À Voix Basse (2026)

Padrão europeu de qualidade

título original (ano)
À Voix Basse (2026)
país
França, Tunísia
gênero
Drama
duração
113 minutos
direção
Leyla Bouzid
elenco
Eya Bouteraa, Hiam Abbass, Marion Barbeau, Feriel Chamari
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

À Voix Basse pode ser descrito como um filme bastante correto. Estão presentes os principais valores esperados de uma grande produção europeia, destinada aos festivais internacionais: a fotografia cuidadosa, o trabalho dedicado do elenco, a utilização competente de som e trilha sonora. Nota-se, em especial, a presença de um roteiro claro, linear e cronológico, girando em torno de temas importantes à discussão sociopolítica atual — no caso, a criminalização da homossexualidade na Tunísia. Trata-se, portanto, de um cinema bem-pensante, sério e acessível ao público estrangeiro — a quem, em última instância, se dirige a obra de fato. 

A diretora e roteirista Leyla Bouzid adota certo didatismo no percurso, visando facilitar o percurso de seu interlocutor. Divide a trama em letreiros, organizando a jornada de Lilia (Eya Bouteraa) dia a dia, na intenção de sublinhar a passagem do tempo. Após a heroína consagrar várias manhãs e noites aos familiares, graças ao velório do tio falecido, a montagem salta para algumas noites junto à namorada dela, que a acompanha na viagem da França à Tunísia, ainda que se hospede num hotel afastado. A edição opera a função de balança: para cada passagem intensa, outra de calmaria a sucede; após a dramaticidade excessiva de uma conversa, alguma poesia simples irrompe no roteiro para oferecer respiro (a entrada do pássaro em casa).

A orientação sexual volta a constituir o principal — e único — motor de conflito para os personagens LGBTQIA+. Gays e lésbicas são retratados com comedimento, posto que o retrato se volta ao público hétero.

O longa-metragem desperta a impressão de ter dilapidado seu texto em algum destes laboratórios de roteiro, cada vez mais frequentes, destinados a moldar projetos ao paladar do world cinema. Logo, possui suas conveniências (a sobrinha lésbica se interessa pela morte suspeita do tio gay); seus facilitadores (no primeiro bar LGBTQIA+ que Lilia e a namorada Alice frequentam, elas obtêm informações privilegiadas a respeito da morte do tio); suas incursões no cinema de gênero (a jovem protagonista convertida em detetive). O funeral será também o tempo do coming out, quando se denunciam as leis absurdas do país conservador. Revela-se, então, que a heroína sempre gostou de meninas, e que seu relacionamento se deve unicamente ao amor, conforme ela frisa à mãe. Recorre-se até mesmo ao discurso engrandecedor do clímax, nos moldes de Me Chame Pelo Seu Nome.

O que falta à obra, em contrapartida, é um posicionamento próprio. Defende-se o direito de gays e lésbicas contra governos opressores, é claro. No entanto, artisticamente, a conduta soa impessoal, automática. Não seria possível destacar uma única marca de ousadia, de criatividade, seja na filmagem, sonorização ou montagem. Qualquer espectador minimamente interessado no cinema francês já terá encontrado estas imagens, esta maneira de dirigir personagens e este ritmo, centenas de vezes anteriormente. O público “de nicho”, afeito ao cinema gay, também deve possuir um farto repertório de histórias semelhantes de confissão da homossexualidade à família tradicional.

À Voix Basse (“Em voz baixa”, no original) evita trabalhar com metáforas, simbologias ou estranhamentos de qualquer forma. Permite, ao menos, certa liberdade quando Alice dança num bar, e a câmera gira ao seu redor. Desfila pelo rosto de quatro mulheres conforme as distintas gerações femininas discutem a moral do tio gay recém-falecido. Permanece no rosto da atriz principal, em plano próximo, nas sequências de dramaticidade intensa (para valorizar o trabalho da intérprete), enquanto abre os enquadramentos nas ruas, de modo a oferecer ao espectador um pequeno panorama das paisagens tunisianas. Qualquer cartilha de direção cinematográfica sugeriria precisamente esta forma de enxergar e de dar a ver as coisas.

Ao público LGBTQIA+, em contrapartida, a história pode soar estranha, no sentido de jamais demonstrar de maneira satisfatória o afeto entre pessoas do mesmo sexo. A dupla central é limitada a uma cena de sexo de pé, extremamente mal filmada, na qual as namoradas se levam ao orgasmo em menos de dez segundos. Além disso, tornam-se modelos de uma estranha sobreposição de corpos nus na cama, sugerindo o sexo que a direção não pretende materializar. Já o parente homossexual é descrito como desbocado, efeminado, tendo sido encontrado nu pelos policiais. Ambas as visões mostram-se pudicas e estereotipadas — as lésbicas “delicadas”, e o gay extravagante que incomoda todos ao redor. Pior ainda, sugere-se que o falecido Daly teria provocado a própria morte devido ao caráter afrontoso de sua orientação sexual assumida. Se tivesse reprimido os trejeitos, talvez continuasse em vida.

Resta a impressão de que, novamente, gays e lésbicas são retratados com pesar e comedimento, posto que o retrato se volta ao público hétero. A obra não almeja gerar identificação de indivíduos queer e fora das normas sociais em seus países de origem, mas gerar piedade e empatia por parte do espectador a quem se solicita, uma vez mais, um pouco de carinho, de compreensão, de tolerância com estas pessoas diferentes. Eles já sofrem tanto, coitados. Que vida difícil! Deixemo-nos em paz, que será melhor para todos. “Não chamando atenção, eu não vejo problema”, dispara um amigo conservador. A trama, ironicamente, parece lhe dar razão. 

A orientação sexual volta a constituir o principal — e único — motor de conflito para os personagens LGBTQIA+. Esta não é a trama a respeito de um homem tunisiano que, entre diversos fatores, se relacionava com outros homens, mas sobre um homem gay, e sobre a sobrinha lésbica descobrindo a verdade sobre seu parente. Assim, discutem-se as distinções geracionais, as diferenças culturais entre gays e lésbicas (a homossexualidade feminina não é “levada a sério” pela polícia), os pontos de vista divergentes da lei francesa e da constituição tunisiana. Mostram-se os familiares protetores, e os acusadores; os violentos, e os coniventes. Desenha-se um painel completo.

Ao final, alguns elementos, de fato, se destacam enquanto maturidade da mise en scène: a apresentação inteiramente silenciosa e clara das duas protagonistas; a primeira vista da janela cujo valor será esclarecido adiante; a expressividade inegável de Hiam Abbas, excelente como de costume. No entanto, o cinema contemporâneo, especialmente quando possui recursos fartos e lida com temas complexos, deveria procurar uma forma à altura de seu objeto de estudo. Esta produção se conclui de forma tão bela quanto pouco memorável, e de coragem limitada enquanto posicionamento cinematográfico. Não basta apenas denunciar problemas sérios sem ferir a sensibilidade de ninguém (os homofóbicos são devidamente preservados do discurso). É preciso que a luz e os sons, os enquadramentos e a profundidade de campo, os símbolos e a montagem, reflitam a violência social percebida pela direção. Muito mais do que nos contar um tema, seria preciso representá-lo.

À Voix Basse (2026)
6
Nota 6/10

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