“O Ouvidor é uma ocupação artística que produz muita coisa relevante, contemporânea e urgente”, explica Matias Borgström

Você conhece a maior ocupação artística da América Latina? No centro de São Paulo, na rua do Ouvidor, 63, existe um edifício de onze andares, gerido pelos próprios moradores, sem lideranças. O documentário Ouvidor, de Matias Borgström, acompanha a dinâmica deste lugar de moradia, convivência e criação artística.

O filme se concentra especificamente na organização da Bienal de Arte do Ouvidor, quando os criadores obtiveram patrocínio da Red Bull. Embora parte dos artistas tenha festejado a oportunidade de, enfim, dispor de recursos para seu trabalho, outros recusaram a intromissão de uma empresa internacional neste local de luta pela moradia — um símbolo de resistência contra os governos repressores do Estado de São Paulo.

Deste modo, o projeto condensa inúmeras discussões políticas e artísticas, éticas e morais, numa narrativa vibrante. O Meio Amargo conversou com Borgström durante o Olhar de Cinema, em Curitiba, em 2024. Ouvidor também foi selecionado na Mostra de São Paulo e no Festival da Cracóvia, e chega aos cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes.

Como você entrou em contato com os moradores do Ouvidor? Como eles acolheram a ideia de um filme sobre este espaço?

Eu conheci o Ouvidor em 2017, quando a gente organizou uma instalação artística experimental no sétimo andar. A gente conheceu um morador, e montou essa instalação que durou dois dias. Tinham músicos experimentais, projeções, fotos, e era aberto à integração com os moradores da ocupação, que a gente foi conhecendo pouco a pouco. Rolou um uma aproximação acelerada. Eu fiquei muito instigado de entender como funcionava: eles falavam que não tinha lideranças, e que a ocupação funcionava em formato de horizontalidade.
É importante ressaltar que eu falo da época em que estive lá, porque esse lugar sempre muda. O filme foi feito em 2018, início de 2019. Hoje em dia é outra organização, outra galera, porque o lugar vai mudando o tempo todo. Por isso, a gente procura documentar esse protagonista que é o prédio, esse organismo vivo com diversas pessoas. O foco não está tanto nos moradores.
Em 2018, teve a Bienal, enquanto eu conhecia o pessoal. Fui me enturmando, e me convidaram para filmar o evento. Fiquei lá alguns meses nesta filmagem, até começar a entender que a ocupação ia muito além do próprio evento artístico. Inclusive, seria irresponsável da minha parte fazer um filme dentro da Ouvidor, retratando apenas a Bienal. Então, ao longo do tempo, conheci diferentes opiniões. Alguns participantes eram mais anarquistas, totalmente contra o envolvimento de marcas e do governo na Bienal, e contra qualquer tipo de influência de fora, porque eles conseguem se organizar e fazer todo o movimento por conta própria.
Por outro lado, são pessoas que enfrentaram muitas dificuldades, e sempre tiveram que lutar, a vida toda. São pessoas que foram para São Paulo e moram na ocupação porque é o único lugar onde conseguem produzir e viver da arte. Logo, quando entra uma empresa como a Red Bull, esta é uma oportunidade única de reconhecimento artístico para poder viver da arte, e alugar um espaço como galeria. Percebi que existiam esses dois pontos de vista, de pessoas com experiências de vida e expectativas diferentes. Não acreditava que um estava mais certo que o outro — não é meu papel decidir isso. O que eu procuro nesse filme, é equilibrar e mostrar esses dois lados, com seus argumentos. Busquei ser também um ouvidor de histórias.
Foram 55 diárias de filmagem, além de vários dias sem câmera, apenas participando, me envolvendo. Eu subia e descia os andares, numa equipe de duas pessoas. A gente conhecia alguém, sentava, jantava. Enquanto isso, batia um papo, aí eventualmente eles começaram a contar, e então a gente perguntava se podia filmar. Depois encontrava outra pessoa, e assim por diante. O roteiro foi construído no passar desse ano, conforme eles contavam e faziam arte.

Você procurou falar com representantes da parte cultural da Red Bull, ou os políticos pedindo a reintegração de posse do edifício? Ou sempre quis escutar somente os ocupantes do Ouvidor?

