Amante Difícil (2026)

A letargia é o novo punk?

título original (ano)
Amante Difícil (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
87 minutos
direção
João Pedro Faro
elenco
Miguel Clark, Joana Liberato, Bruna Britto, Dedé Maia, Bruno Lisboa, Estevão Nogueira
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Em 2024, João Pedro Faro dirigiu um dos filmes brasileiros mais interessantes daquele ano: Paixão Sinistra. Devido ao conteúdo extremo e à linguagem experimental, nunca foi lançado nos cinemas brasileiros. Mas o cineasta tem construído um percurso sólido, explorando criativamente as imagens de baixa qualidade e abordando juventudes perdidas pelas grandes metrópoles. Por isso, esperava-se uma incursão ainda mais provocadora em Amante Difícil, seu novo filme alçado à prestigiosa mostra Olhos Livres de Tiradentes — a sessão reservada aos autores veteranos.

O resultado, para o bem e para o mal, é bastante diferente daquele encontrado nas investidas anteriores. Seria positivo no sentido de não repetir a abordagem já empregada — o cineasta continua explorando os limites e possibilidades de sua forma muito particular de filmar. Entretanto, soa negativo o fato que alguns procedimentos tão adorados nos trabalhos precedentes estejam ausentes aqui: o humor, o vigor, a paixão escancarada pelo cinema de terror. Antes, a condução era violenta, frontal, sem concessões. Desta vez, o diretor se aventura por rumos mais polidos e convencionais de um cinema experimental esperado, até mesmo previsível.  

O início já gera certo incômodo. Por que a trama a respeito de uma juventude branca de classe-média (ainda que abandonada pelas instituições) se abriria com a pintura do linchamento de um homem negro, escravizado? Por que a montagem se aproxima da pele em carne viva do sujeito agredido, e das pessoas assistindo ao espetáculo? Em que medida esta imagem serviria de boas-vindas ao espectador, e se relacionaria com o percurso bastante plácido do protagonista durante uma noite mágica? Outras alegorias à fotografia e às artes plásticas possuem significados igualmente nebulosos, e potencialmente questionáveis.

O esgarçamento do tempo se converteu na ferramenta mais cobiçada do cinema experimental. Cada cena de Amante Difícil dura duas, três, quatro vezes mais do que se esperaria.

Uma vez introduzidos os personagens centrais, temos a impressão de reencontrar o melhor do cinema de Faro. Basta observar o rosto dos atores, devidamente calibrados para a expressividade mínima, além da cor desbotada e as luzes embranquecidas, para atestar um posicionamento voluntário destes recursos marginais. O encontro com a amiga de longa data, filmado pela janela de um prédio, em andar alto, resulta num curioso quadro geométrico dentro da imensidão preta da noite. Existe um prazer notável na composição e na brincadeira com a noção de performance cênica, dominadas pelo diretor. O ator Miguel Clark continua encarnando este alter-ego do cineasta, perfeitamente ajustado à estética do autor.

Entretanto, uma diferença fundamental se instaura no ritmo de condução das cenas, e também na montagem. Cada tableau cuidadosamente composto pela direção dura duas, três, quatro vezes mais do que se esperaria de sua função narrativa. Nota-se um inesperado prazer em esticar as interações ao limite da inércia e da desconexão com o espectador. Amante Difícil resulta muito mais longo do que se imaginaria desta trama, não por conter algum trecho específico em excesso, mas por fazer com que cada cena se estique, e estique, e estique, enquanto forma de provocação. Afinal, por que a sequência precisaria se interromper assim que o conflito é exposto? Por que não testar nossa adesão ao instante em que nada acontece?

Nos tempos de concentração comprometida pelos vídeos de redes sociais, e de linguagem acelerada na troca de imagens e mensagens, o esgarçamento do tempo se converte na ferramenta mais cobiçada do cinema experimental. Na Mostra de Tiradentes, Tannhäuser utilizava incontáveis repetições de flashes luminosos e ondas do mar, a partir de sobreposições idênticas. O Enigma de S. também recorria às ondas e ao caminhar despropositado da protagonista. Entre as diversas vertentes de experimentação (a multitela, a granulação da imagem, a dissociação entre imagem e som), a persistência da cena sem propósito tem soado deliciosa à nova geração. Nota-se um prazer tão grande em nos testar quanto em provocar eventuais debandadas da sala de cinema devido à baixa adesão a este registro. A diretora do curta Crash, inclusive, parecia felicíssima em perceber o incômodo profundo que o alto som de carros destruídos provocavam na plateia.

Neste caso, Miguel encontra uma possível entidade durante a noite. Começa a caminhar atrás dela, len-ta-men-te, com os passos subitamente arrastados e mancos. Zumbificou-se. Descobre inscrições misteriosas em giz pela calçada. Segue-as, com equivalente morosidade. Encontra uma criatura mascarada, dotada de um “X” cobrindo o rosto, e limita-se a sorrir, muito tempo depois que a intrusa se aproxima (len-ta-men-te, é claro). Faro sugere elementos evidentes de tensão (o som estrondoso da guitarra, o barulho do gravador, as figuras dignas de um culto secreto), apenas para, em seguida, retirar o conflito e o senso de propósito destes acontecimentos. O herói se desloca rumo a estas figuras porque aparenta não ter mais nada a fazer. Limpa o apartamento caótico da amante difícil sem real senso de honra, vontade ou carinho. Move-se pelo imperativo do gesto.

Rumo ao final, alguns elementos parecem, enfim, concretizar o terror tantas vezes sugerido, ou materializar os conflitos amorosos e eróticos deste pretenso triângulo amoroso. O nascimento de filhotes durante a noite provoca uma repulsa que, ao menos, contrasta com o entorpecimento generalizado das sequências precedentes. Entretanto, a obra prefere ficar na iminência de um acontecimento que nunca chega, na promessa de reviravoltas (satânicas, amorosas, revelações de segredos) desprezadas pelo roteiro e pela direção. O contentamento reside sobretudo na possibilidade de frustrar expectativas. 

Assim, o longa-metragem se prova curiosamente retórico, fechado sobre si mesmo. O prazer das referências cinéfilas e de uma marginalidade visceral do autor cede espaço à provocação menos interessante, posto que previsível, calculada, fria. O gesto punk (ou gótico, às vezes) dos projetos anteriores se abre a um posicionamento um tanto esnobe face ao público, colocando-se acima dele, para além dele. A rebeldia juvenil, neste caso, se domestica, soando mais burguesa (em conjunção com os demais filmes experimentais citados) do que disposta a explorar a noite, os perigos, a precariedade. Faro segue testando sua mise en scène, ainda que esbarre, desta vez, num muro pelo caminho.

Amante Difícil (2026)
4
Nota 4/10

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