Verde Oliva (2025)

País do cinismo

título original (ano)
Verde Oliva (2025)
país
Brasil
gênero
Suspense
duração
84 minutos
direção
Wellington Sari
elenco
Jean Guilherme, Nathalia Garcia, Gilda Nomacce, Felipe Torres, Marrara Mara, Gabriel Gorosito, Guenia Lemos
visto em
14º Olhar de Cinema (2025)

Um jovem editor e operador de câmera é contratado para filmar em segredo as infidelidades de um homem casado. No entanto, João (Jean Guilherme) descobre se tratar de um deputado evangélico, figura de certo poder no Congresso. Pior ainda, ele acredita que as imagens gravadas com um drone possam ocultar acontecimentos sinistros no interior do quarto. Quem é a mulher deitada na cama? O que aconteceu com ela? Em pouco tempo, o rapaz apático se vê envolvido em conspirações, perseguições e esquemas de fraudes visando atingir o coração da política nacional. Como se percebe, Verde Oliva não minimiza suas ambições, mergulhando fundo no suspense com vocação à paranoia.

Além dos temas graves, o diretor Wellington Sari investe numa estética igualmente sepulcral. Entram em cena as femme fatales, a obsessão por ruivas (desempenhando um papel semelhante às loiras hitchcockianas), a música clássica para gerar tensão, o corredor sombrio de uma galeria comercial e o espaço sinistro de salas de concerto quase vazias. Qualquer conversa se transforma em ameaça, e toda caminhada à noite se converte num possível perigo. Investe-se, portanto, numa atmosfera opressora de conflitos, à beira da caricatura. Pode-se dizer que o filme brasileiro navega nesta linha muito tênue entre o thriller seríssimo e a paródia do mesmo gênero.

O discurso acerca do cinismo da política brasileira corre o risco de ser considerado, ele mesmo, um tanto cínico. Pelo menos, resta comemorar a existência de um suspense corajoso, que abraça sem meios-termos as regras do gênero.

Os criadores acreditam, desta maneira, tecer comentários complexos a respeito deste tempo de cinismo, fake news e disputa de narrativas que domina os laços de poder no Brasil. Embora a narrativa inteira insista na tese das “verdades fabricadas”, ele apresenta um clímax no qual duas figuras verbalizam, de maneira clara e di-dá-ti-ca, o valor diminuto dos fatos em relação à crença nos mesmos. Pouco importa o que houve de fato, contanto que as pessoas acreditem na versão fabricada. A verdadeira máfia de nossos tempos, segundo este discurso, controlaria a comunicação e a opinião pública — algo mais importante do que drogas ou armas. Estamos em tempos de uma guerra da informação.

Neste momento, quem melhor percebe o absurdo e a proximidade do terror dominante neste dispositivo é Gilda Nomacce. A grande atriz, bastante desenvolta com os exageros e liberdades do gênero, entrega-se a um texto de aparência improvisada, torturando sua vítima com gritos e frases de efeito devidamente grotescas. A intérprete devora esta interação e a toma para si, compreendendo a necessidade evidente de Verde Oliva de se converter, enfim, numa fábula de monstruosidades, ao invés de sustentar uma pose de elegância que lhe parece tão importante. É preciso arregaçar as mangas, sujar as mãos, cutucar as vísceras deste sistema tão corrompido. A única pessoa a retratar este horror, com sua real intensidade e espanto, é Nomacce.

De resto, o projeto carece de maior cuidado na construção de personagens e situações. Mesmo que se prove bastante preocupado com a verossimilhança (em oposição ao realismo), o filme nunca justifica os motivos que levariam João a arriscar a própria vida, sucessivas vezes, por uma causa que não lhe parecia tão importante. Ele seria um garoto tão ambicioso, tão curioso assim? “Eu preciso saber”, ele insiste. Entretanto, a narrativa o pintava, até então, na condição de uma figura marcada por imperturbável apatia. De onde surge esta faísca de controle, esta vocação a se tornar herói de uma causa que mal conhece? Como se posicionaria politicamente face aos dilemas narrados? Não sabemos. Ele nem mesmo se preocupa com a namorada, com os demais trabalhos, ou com a própria vida. 

Trata-se de um sujeito altruísta, ou apenas inocente? A interpretação deficiente na cena mais importante (quando João está preso à cadeira) tampouco nos esclarece o ponto de vista da direção a respeito de seu (anti-)herói. A gravação reveladora, que o editor assiste de novo e de novo, é escura, pouco reveladora, e já escancarava sua artificialidade desde o princípio. Isso sem falar no tom destoante de uma peruca ruiva perceptível a metros de distância, e em outros recursos difíceis de convencer (o sobe de desce ao escritório, o entra e sai na galeria). A direção se mostra mais preocupada com a aparência de risco, e com o acúmulo de reviravoltas, do que com a construção prévia permitindo a crença nestes acontecimentos. A forma se sobrepõe ao conteúdo.

Ao final, o discurso acerca do cinismo dos trâmites políticos à brasileira corre o risco de ser considerado, ele mesmo, um tanto cínico. Denunciam-se os laços escusos do poder, a impunidade dos grandes, a facilidade das falcatruas. Trata-se de uma constatação do óbvio, fabulada na história rocambolesca desta agência de farsantes presos à própria falsidade. Ninguém duvida da existência dos problemas citados, nem de sua importância. Entretanto, o longa-metragem aposta no valor da denúncia enquanto finalidade retórica, sem investigar suas causas, seu desenvolvimento ou alternativas de superação. Paira um ar fatalista, ou pelo menos condescendente, na sugestão implícita de que as coisas sempre foram assim, e continuarão deste modo.

Ressalvas à parte, resta comemorar a existência de um suspense corajoso, no sentido de abraçar sem meios-termos as regras do gênero, extraindo o máximo possível a partir dos recursos limitados de produção. Nathalia Garcia se prova, a cada novo projeto, uma atriz muito interessante e versátil, enquanto a montagem de Christopher Faust imprime um ritmo bastante eficaz, sem respiro nem relaxamento, do início ao fim da obra. O cinema brasileiro possui raras iniciativas nesta linguagem, capazes de dialogar de igual para igual com críticos e com o público médio, o que torna a investida de Sari ainda mais valiosa, concreta e simbolicamente. Talvez a ideia ainda seja mais encantadora do que sua realização, entretanto, aponta para um jovem cineasta sem medo de se arriscar — algo fundamental na perspectiva da produção autoral contemporânea.

Verde Oliva (2025)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.