Vulgo Jenny (2026)

Os homens que eu tive

título original (ano)
Vulgo Jenny (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Drama
duração
82 minutos
direção
Viviane Goulart
elenco
Juliana Dalle, Marco Coimbra, Allan Jacinto Santana, Fred Praxedes, Arthur Cintra, Danielle Borges da Silva
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Em 1973, Tereza Trautman dirigiu Os Homens que Eu Tive, drama feminista bastante radical para a época. Na trama, Pity (Darlene Glória) é uma mulher livre, em relacionamento aberto com dois rapazes. Os três dividem um apartamento. Ao conhecer um terceiro homem, e tentar trazê-lo para a união, a verdadeira comandante do lar começa a provocar conflitos junto aos companheiros, tomados pelo ciúme e pelo sentimento de posse. Mesmo assim, Pity nunca é punida por seus afetos — razão que levou a ditadura militar a censurar a obra, considerada “imoral”. 

Agora, em 2026, um projeto dialoga com este princípio. Em Vulgo Jenny, a protagonista é uma vendedora ambulante (Juliana Dalle) em Goiânia. Enquanto o namorado se encontra na prisão, ela ganha a proteção e o carinho de dois sujeitos completamente diferentes: Primo (Fred Praxedes), ex-policial que comanda esquemas criminosos, e Rato (Allan Jacinto Santana), pequeno vendedor ambulante e batedor de carteira. Eles a protegem, até a chegada de um novo homem, Gilberto (Arthur Cintra), causar um desequilíbrio na equação. Novamente, é a mulher quem dita as regras, decidindo sozinha os rumos que lhe convêm. 

A narrativa melhora a cada cena, quando enfim presenciamos a mulher ditando suas ordens a Rato, e buscando os favores de Primo.

O longa-metragem possui um roteiro curioso. Embora anuncie, desde o princípio, a dinâmica dos relacionamentos de Jenny, demora bastante a concretizá-los em imagem. A protagonista sublinha o caráter obsessivo dos homens em protegê-la, entretanto, o espectador nem mesmo enxerga os três juntos (ou dois deles, que seja) até a segunda metade da narrativa. Ela seria uma mentirosa? Uma criadora de histórias, autora de sua própria ficção? A cineasta e roteirista Viviane Goulart permite essa dúvida, ao equilibrar o percurso das três figuras em paralelo, recusando-se a entrelaçar as tramas de imediato. Julgando pela primeira parte, Jenny nem mesmo soa como protagonista do longa-metragem portando seu nome. Ainda existe a estranha presença de um homem nu, andando pela cidade, que teima em se justificar…

Eventualmente, todos os fios se atam, e as lacunas se preenchem de maneira catártica. A narrativa melhora a cada cena, quando enfim presenciamos a mulher ditando suas ordens a Rato, e buscando os favores de Primo. No instante em que conhece Gilberto, ela controla igualmente a cena, seduzindo-o conforme a sua vontade, escolhendo se o convida ou não para casa. Ela se posiciona no posto de gasolina, no ponto escolhido, ciente de que algum motorista terminará por abordá-la. (Jenny possui grande controle de mise en scène). Até na hora de compartilhar suas experiências, ela busca Marcão (Marco Coimbra, autor do conto original “O Homem Nu”) e condiciona a confissão ao pagamento de cervejas e cigarros — exigências prontamente aceitas. 

Mesmo fora de cena, é ela quem dá as cartas: os demais homens existem unicamente em função dela, para ela. Trata-se de uma configuração simetricamente oposta ao papel que as mulheres sempre ocupam nas grandes produções, na condição de esposas, mães e namoradas dos heróis. Aqui, a única nudez será masculina (o longo plano de detalhe no traseiro do sujeito desnudo), e a única representação erótica virá da imaginação do escritor, desenhando o sexo oral com giz de cera. A conclusão, deliciosamente provocadora, comprova uma mulher segura de seus encantos, e disposta a testar os limites de seu domínio sobre os parceiros. “Eu sou cara, Marcão. Não sou mulher de um homem só”, ela explica. Jenny ostenta uma implacável lucidez.