Sim, a gente marcou uma entrevista com a curadora da Red Bull Station. Eu queria ouvir, acho que seria interessante. Já o governo é tão chulo que não acrescentaria nada; inclusive, duvido que eles fossem favoráveis ao filme que a gente estava fazendo. Até porque a gente hackeou eles, pegou o dinheiro deles para fazer o filme — afinal, o prédio é do governo.
Mas conseguimos marcar com a curadora da Red Bull. Mas no dia da entrevista, ela falou que não podia gravar, porque a central da Áustria a proibiu de falar. Depois ela veio me buscar e pediu para, por favor, não usar as imagens do logo com as asinhas de Red Bull. Ela também pediu para a gente tirar algumas coisas, mas então pensamos: “Tudo bem se não quiser falar, mas também não diz o que a gente tem que fazer”. Até porque o filme não ataca a Red Bull. Apenas mostramos o que estava acontecendo — era um abuso. Dá para ver, até pelo valor que eles oferecem, e pelas coisas que exigem.
Só mostramos no filme o que de fato acontece. Obviamente, é o espaço onde eles criam e moram, então sentia que não deveria mostrar algumas coisas por ser da privacidade deles, da organização deles. Era preciso saber até onde eu podia ou devia ir lá dentro. Em nenhum momento a gente filmou sem autorização. A gente inclusive nunca esconde essa tensão, de quando está chegando a vistoria. Os moradores pensaram, inclusive: “Você é nosso documentarista desse momento, e essas imagens podem nos proteger de ameaças”.
Já o processo de montagem demorou um ano, praticamente um ano e meio. A gente mostrou para pessoas pontuais da ocupação. Na verdade, ninguém pode falar em nome do grupo, mas eram moradores que estavam lá há muito tempo e podiam dizer: “Não põe esta pessoa nesse momento, porque pode ser interpretado de tal forma”. Ou: “Não mostra isso, que talvez não vai ser bem visto lá fora, não vai ser favorável”, e ainda: “Seria muito legal você incluir tal aspecto”. Esse processo aconteceu não só com pessoas lá de dentro, mas também, por exemplo, com a Carmen Silva, liderança do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro). Ela ajudou a contextualizar o nosso filme dentro dos movimentos de moradia. Era importante fazer um filme responsável. Mostramos também para o Eduardo Suplicy, e para umas quarenta pessoas no total.

Por isso, inclusive, você inclui no filme a reunião em que eles questionam a quantidade de artistas que vão ao Ouvidor, usufruem do espaço, mas não são moradores de lá.

Claro. A gente reforça duas vezes que nem todo mundo mora lá. Mas, ao mesmo tempo, existem pessoas de fora que querem de fato ajudar, enquanto fazem um projeto com eles. É uma cadeia de diferentes ideias e vontades, entre querer ajudar, e também promover o próprio trabalho. Sinto que todo mundo estava com uma intenção positiva dentro do grupo, mesmo que existam opiniões diferentes.
Afinal, uma sociedade é composta de diferentes vontades, e tem momentos de tensão. Mas eles são uma comunidade que se fortalece muito. Eles estão há 10 anos numa luta incrível, superando o governo Dória, superando Tarcísio, Bolsonaro, a pandemia. São pessoas incríveis. Eu estava lá dirigindo, mas, na verdade, estava mesmo ouvindo e aprendendo com eles sobre novas formas de organização.

Ouvidor já foi projetado para os moradores da ocupação?

A estreia aconteceu na Mostra Internacional de São Paulo. A gente tinha trinta convites, mas pedimos mais vinte, para oferecer tanto aos personagens quanto a alguns moradores atuais. Teve o momento de apresentação do filme, com o debate, que foi todo consagrado a estes personagens, que falaram ao público o que é o Ouvidor. A gente nem falou do filme. No momento atual, eles estão vivendo uma ameaça muito forte de reintegração de posse, provavelmente a mais agressiva de todas. Então, eles tiveram esse espaço para falar. A gente trouxe políticos e jornalistas para assistirem ao filme.
Terminou sendo uma sessão muito política, misturando moradores antigos e atuais, com o público presente. Foi uma sessão muito interativa para o público, porque depois gerou contatos entre os atuais moradores e os tomadores de decisão, de certa forma.
A gente também está envolvendo agora o advogado da Ouvidor, para discutir com a juíza, e conseguirem comprovar algumas coisas que, segundo a juíza, não tem como explicar. Então a gente fez a estreia na Mostra de São Paulo, e poucas semanas depois, teve uma exibição lá no Ouvidor também, para os atuais moradores. Com a nossa distribuidora, a Descoloniza Filmes, vamos além da distribuição em salas de cinema. Nossa ideia é fazer exibições em diversos lugares do Brasil e, de certa forma, espero contar para a América Latina o que é o Ouvidor. Queremos usar o filme como uma ferramenta de comunicação para uma luta que já ocorre muito antes do filme. Penso em centros culturais, em outras ocupações. Esse é um filme de guerrilha.

Para terminar, gostaria de saber como enxerga esta relação entre a Bienal tradicional e a Bienal do Ouvidor. De que maneira os artistas do Ouvidor foram percebidos?

Na Bienal de 2018, quando a gente filmou, a Bienal de São Paulo, até onde eu sei, não deu nenhuma resposta. Os moradores tentaram entrar em contato, mas não houve nenhuma resposta. A gente tem no filme a participação do Agnaldo Farias, com os ocupantes do Ouvidor, contando um pouco como é o mercado da arte, e como eles poderiam fazer a própria curadoria da arte deles. Houve esse interesse por parte de uma pessoa que já foi três vezes curadora da Bienal de São Paulo. Mas o evento em si, da Bienal, até onde eu sei, não deu nenhum retorno para a ocupação.
Porém, na última Bienal do ano passado [2023], eles tiveram uma grande abertura. Utilizaram a cozinha da Ocupação 9 de julho, da Carmen Silva, MSTC. Vi que o pessoal do Ouvidor estava lá, fazendo algumas performances. Não sei até que ponto foi uma participação oficial, mas, de alguma forma, com a pressão anterior, acho que a Bienal entendeu que teria que dar uma abertura para esses espaços. Afinal, o Ouvidor é uma ocupação artística que produz muita coisa relevante, contemporânea e urgente. Eu fiquei muito feliz de ir na Bienal de São Paulo do ano passado e ver que abriram este espaço.

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