Como Fotografar um Fantasma (2025)

A vida após a morte

título original (ano)
How to Shoot a Ghost (2025)
país
EUA, Grécia
gênero
Drama, Fantasia
duração
27 minutos
direção
Charlie Kaufman
elenco
Jessie Buckley, Josef Akiki, Eva H.D.
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Este curta-metragem parte do pressuposto que a beleza seria suficiente por si mesma. “Não precisa fotografar, nem lembrar. A beleza basta”, afirma a citação inicial. Ironicamente, Charlie Kaufman passa os vinte e sete minutos seguintes buscando representar esta beleza irrepresentável, no intuito de evocar a sensação de não-pertencimento de dois fantasmas, interpretados por Jessie Buckley e Josef Akiki. Eles estão mortos na cidade de Atenas, e vagueiam pelas ruas, observando os vivos que não os enxergam de volta. Finalmente, dominam um local que nem mesmo sabia de sua existência.

“Eu passei minha vida sendo ignorada. Eu não vou passar a minha morte assim”. Este período de além-vida se converte, por extensão, numa libertação e vingança simbólica para dois rejeitados. No caso do rapaz, o histórico de exclusão se mostra claro, devido à condição de refugiado. Para a garota, tamanho isolamento se torna mais hermético. Nunca saberemos, ao certo, porque ela constitui uma figura tão reclusa. O roteiro evita se debruçar sobre as circunstâncias precisas da morte, embora plante indícios: a Covid-19 (mencionada como “a peste”), além de um ataque homofóbico e xenofóbico. O projeto dispensa os motivos da tragédia para imaginá-los, de certo modo, renascidos.

O aspecto de lentidão, e de uma condução etérea dos personagens e espaços marca o projeto na totalidade — tal qual um fim de festa, ou uma leve embriaguez.

Outro personagem fundamental deste périplo de anônimos consiste na figura da narradora em off. Com uma voz sussurrante e baixa, Eva H.D., também roteirista (que já havia trabalhado com Kaufman em Estou Pensando em Acabar com Tudo), dispara algumas pérolas de melancolia. “Lar é uma ideia que eu nunca tive”, “O não-pertencimento é uma pátria”, “As pessoas são apenas linhas num papel. Mas nós fomos escritos em água”. A voz feminina domina este filme desprovido de som direto, onde tudo é construído via narração, ruídos e uma trilha sonora onipresente, de natureza vaporosa e poética. O total descolamento entre som e imagem aprofunda a sensação de um percurso fantasmático.

Como Fotografar um Fantasma deve cativar ou desgastar seu espectador pelo emprego de recursos bastante consagrados de certo imaginário de delicadeza. Kaufman abraça, sem moderação, os flares, os passeios da dupla na praia, a luz do amanhecer, a imagem borrada ou com borda desfocada, os olhares perdidos ao horizonte, a dança na praia à noite, a trilha sonora de cordas tristes, as vozes aveludadas. Se alguém perguntasse a uma inteligência artificial: “O que é uma imagem poética?”, talvez recebesse como resposta exatamente a natureza de captações (e modificações em pós-produção) encontradas aqui. 

O aspecto de lentidão, e de uma condução etérea dos personagens e espaços marca o projeto na totalidade — tal qual um fim de festa, ou uma leve embriaguez. Não há nada particularmente incômodo nestas construções, tampouco memorável. De modo geral, pode-se falar de uma investida de poucos riscos para um autor conhecido pela inventividade e picardia. Ele propõe uma mistura entre a estética de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (vide os cabelos coloridos de Buckley, o flash na praia à noite), a estrutura narrativa fragmentada dos videoclipes, e um intimismo autocentrado, de propensão depressiva, já visto em Estou Pensando em Acabar com Tudo.

É difícil sugerir que o resultado proporcione qualquer reflexão pertinente a respeito de refugiados, imigrantes, pessoas gays ou figuras deslocadas, em geral. Pelo contrário, oferece uma visão romantizada e atenuada das violências sociais — aqui, acontecidas sem real contexto, causa, nem consequências dignas de nota. Entretanto, os atores estão competentes em sua performance (quase uma dança pelas paisagens gregas), enquanto Kaufman se atém ao efeito de doce letargia (ele nunca pretende, de fato, obter algo além disso). Pode-se falar no trabalho mais seguro do cineasta — algo que, em se tratando de uma pessoa particularmente incisiva em seu ponto de vista, não representa necessariamente uma virtude.

Como Fotografar um Fantasma (2025)
6
Nota 6/10

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