Amargo (2025)

O corpo queima

título original (ano)
Amargo (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
11 minutos
direção
Bruno Araújo
elenco
Jailson Silva
visto em
20º Comunicurtas (2025)

Amargo traz uma história de violências. O curta-metragem se abre com o incêndio num canavial, que logo compreendemos possuir origem criminosa. Em seguida, atestamos a presença de profundas cicatrizes nas costas do protagonista. Do início ao fim, a montagem insiste em aproximar a natureza que queima e o corpo que arde, como se as chamas tomando conta do campo fossem uma metáfora para este cortador de cana, cansado de sua sina, e prestes a se revoltar contra o sistema. 

A direção possui uma curiosa estratégia de sugerir significados, somente para explicá-los em seguida. Inicialmente, revela as marcas em seu personagem de modo suficientemente claro. Depois, no entanto, faz com que o próprio se esforce em contorcer o corpo para admirar o sinal destas agressões no espelho. Uma vez revelados os incêndios, e uma pessoa ateando fogo às plantações, chega uma reportagem de rádio, conveniente e explicativa, relembrando os perigos das queimadas, e suas consequências para as pessoas ao redor. A mise en scène parece lançar uma pista, porém, voluntariosa e gentil, soluciona a charada sem nos dar tempo de fazê-lo sozinhos.

A estratégia de sugerir e esclarecer se mantém com o nosso protagonista silencioso e sem nome. Este homem solitário não aparenta ter relações afetivas, familiares, nem de amizade. Vive sozinho na casa modesta, e sustenta uma personalidade misteriosa — ele sempre foi assim? Não conversa com outros cortadores de cana? O que sente em relação aos incêndios crescentes? Mesmo assim, instaurado o ataque de fúria contra o açúcar em seu café, ele explode de modo a lançar o produto pelo chão. Há uma mistura, ou talvez indecisão, entre a busca por sutileza e a tentativa de ser claríssimo, algo que nem sempre resulta coeso.

Isso vale, igualmente, para o encontro entre a atuação dedicada de Jailson Silva, de corpo embrutecido e olhar forte, frente a um trabalho menos aprimorado de som — vide os estrondos ao abrir e fechar uma gaveta de madeira, e mesmo o ruído do uniforme vestindo o corpo. Por um lado, as imagens das queimadas são impressionantes, inclusive pelo ângulo e enquadramento nos quais a fotografia escolhe captá-las. Por outro lado, o interior da casa, onde se passa a maior parte da narrativa, careceria de maior cuidado com texturas e volumes. A luz neste espaço permanece chapada demais.

Logo, Amargo soa como uma bela iniciativa, ainda que de desenvolvimento modesto. O filme possui seu discurso político muito claro, assim como as metáforas que lhe parecem adequadas (o café, o açúcar, as formigas). Falta, em contrapartida, humanizar este homem-arquétipo, conferindo-lhe subjetividade e deixando que se expresse (mesmo que simbolicamente, ainda em silêncio). Quando a narrativa se encerra, ela parecia enfim começar — como se aquela fosse a preparação para uma explosão do trabalhador precarizado, fora de quadro.

Amargo (2025)
5
Nota 5/10

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