
Uma característica que se destaca de imediato em Transamazônia diz respeito ao senso de ambientação. O longa-metragem é filmado com forte aparência de mistério e sensualidade — algo inesperado, em se tratando de um drama a respeito de missionários estrangeiros na floresta brasileira. Na cena inicial, os destroços de um avião revelam a perna de uma garotinha por fora das gigantescas partes metálicas. A câmera se aproxima de maneira estranhamente sedutora do corpo infantil, enquanto luz e trabalho de som corroboram com o deleite da tragédia. Segundos depois, um homem indígena musculoso aparece ao fundo. Seria um salvador? Um novo perigo?
Este tipo de construção se repete inúmeras vezes no filme dirigido pela sul-africana Pia Marais. Em geral, os personagens conversam em voz baixa, embora não exista um segredo propriamente dito. Eles sussurram, insinuam, no interior de cômodos inexplicavelmente escuros, mesmo durante o dia. Durante as longas pausas entre cada afirmação murmurada, observam algum ponto distante. Parecem carregar um peso existencial, uma dura revelação que nunca chega. Ao fundo, sempre existe alguma luz colorida (verde, azul, amarela) para demarcar o contraluz e tornar a cena mais chamativa aos olhos.
Transamazônia sofre de uma grave carência de ponto de vista. A direção evita apresentar este cenário pelo olhar da menina. Tampouco enxergamos a rotina pela perspectiva do missionário.
A obra inteira sustenta a curiosa impressão de um álbum fotográfico, ou um ensaio de imagens em still. Ele possui uma busca tão intensa por estetização que basicamente solicita aos personagens que parem no canto exato da trama, baixem a cabeça onde a luz banha melhor suas expressões, e posem para a câmera. O conflito com madeireiros, o sofrimento de pessoas doentes na região e a fé cristã pregada aos indígenas interessam ao diretor de fotografia Mathieu de Montgrand sobretudo enquanto motivos para despertar belas composições, luzes contrastadas, e uma aparência vaporosa, exótica, que impregna a mata na totalidade.
Por isso, quando um importante confronto ocorre entre comunidades originárias e madeireiros, a câmera se agita indistintamente, favorecendo o contraluz, assim como os feixes alaranjados e amarelados que cortam a escuridão. Não sabemos ao certo quem ataca e quem se defende, posto que isso não importa de fato à direção. Após Rebecca (Helena Zengel) iniciar um incêndio, a fotografia se deleita com o foco alaranjado do fogo à direita do enquadramento, em contraste com as luzes azuladas das lâmpadas da rua, à esquerda, conforme a garota corre. Aqui, o conflito geopolítico se presta às vontades estéticas, não o contrário.
Em consequência, a trama propriamente dita fica em segundo plano. Insinua-se o conflito da garota que sobrevive à catástrofe, sua posterior conversão em figura mística, além do controle de um pai autoritário, e das tensas relações com os povos originários ao redor. Entretanto, estes conflitos avançam pouco, devido à recusa em estabelecer relações de causa e consequência, ou ainda construir os personagens. Todos permanecem opacos, distantes. Desconhecemos a relação verdadeira de Rebecca com a fé, ou o possível misto de oportunismo e crença sincera de Lawrence Byrne (Jeremy Xido) em suas pregações da palavra de Deus. A relação com personagens coadjuvantes (John, Denise) sustenta uma aura de erotismo jamais concretizado. A narrativa gosta de caminhar na eminência de algo explosivo, prestes a acontecer — mas que nunca se materializa.
Isso ocorre porque Transamazônia sofre de uma grave carência de ponto de vista. A direção evita apresentar este cenário lúgubre pela perspectiva de alguém em particular. O filme não é contado pelo olhar da menina, cujas vontades e atitudes nos surpreendem. Tampouco enxergamos a rotina pela perspectiva do missionário solitário, de convicções fortes. Apesar da presença de alguns personagens brasileiros ao redor, caso de Artur (Rômulo Braga), desconhecemos suas atividades para além do embate pontual com os estrangeiros. O percurso certamente não é narrado pelo olhar indígena, visto que, uma vez mais, os habitantes locais são deixados em segundo plano numa trama a respeito de sua vivência e seus problemas. Silas, Jilvan e Pira são mal dirigidos, ocupando personagens fracos que servem, no entanto, a conferir certa aura de legitimidade à abordagem (por contratar atores indígenas e inclui-los na trama).


Por isso, chegado o final, a narrativa surpreende quando sugere ao espectador que a verdadeira revelação diria respeito às circunstâncias precisas do acidente aéreo, assim como à relação exata entre Rebecca e Byrne. Ora, nenhum destes elementos vinha sendo tratado enquanto objetivo desta jornada — sinal da falta de foco e perspectiva do filme brasileiro-estrangeiros, para quem a Amazônia se resume a um cenário sem leis, regido por regras fantásticas (vide a sobrevivência “mágica” da menina), onde tudo pode acontecer. Embora o drama parta de fatos, ele logo prefere se jogar em interações e construções bastante artificiais, tanto de mise en scène quanto de roteiro. Isso vale tanto para a cicatriz que atravessa o rosto da garota quanto para as falas, endurecidas demais para a boca dos atores.
Transamazônia transparece a inesperada dificuldade de simplesmente contar uma história, avançando de um ponto A a um ponto B, e transmitindo um discurso coeso a respeito de tantos temas e situações importantes. O que Marais teria a dizer acerca do massacre de indígenas? Dos missionários cristãos no Norte do país? Das relações geopolíticas com empresários? O resultado não é nada claro. Sobram cenas ora apáticas demais (geralmente, relacionadas à menina), ora de uma intensidade febril e injustificada (as falas quase possuídas de Byrne, e os diálogos como “Saiam da minha frente, seu bando de desocupados!”). O resultado soa como uma produção desigual, onde cada departamento compreendia a proposta de uma maneira distinta. Coube à montagem propor alguma costura às peças que apontavam a caminhos distintos. Ao final, sobra muito contraluz, muitas cores, mas pouca reflexão.




