Wolfram (2025)

Feios, sujos e malvados

título original (ano)
Wolfram (2025)
país
Austrália
gênero
Faroeste
linguagem
102 minutos
direção
Warwick Thornton
elenco
Deborah Mailman, Erroll Shand, Joe Bird, Thomas M Wright, Ferdinand Hoang
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

O que sobrou do faroeste no cinema contemporâneo? A questão pode ser formulada a partir da quase-extinção de um gênero tão importante a certo imaginário de nação, de valentia e de masculinidade. Hoje, as poucas incursões neste terreno fundem o western a outros gêneros, ou adotam certo distanciamento via humor — caso do excelente brasileiro Oeste Outra Vez. Afinal, o ideal de conquista via expansão colonialista e possivelmente genocida soa bastante amarga ao contexto sociopolítico do século XXI. Os principais clássicos do faroeste são, como se sabe, profundamente racistas e xenofóbicos.

O diretor Warwick Thornton persiste, à sua maneira, no resgate das ferramentas clássicas do western, aplicadas ao território de sua Austrália natal. Em Wolfram, ele não propõe exatamente uma releitura, nem uma modernização ou aceno ao estilo, e sim, um mergulho saudosista na percepção social do faroeste à moda antiga. Estranha-se, em contrapartida, que tamanho saudosismo nunca seja acompanhado de uma linguagem igualmente retrô em termos de direção de fotografia. Thornton, que também assina a cinematografia, trabalha com imagens digitais lisas, excessivamente nítidas, dificultando a tarefa do espectador de acreditar que aquele seria o mundo de cem anos atrás.

Tanto o cineasta quanto seus atores levam este cenário extremamente a sério. Nunca percebem que o compilado de estereótipos os aproxima da paródia.

Em contrapartida, estão presentes os homens brancos violentos, que cospem no chão e urinam no bar no único propósito de iniciar uma briga. Encontramos, ao seu lado, as mulheres brancas com seus vestidos cheios de babados, reagindo ao flerte dos clientes nos saloons, além dos estrangeiros, representados pelos chineses e indivíduos autóctones, com ênfase na comunidade de aborígenes. O roteiro explora menos um deserto realista do que um imaginário coletivo das planícies secas, da bravura incondicional, das traições e brutalidades. Acertos de contas fazem parte do cotidiano, e ninguém é responsabilizado por assassinar seus desafetos. Escravidão de pessoas negras, aborígenes ou de crianças é permitida pela lei.

Tanto o cineasta quanto seus atores levam este cenário extremamente a sério. Nunca percebem que o compilado de estereótipos os aproxima da paródia, da caricatura jamais assumida dos mesmos códigos que pretende reverenciar. Definir chineses como pessoas que, obviamente, dominam as artes marciais, e limitar mulheres autóctones a superstições e crendices equivale a uma simplificação grosseira de suas respectivas culturas. Mesmo a masculinidade branca e patriarcal leva o neo-zelandês Erroll Shand a uma atuação in-ten-sa, diversos graus acima do naturalismo. Estamos num terreno de faz-de-conta, povoado por personas limitadas aos seus grupos sociais (o caubói, o xerife, o indígena, o negro) e, portanto, destituídas de subjetividade.

Por este motivo, incomoda tantos planos “belos” que compreendem seus atores enquanto modelos, a quem se pede para posarem em algum ponto específico da imagem, visando o brilho do sol ou da fogueira à noite. Deve haver cinco ou seis pores do sol diários nesta planície australiana, que sempre banha suas figuras num contraluz constante, em feixes laterais e flares que também aludem, por sua vez, ao consenso desgastado da beleza de cartão postal. O uso da atriz Deborah Mailman somente para refletir o fogo à noite, em imagens desfocadas (sugerindo o efeito ótico da fogueira), tampouco soa como uma forma particularmente respeitosa de representar a mulher e seu povo. O longa-metragem nunca percebe o quão próximo se encontra do kitsch.

Caso assumisse a vocação humorística, ou ridicularizasse a visão de mundo do faroeste tradicional, poderia oferecer uma ponte mais interessante com o cinema contemporâneo. A cena de um personagem vivo após ser atravessado por duas flechas imensas despertou risadas na plateia, durante a sessão de imprensa do 76º Festival de Berlim, embora o autor a considere digna de piedade e temor. O mesmo vale para as interações entre Casey e Frank, ou para as brincadeiras das duas crianças que jamais soam como garotinhos do início do século XX. O projeto se mostra bastante perdido entre o naturalismo e a alegoria, entre o retrato realista e a fábula de um tempo passado. Sua perspectiva étnico-racial resulta igualmente desatualizada — e grosseira, para dizer o mínimo. As piadas homofóbicas, mal trabalhadas (os xingamentos dos personagens jovens, chamados de “meninas”), apenas aprofundam a falta de tato da direção.

Nota-se a nobre intenção de traçar um filme no qual, finalmente, os habitantes locais se sobressaiam aos ocupantes brancos. Entretanto, por mais que Philomac (Pedrea Jackson) e as duas crianças assumam o controle da narrativa na segunda metade, resta uma forma de vingança modesta, convertida em espetáculo mágico e providencial, culminando numa conclusão totalmente inverossímil devido às surpresas reservadas ao espectador. (Mais risos eclodiram na sala de cinema durante o desfecho). É difícil respeitar personagens que nem mesmo a direção aborda com a devida dignidade. Os meninos são vistos como divertidos ou pitorescos, enquanto Philomac se restringe à condição de vítima, assim como àquela de blackfella. Sua mera sobrevivência constitui menos uma honraria do que o mínimo respeito esperado.

Ao final, Wolfram se aproxima de um cinema de antigamente — não apenas uma narrativa dedicada às décadas passadas, a partir de um gênero em desuso, mas também um ponto de vista pouco atualizado em relação ao que representa o cinema contemporâneo. Ainda privilegia uma visão arcaica da masculinidade, do heroísmo individual operando sobre o coletivo, e do território a conquistar, transformado em terra de ninguém. As mulheres permanecem restritas a um local de inacreditável passividade e objetificação. E nenhum pôr do sol compensa um tratamento humano de tamanho descaso. A sessão deixa um gosto amargo na boca, sobretudo por sua inclusão em um dos maiores festivais de cinema do mundo, do qual se esperaria um olhar para os rumos do novo cinema, descartando as propostas reducionistas e possivelmente preconceituosas.

Wolfram (2025)
3
Nota 3/10

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