anos. Muito tempo mais tarde, ele continua na Viena de sempre.
A homenagem se tinge de certa tristeza, uma indefinição entre o sucesso (ele ainda vive de música, fiel aos seus princípios) e fracasso (nunca enriqueceu com a arte, nem conquistou o reconhecimento em sua área). Koch assiste com carinho às próprias palavras, já usando o topete à la Elvis, e se depara com vídeos muito ternos da falecida esposa. Enquanto isso, atrás dele, os objetos começam a desaparecer, incluindo a mobília e a decoração. Os autores coroam esta experiência com um tom pacífico, uma espécie de aceitação do fim — não da morte, no caso, mas o fim de um modo de vida. Caso consiga imigrar para os Estados Unidos, sua trajetória se transformará por completo. Os anos daquele apartamento, dos bares e de Elvis, de certo modo, acabaram.
Em paralelo, a direção de fotografia de Frimmel procura pequenas rimas visuais, ou composições cuja graça provenha do próprio enquadramento. A montagem de Covi com Emily Artmann também surpreende pela duração extensa de planos simples, ou pelos cortes bruscos onde se imaginaria alguma contemplação. Por exemplo, a compradora de estátuas de onças veste as mesmas cores amarela e preta dos animais. Já seu cachorro caramelo possui pelagem das duas cores. Juntos, provocam um efeito inesperadamente kitsch, tais quais os modelos de um ensaio fotográfico absurdo. O mesmo vale para a longa duração de um sofá sendo arrastado pelo casal brasileiro, enquanto o protagonista aguarda, pacífico, num canto apertado do enquadramento.


Esta forma de olhar transmite um rigor inesperado na construção estética. Por trabalhar a partir de figuras e objetos verídicos, poderia se esperar maior reverência conceitual e dependência da observação documental — ou seja, o simples ato de abrir a câmera para captar aquilo que o cantor oferecesse por si próprio. Em contrapartida, o protagonista se presta ao jogo abertamente fictício. Por exemplo, ele se penteia diante de dois espelhos, em ângulos distintos, destinados a provocarem reflexos diferentes de seu corpo. Para no exato centro do enquadramento na intenção de observar a fachada de um comércio fechado. Existe uma pose, uma coreografia bastante rígida, que o ator não-experiente parece gostar de desempenhar. Com simplicidade, entrega-se ao faz de conta de si próprio.
Ao final, The Loneliest Man in Town pode ser questionado pelo imaginário ainda tolerante e sonhador em relação aos Estados Unidos. Apesar da pequena cutucada anterior, sustenta-se um American Dream nunca criticado de fato pelas pessoas ao redor, nem inviabilizado face aos recursos financeiros insuficientes. Prefere-se uma saída fabular, apostando que ele poderia, de fato, imigrar caso o desejasse. Esta foi uma possível forma de oferecer um final feliz ao sujeito retirado do lar, deslocado contra a sua vontade. Imagina-se a concretização abrupta do sonho de juventude, de maneira parcialmente ingênua e parcialmente nostálgica. Sem choros nem arroubos de felicidade, Koch simplesmente segue em frente, e o projeto se dispõe a acompanhá-lo. Neste fluxo — ou seja, no dinamismo imposto ao homem rigidamente fixo num único endereço —, encontra-se uma forma de alegria.




