Warden (2025)

Audiodescrição

título original (ano)
Warden (2025)
país
Canadá
gênero
Fantasia
duração
90 minutos
direção
Marcus Alqueres
elenco
Giovanni de Lorenzi, Alli Willow, Antonio Saboia, Bukassa Kabengele, Brian Towers, James Turpin, Nathalia Florentino, Plínio Soares
visto em
16º Cinefantasy (2025)

O super-herói Warden (Giovanni de Lorenzi) luta contra bandidos no interior um ônibus, interrompendo um sequestro. Ele resgata pessoas do alto de um prédio em chamas. Prende políticos corruptos. Desenvolve um namoro com sua grande amiga de juventude. Trava conversas secretas com deputados e governadores. Mobiliza massas de fãs, além de alguns detratores. Por esta descrição, podemos supor um filme empolgante e imersivo. Entretanto, não assistimos a nenhuma destas ações. Elas são narradas por terceiros (amigos, especialistas, jornalistas), sentados em suas casas ou escritórios. Os supostos heroísmos são filmados à distância. 

Logo, precisamos acreditar na palavra deles a respeito das conquistas e fracassos, além das ousadias e desvios de ética cometidos pelo jovem dotado de superpoderes. Isso porque Warden é um filme inteiramente construído em terceira pessoa. Para driblar as evidentes restrições orçamentárias, o diretor Marcus Alqueres filtra o cinema de ação pela linguagem do falso documentário. Isso significa que as ações são contadas, ao invés de representadas. A narrativa abraça os moldes de um documentário policial, com toques de true crime. Descreve-se sem parar este protagonista, limitado a poucas manifestações próprias, e restrito a uma dúzia de imagens semelhantes, posando no alto de prédios com seu uniforme escuro e um semblante destemido.

Fala-se muito neste filme. Muito, muito mesmo. A experiência se torna tão divertida quanto escutar um amigo nos descrever, durante uma hora e meia, o eletrizante filme de super-herói que ele viu na véspera.

Em paralelo, fala-se muito neste filme. Muito, muito mesmo. Não seria absurdo sugerir que nunca se atingem dez segundos sem falas ao longo dos 90 minutos de projeção. É impressionante que nem o cineasta, nem o montador Pedro Andreta tenham percebido o ritmo maçante ao embutirem uma sequência interminável de comentários a respeito do garoto. (Mesmo os documentários que lhes servem de referência trabalham respiros e equilíbrios, entre fala e contemplação). Descobrimos que o jovem se tornou popular, e depois detestado; que decidiu fazer justiça por conta própria, mas depois infringiu as leis; que se aliou a partidos políticos, etc. No entanto, tudo isso é dito, afirmado, explicado, descrito, repetido, sublinhado. A experiência se torna tão divertida quanto escutar um amigo nos descrever, durante uma hora e meia, o eletrizante filme de super-herói que ele viu na véspera. A emoção nas palavras está lá, em contrapartida, a sensação não chega nem perto de testemunhar tais fatos com nossos próprios olhos.

Diversos problemas decorrem desta escolha. Em primeiro lugar, o esgotamento estético do projeto. Passados quinze minutos de narrativa, Warden já queimou todo o seu arsenal de imagens e sons. Resta uma repetição dos mesmos dois ou três ângulos para cada entrevistado (com alterações substanciais de iluminação entre enquadramentos). Os atores tampouco recebem a oportunidade de desenvolver seus personagens: os testemunhos sustentam nível idêntico de empolgação ou entonação, do começo ao final. Os apresentadores de telejornal preservam até o mesmo gesto afetado das mãos, ou a maneira particular de falar. O governador profere algum discurso (emudecido pela montagem) por trás do mesmo palanque. Warden encara a câmera diante das mesmas paisagens paulistanas.

Em segundo lugar, os criadores sugerem uma fantasia jamais contextualizada a contento. Presume-se uma situação distópica diante da menção à “Nova São Paulo”, e à “Nova [Avenida] Paulista”, porém, nunca sabemos o que aconteceu na história recente para justificar tal mudança. Atravessamos um caos generalizado? Existem a Nova Rio de Janeiro, a Nova Recife? Warden nunca foi estudado, uma vez que desenvolveu seus poderes? Aceitou-se com tanta facilidade a presença de um homem excepcional, num mundo onde a capacidade de voa é inédita? Como seria a rotina do protagonista, fora das câmeras? Seus poderes estão sujeitos a alguma fraqueza? De que maneira ele mesmo se sentiu ao descobrir tais habilidades? Mistério.

Em terceiro lugar, a adaptação brasileira dos cânones norte-americanos sofre com problemas graves de ordem ética e moral. Podendo imaginar uma forma de heroísmo nacional, em pleno século XXI, os criadores concebem um rapaz branco, cisgênero e heterossexual, cujo principal inimigo é um político negro. As mortes provocadas pelo herói envolvem corpos negros ensanguentados no chão. A única presença feminina se restringe à namorada do herói, junto às comentaristas e repórteres desprovidas de real função narrativa. Chegado o momento de combater o crime, Warden é imediatamente transportado para o interior das favelas. No entanto, ao indicar (numa passagem rápida e excepcional) a prisão de pessoas ricas, jamais testemunhamos a chegada à moradia destes políticos. 

Logo, sustenta-se o imaginário antiquado e problemático de que o crime se restringe sobretudo às pessoas negras e periféricas. Já os diálogos estão repletos de frases de efeito a respeito do número de assassinatos e estupros no país. Importa-se dos Estados Unidos a prática dos tiroteios em massa, incomuns por aqui. Descreve-se a política somente enquanto jogo de interesses escusos, avessa a forma de distinção ideológica entre as partes. (E sabe-se bem que o discurso de que “todo político é corrupto” floresce na extrema-direita, dependente da descrença na política institucional). Vende-se a imagem de um Brasil violento e selvagem, tal qual os estrangeiros adoram ver. Em outras palavras, uma terra sem leis, na qual o galã providencial precisaria restituir a ordem. 

Em quarto lugar, o espectador é colocado numa posição de assombrosa passividade diante dos fatos narrados. O filme efetua perguntas que ele mesmo responde, depois retorque, e então pondera. Ele tece comentários acerca do universo de super-heróis, explicando a qual modelo Warden se filiaria. Explica a necessidade de eleger um herói, mas também os perigos decorrentes da idolatria. Justifica a ligação com a política institucional e os riscos de se filiar ao “sistema”. Nada é deixado ao espectador para conjecturar, imaginar, refletir por conta própria. Subentendidos e ambiguidades são descartados da comunicação. A palestra é mastigada ao público que se supõe infantilizado, incapaz de se projetar num emaranhado de poderes e lideranças. 

A lista poderia continuar. Uma parte muito pequena destes questionamentos se deve ao baixo orçamento. Trata-se, sobretudo, de escolhas estéticas e narrativas, além de um posicionamento político. Warden é um filme com muito a dizer, mas pouco a mostrar. Seu comentário acerca da ascensão de líderes totalitários permanece em segundo plano, diluído pela sobrecarga de falas, a alternância de línguas, a repetição quase hipnótica de imagens e símbolos. O projeto se leva muitíssimo a sério, sem perceber a importância fundamental do distanciamento (seja por meio de ironia, humor, horror) para se estabelecer o mínimo debate. Por fim, não satisfaz nem enquanto filme de super-herói, nem enquanto comentário sobre o cinema de herói — e muito menos como retrato desta realidade brasileira para exportação.

Warden (2025)
2
Nota 2/10

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