Talvez muitas delas ainda não tivessem assistido a um filme numa sala de cinema. As crianças que se aglomeravam ao lado de um caminhão, no bairro de Catingueira, Campina Grande (PB), estavam frenéticas, esperando a sessão começar. “Tio, é cinema?”, me perguntou um garoto de seis ou sete anos. Respondi que sim. Deve ser estranho, para uma criança desta idade, que a sala de cinema se desloque até o seu bairro — e mais estranho ainda, que as exibições ocorram na lateral de uma veículo.
A iniciativa partiu de uma associação entre o Cine Rama e a 20ª edição do Festival Comunicurtas. Além das sessões habituais, no auditório do MAC (Museu de Arte e de Ciências de Campina Grande) e no Cine São José, o evento paraibano promove sessões itinerantes. Com uma tela instalada na lateral do caminhão, e o som preparado para a projeção ao ar livre, os organizadores fecham uma rua do bairro e convidam os habitantes à projeção. Muitas cadeiras são posicionadas em frente à tela, atraindo especialmente as crianças, além de alguns adultos tímidos. Os pequenos recebem pipoca, algodão-doce e bebidas.

Quem talvez esperasse curtas-metragens infantis, sobretudo de animação — caso do autor deste artigo — teve uma grande surpresa. Os filmes exibidos possuíam classificação indicativa livre, porém, não eram reservados ao público daquela idade. Ao longo de pouco mais de uma hora, meninos e meninas assistiram ao drama a respeito da solidão de um pescador em luto (Cantilena, de Dhiones do Congo); ao dia infernal na vida de um trabalhador negro (Um Dia Daqueles, de Walbert Vinicius); à conquista da primeira mulher transexual dançando em papel feminino numa quadrilha tradicional de Campina Grande (O Orgulho Não É Junino, de Dimas Carvalho); à luta dos povos indígenas contra os invasores brancos (Retomada Étnica, de Jorge Elô), etc. Documentários, filmes em live-action e animação compunham o cardápio.
Os temas seriam graves demais para esta jovem plateia? Entenderiam a complexidade do debate? É difícil dizer o quanto as dezenas de crianças teriam absorvido a partir de tamanha variedade. No entanto, permaneceram durante tempo surpreendente na cadeira, enfeitiçadas pelo brilho da tela, e pelo som estrondoso que tomava a rua. Nenhum pai manifestou incômodo com a temática de raça, identidade de gênero e luta indígena, enquanto as crianças assistiam com igual atenção às distintas formas de linguagem. “Mãe, é o Brasil?”, perguntou uma garota mais velha, ao que a mãe somente respondeu que sim. Tratava-se de imagens do Congo, município paraibano.
A importância de um evento deste gênero é fundamental. Para além de trazer as crianças ao cinema, é valioso levar a projeção de cinema, enquanto experiência coletiva, aos pequenos — ao lado da casa deles, onde moram. Isso permite ao público compreender que o audiovisual também lhes pertence, e que existe consumo de imagem em suporte distinto das televisões e telefones celulares. Naqueles curtas-metragens, puderam ver mais do próprio Estado, do próprio sotaque, identificando tanto a si mesmos quanto descobrindo a multiplicidade étnico-racial de seus vizinhos e colegas. Trata-se de uma proposta de empatia.

Além disso, o cinema se fez lúdico, a partir de materiais sérios. Meninos e meninas conversavam, corriam, comiam doces. Levantavam-se para enxergar melhor, mudavam de cadeira. Ninguém lhes dizia para sentarem comportados e silenciosos, como ocorreria na sala escura do circuito exibidor tradicional. Afinal, era o cinema quem pedia licença para ocupar o espaço delas, não o contrário. Para quem esperasse desconforto dos jovens espectadores diante de um inesperado heavy metal indígena (na conclusão de Retomada Étnica), a bela surpresa veio da garotada se levantando da cadeira e pulando junto com a vibração da trilha sonora.
Pode-se dizer, no final, que se divertiram. Talvez o conteúdo demore a decantar, e somente parte das propostas deve ter sido de fato assimilada. Não tem problema. A sessão em Catingueira serve, aos pequenos e aos seus pais, para entenderem seu direito à arte. Os eventos e órgãos públicos lhes devem o acesso aos filmes — sobretudo as produções brasileiras, com foco no audiovisual paraibano. O 20º Comunicurtas não proporcionou um luxo, nem um presente ou favor a estas pessoas, mas gerou uma demanda que possivelmente não existisse, ou estivesse adormecida. Não é possível reivindicar um direito desconhecido.
Às vezes, é preciso gerar vontades, expondo espectadores a prazeres e vontades que nem conhecessem ainda. Quando o cinema ocupou as ruas, ele demonstrou que a cultura também desejava aquelas pessoas ali — as mesmas que já ensaiam em quadrilhas juninas extremamente profissionais, nos galpões logo ao lado. Agora, o audiovisual também lhes pertence.



