Colmeia (2025)

A horda

título original (ano)
Colmeia (2024)
país
Brasil
linguagem
Ensaio, Experimental, Documentário
duração
11 minutos
direção
Tatiane de Oliveira
visto em
20º Fest Aruanda (2025)

Que alívio encontrar, num festival de cinema, um filme como Colmeia! O projeto dirigido por Tatiane de Oliveira representa uma iniciativa rara entre as produções contemporâneas, tanto em curta quanto longa-metragem. Trata-se de uma crença fundamental no som, na imagem e na articulação de ambos via montagem, enquanto potências semânticas. A autora estima que estes elementos possam sugerir, indicar, e despertar a reflexão do espectador por si próprios, dispensando acessórios didáticos.

Isso significa que a obra não possui explicação narrativa em off, nem letreiros pontuando datas e localidades, muito menos informações finais acerca do tema abordado. Dispensa os alertas de gatilho, assim como a trilha sonora alarmante ou inspiradora. Não nos convida a nos apiedar acerca dos conflitos abordados, nem nos indignar por um problema específico. Em suma, acredita na inteligência do espectador, em nossa capacidade de compreender significados e inferir sentido a partir de aproximações puramente estéticas. Um gesto maduro de mise en scène, enfim.

No caso, a cineasta compara as aglomerações humanas àquelas das abelhas. Assim como os insetos se reúnem e se organizam em grandes estruturas, nós também ocupamos edifícios e avenidas. Planos aéreos de florestas são comparados àqueles de metrópoles urbanas; e o movimento das abelhas se equipara aos passos na calçada. A destruição de um implica, em paralelo, na eliminação do outro. Estamos não somente lado a lado, mas também conectados. Oliveira aposta num cinema do fluxo, da continuidade, da vertigem. 

Aproxima-se, guardadas as óbvias proporções, de projetos conceituais como Berlim: Sinfonia da Metrópole (1927) e O Homem com uma Câmera (1929), no sentido de elevar uma ideia ao status de protagonista. Aqui, nenhum rosto humano se destaca, nem se torna mais ou menos importante do que edifícios, árvores e colmeias. Posto que utiliza uma linguagem cinematográfica pensada diretamente no retrato do corpo humano (as noções de close-up, plano médio, plano geral e afins são determinadas pela proximidade do corpo), o protagonismo de um coletivo indistinto e anônimo representa uma louvável rebeldia.

Certo, talvez as associações pudessem se desenvolver e se aprofundar, e algumas escolhas de edição (os fades levando a estranhos blacks da montagem) não necessariamente contribuam a organizar a narrativa. Mesmo assim, Colmeia representa um conceito ideal ao curta-metragem, além de um belo exercício de linguagem. A diretora sabe para onde olhar, por quanto tempo, e como olhar, e de que modo a construir seu discurso pela simples associação de imagens (ou nada simples, na verdade). Existe certa pureza nesta abordagem, uma crença ontológica naquele cinema abandonado em tempos de redes sociais, Internet e dificuldades de interpretação. Este curta-metragem representa, dentro de suas possibilidades, um ato de resistência.

Colmeia (2025)
8
Nota 8/10

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