
Em Maridos e Esposas (1992), de Woody Allen, um casal decide se separar após décadas juntos. Como eles mantêm uma relação cordial, convidam os amigos para um jantar, quando pretendem anunciar a decisão. No entanto, as pessoas ao redor suspeitam desta ruptura cordial. Como podem se afastar depois de uma vida inteira lado a lado? Como podem ter certeza desta atitude, se ainda mantêm admiração e respeito mútuos? A desunião não seria reservada àqueles que se detestam, e não conseguem sustentar a convivência? O divórcio não deveria ser a última alternativa possível, até que a morte os separe?
Algo muito semelhante ocorre em Volveréis, de Jonas Trueba. Desta vez, os cônjuges não planejam somente um jantar entre pessoas próximas, mas uma grande festa de separação. Partem do pressuposto que os términos deveriam ser comemorados, de fato, ao invés dos matrimônios. Este seria um sinal de maturidade, além de uma partida cordial entre as partes. Atribuem a ideia ao pai de Ale (Itsaso Arana), que a propôs enquanto provocação filosófica, transformada em plano concreto pela filha e o genro. Aos amigos, eles repetem que o conceito da festa não partiu deles, mas de um terceiro — uma provável maneira de se eximirem de responsabilidade caso a celebração fracasse.
A separação entre Ale e Alex não seria real? Apenas encenação para o filme-dentro-do-filme? Volveréis prefere manter a ambiguidade a respeito do que vemos.
A repetição constitui uma ferramenta central da narrativa, e ingrediente fundamental ao humor. O texto se baseia em inúmeros jantares e telefonemas a pessoas próximas que reagem de maneiras distintas à surpresa de Ale e Alex (Vito Sanz): alguns choram, outros não levam a celebração a sério, sem falar naqueles que se apaixonam pela ideia, e nos colegas ainda esperançosos por um possível retorno de marido e esposa. O destino de ambos é jogado à tribuna, que reage calorosamente à rebeldia de romperem com as convenções. Como ousam estar felizes em tal contexto? Festejá-lo, como se o divórcio não fosse algo sério? A simples proposta soa como insulto, traquinagem, provocação. Rejeitar a gravidade do término se traduz numa profanação inaceitável do (ex-)casal.
Enquanto isso, descobrimos que as idas e vindas de Ale e Alex fazem parte de um filme de ficção. Ela é diretora, roteirista, montadora e atriz; e ele, ator principal. A caminhada do homem pelas ruas de Madri está sendo filmada, embora não vejamos a equipe. Testemunhamos outro set de filmagem, sem relação à trama dos dois, porém compreendemos que ambos estão sendo registrados por uma equipe invisível a partir do momento em que as interações cotidianas surgem enquanto material bruto, na tela de um computador. As gravações passam, a seguir, pelo processo de montagem coordenado por Ale e um colega. Ora, a separação não seria real? Apenas encenação para o longa-metragem? Ou estão registrando o divórcio em tempo real? Onde se encontra a equipe? Onde termina a espontaneidade e começa a roteirização?
Volveréis prefere manter a ambiguidade a respeito do que vemos. Alerta o espectador, o tempo inteiro, de que nos encontramos diante de uma construção, necessariamente artificial. Não por acaso, Alex precisa gravar o vídeo para um teste de elenco, envolvendo uma cena de teor amoroso. Ele requisita o serviço da parceira-diretora à sua frente, que lê as falas da mulher apaixonada. Talvez tudo aquilo não passe, de fato, de uma brincadeira, uma encenação — amores fictícios seriam menos profundos e legítimos do que amores reais? Ainda conseguimos nos identificar com os personagens, e torcer por eles, caso estejam forjando um sentimento? A obra questiona não apenas a imersão da espectatorialidade, mas a própria legitimidade da arte enquanto representação.
Trueba envolve tais reflexões em uma atmosfera leve, descompromissada, e certamente herdeira dos períodos áureos de Woody Allen. Do estilo consagrado pelo norte-americano, ele preserva a narrativa movida a diálogos, as tiradas sarcásticas, o confronto entre a norma e as atitudes surreais dos personagens. As idas e vindas de casamentos em crise também decorrem da noção alleniana de que dilemas familiares e matrimoniais constituem conflitos mais que suficientes para rechear um projeto — razão pela qual os problemas ao redor praticamente inexistem. Não há problemas com dinheiro, com a finalização do filme de Ale, com traições e afins. A festa de separação, motivo exposto desde a primeira cena, representa o único motor narrativo até o final.


Felizmente, o elenco se mostra bastante confortável com este registro da comédia leve, que trata com seriedade os deslocamentos do naturalismo. Nada de sublinhar ironias nem incorrer em piadas e gags: acredita-se que as circunstâncias sejam engraçadas o suficiente, razão pela qual ex-marido e ex-esposa podem interpretá-las com inesperado despojamento. Itsaso Arana e Vito Sanz, parceiros habituais do diretor, encarnam estes tipos com uma naturalidade quase documental, “sem esforço”. A aparência de não-comprometimento decorre, sem dúvida, de um refinamento técnico raro de ambos os atores — nada é mais difícil do que parecer tão natural.
Ao final, o projeto atenua o caráter provocador deste divórcio feliz. Ameaça dar vários passos atrás, ceder à reconciliação, sucumbir à suspensão da festa. O roteiro encontra uma saída intermediária, nem ignorando a festividade que nos prometia há mais de 100 minutos, nem a convertendo numa reunião fria ou cínica. Encontra uma solução para relembrar a existência do amor, do romance, abrindo brechas para um entendimento futuro entre ambos. Trata-se de um desenlace pouco corajoso para um projeto baseado nas rupturas e fuga aos clichês. Trueba desperta a impressão que, no final, precisou atenuar o pragmatismo em prol de uma recompensa emocional, como forma de concessão ao público médio. O discurso se apequena; a crítica se enfraquece. Mesmo assim, restará uma bela obra a respeito de amores e desamores, que encara os novos rumos enquanto recomeços, ao invés de finalidades. Afinal, Volveréis se inicia onde a maioria dos filmes terminaria.




