
Em Vozes e Vãos, Edileuza Penha de Souza e Edymara Diniz chegam às comunidades quilombolas de Goiás munidas de uma disposição tão curiosa quanto solidária. As cineastas desejam escutar adolescentes de diferentes cidades a respeito de suas vidas: os estudos, as ambições profissionais, as relações familiares, os interesses, o lazer. O documentário se constrói inteiramente pelas falas generosas de personagens visivelmente empolgados em compartilhar sua rotina com a equipe cinematográfica. Existe uma boa vontade evidente entre ambas as partes.
Logo, os principais méritos desta iniciativa residem na abertura ao outro — ou seja, num princípio ético de empatia. Embora questionem seus personagens a respeito de diversos temas, as autoras nunca conduzem a conversa no intuito de produzirem uma mensagem específica. Elas evitam instrumentalizar as confissões para servirem a algum discurso a respeito da organização política e social daqueles espaços. Embora o carinho por comunidades quilombolas seja palpável, os jovens discutem muito mais seus plantios, festas e afazeres do que as reivindicações das lideranças locais. Em outras palavras, opera-se numa política dos afetos, estimando que a oferta de voz e protagonismo a estas pessoas constitua um posicionamento político em si.
Os principais méritos desta iniciativa residem em sua política dos afetos. Em contrapartida, Vozes e Vãos possui a estrutura de uma reportagem jornalística.
Logo, a sessão possui um ritmo agradável, apresentando diversos momentos de humor devido às anedotas compartilhadas pelos garotos e garotas. O rapaz que repreende a avó, por incomodar as filmagens; o garoto que afirma não ter interesses para além de cuidar dos bichos e mexer no celular; e o adolescente com aspirações a entrar no BBB despertaram risos de simpatia dentro do Cine Brasília. Aparentemente, foram manifestações de identificação e simpatia, ao invés de escárnio. Não é fácil transmitir tamanho carinho pelos depoentes de um documentário, entretanto, as cineastas o fazem de modo bastante orgânico.
Em contrapartida, cinematograficamente, a obra se mostra simples até demais. Vozes e Vãos possui a estrutura de uma reportagem jornalística. Ele se inicia com os protagonistas posando e sorrindo para a câmera, junto ao letreiro indicando seus nomes e comunidade a qual pertencem. Em seguida, eles basicamente conversam do início ao fim, num percurso que abre raras possibilidades de dinamismo visual. Com exceção das imagens obtidas por meio de drones (em captações de movimentação brusca e desajeitada), a ampla maioria dos registros depende dos garotos e garotas sentados, conversando diretamente com a câmera. A produtora inclusive tem suas perguntas incluídas na montagem. Ela chega a ser invasiva, interrompendo demais, ou lançando questionamentos retóricos ao final (“O que você gostaria de deixar como mensagem?”).
Em consequência, a experiência imagética se esgota rapidamente. Passados cerca de quinze minutos, dificilmente se encontrará algum registro ou interação de natureza distinta, até a conclusão da narrativa. Seguimos com os mesmos protagonistas, nas mesmas localidades e ângulos. Um curto fragmento coloca dois rapazes lado a lado, tocando instrumentos enquanto as garotas ensaiam para a dança da folia. Entretanto, eles não chegam a interagir. Haveria muitas maneiras de potencializar esta aproximação: colocando os garotos juntos, para debaterem entre si; acompanhando a rotina dos mesmos, de manhã até a noite, fora da estrutura clássica da entrevista; mergulhando nas imagens que produzem sobre si mesmos com seus celulares, fotografias e afins. Teria sido muito mais rico representar o cotidiano do que falar sobre ele — qualquer imagem da viagem de três horas até a escola, ou do plantio dos legumes e verduras, ofereceria interesse superior à mera citação destas atividades em diálogos.


Para além da estrutura engessada, Vozes e Vãos sofre com instantes descuidados em termos de fotografia e edição. Em algumas cenas, a câmera teima em fazer o foco conforme alterna de um rosto ao seguinte. Ocasionalmente, a luz estoura e se subexpõe durante a conversa com Alciléia Conceição Cesário de Torres. Surpreende que tais instantes tenham sobrevivido à montagem que, por sua vez, repete temas, despertando a impressão de desgaste (a segunda discussão a respeito de estradas ruins e dificuldade de chegar à escola). Logo, mesmo a simples organização da edição, de ordem temática (agrupando falas sobre lazer, alimentos, remédios, agronegócio, oportunidades de trabalho, etc.), se prova menos coesa rumo ao final. O que dizer, então, de um rapaz cadeirante, que nunca recebe a mesma oportunidade de se expressar, tal qual os colegas, ou ainda da menção laudatória, nada contextualizada, de programas do governo, a exemplo da formação Goiás Tec?
O resultado pode ser considerado excessivamente institucional, visando apresentar uma perspectiva produtiva das comunidades quilombolas — embora ressaltando suas dificuldades. Ele também desperta certa expectativa para instantes nunca filmados — caso das folias, descritas com grande empolgação pelos jovens, apesar de não se materializarem em imagens. Ressalvas à parte, o longa-metragem ainda proporciona uma forma de cinema humanista, no sentido de apostar que as vidas de quaisquer pessoas sejam dignas de retrato. Não precisam ser líderes, heróis, nem figuras marcadas por trajetórias excepcionais — pelo contrário, é justamente sua representatividade média que parece interessar às cineastas. Portanto, a iniciativa de um olhar horizontal é muito bem-vinda. No entanto, tal disposição não inviabiliza uma construção estética e narrativa mais apurada, à altura das vivências destes jovens.