Goulart esclarece seu percurso por meio de inesperadas incursões metalinguísticas. Começa por apresentar, em registro documental, a mulher que serviu de inspiração à heroína. “Prazer, eu sou a Dani. Vocês devem estar se perguntando como eu me tornei a Jenny. Vou contar pra vocês”. Ela controla exatamente quais informações deseja oferecer ao público, e quais prefere ocultar em nome de sua privacidade. “A Jenny era uma mulher empoderada”, confirma a narração em off. Já o escritor se declara como tal, destacando o prazer em ficcionalizar histórias reais a partir de relatos oferecidos como presentes por terceiros. Logo, o desenrolar se torna, ao mesmo, tempo real e ilusório, fatual e fabular. Ele inventa, porém, assume tal procedimento; inspira-se em fatos, embora escolha aumentá-los ao bel-prazer. Pode-se falar em uma adaptação, reconstituição, ou ainda evocação dos fatos. Este não deixa de ser um filme a respeito do ato de contar histórias.

Por este motivo, compreende-se que os personagens (reais, literários, cinematográficos?) correspondam a arquétipos. Há a mulher que masca chiclete de boca aberta, exibe o batom vermelho nos lábios e encarna certa sedução popular; o policial durão de olhar vidrado e voz rouca; o ladrão malandro, de fala maliciosa e corpo maleável. O agroboy chega para compor a cena, numa deliciosa análise dos rituais de acasalamento heterossexuais, quando se negociam cervejas, trocam-se olhares, pedem-se caronas e se insinuam para o sexo. 

Nós já conhecemos estas figuras, ainda que deturpadas pelo imaginário popular. Vulgo Jenny as resgata, evitando julgamento de ordem moral por seus gestos. Além disso, promove um curioso encontro de gêneros e classes, de leis e regras tácitas. Estes tipos sociais dificilmente existiriam juntos, se não fosse pelo desejo da mulher de mantê-los perto de si. É certo que, neste percurso, algumas cenas soam desajeitadas, com problemas de ritmo e atuações — caso notável do enfrentamento cartunesco a Gilberto na cama. Em contrapartida, estes momentos não excluem os méritos das demais composições calmas, bem pensadas, até mesmo clássicas, a exemplo dos planos e contraplanos de homens conversando.

O resultado surpreende pelo olhar atento aos pequenos gestos cotidianos, e pelo deleite em converter a cidade numa personagem fundamental. Goulart dedica tempo considerável a descrever o preparo da cana por parte do vendedor ambulante, a fritura dos pastéis numa frigideira escurecida, a água borrifada sobre as frutas na banca. Acompanha a venda de bananas, assim como a comercialização das pipocas na estação — aparentemente, a compradores reais. Logo, personagens arquetípicos se inserem num registro documental, quando criações evidentemente exageradas convivem com outras de aparência improvisada.

De certo modo, o projeto com estrutura de conto e olhar de crônica remete ao funcionamento típico das animações. No registro desenhado, permite-se que as Jennys, Rê Bordosas e outras mulheres de exceção sejam grandiosas, sedutoras, popularescas e mesmo vulgares se assim o desejarem. A exemplo de tantas animações que contrastam personagens de traços simplificados aos cenários fotorrealistas, Vulgo Jenny escolhe protagonistas coloridos e extravagantes, mergulhados na rotina naturalista das classes D e E. Talvez este não seja o projeto mais fácil de apresentar ao público, devido às numerosas quebra de expectativas, no entanto, pode-se festejar que uma obra tão singular tenha distribuição garantida nas salas de cinema.

PS: Uma pergunta foi compartilhada entre diversos críticos durante a exibição na Mostra de Tiradentes: a obra possui os direitos autorais de todas as músicas da trilha sonora? Há longas canções, de nomes importantes, que parecem de difícil acesso a uma produção de baixo orçamento. Espera-se que este fator não prejudique o lançamento no circuito comercial.

Vulgo Jenny (2026)
7
Nota 7/10

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