Dia dos Pais (2025)

Afetos simulados

título original (ano)
Dia dos Pais (2025)
país
Brasil
gênero
Drama, Fantasia
duração
19 minutos
direção
Bernardo Ale Abinader
elenco
Adanilo, Daniel Lopes, Isabela Catão
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

O princípio desperta uma curiosa aparência de conto de fadas, ou talvez de fábula de terror. Um sujeito com a cabeça coberta por um capuz, tal qual a Chapeuzinho Vermelho, perambula por uma floresta assustadora. Dia dos Pais jamais envereda por estes gêneros em especial, porém, utiliza o imaginário fabular para nos projetar numa Manaus de fantasia. 

Para o diretor Bernardo Ale Abinader, este futuro próximo não implica em prosperidade e desenvolvimento social. Pelo contrário, os laços familiares se revelam tão precários quanto as condições de vida. Pelo menos, para saciar tamanhas carências, um simulador permite aos homens tristes experimentar os objetivos almejados (reatar com o filho, acertar as contas com o pai ausente). (Na Mostra de Cinema de Gostoso, este filme teria muito bem pareado com Futuro Futuro, de Davi Pretto).

Enquanto isso, relatos externos nos informam acerca das queimadas, e da poluição decorrente destes atos criminosos que prejudicam a vida dos moradores. É conveniente demais que toda a explicação provenha de uma reportagem (o cinema adora televisores e rádios que se ligam exclusivamente para veicular a informação que o espectador precisa descobrir), entretanto, ela contribui a certo sentimento de paranoia e perseguição. Há poucas esperanças para estes personagens, razão pela qual precisam fabricá-las, artificialmente. 

O diretor faz um uso tão simples quanto seguro das ferramentas de gênero. Flashes coloridos incidindo sobre os cenários e os personagens aludem diretamente ao mecanismo não-naturalista, enquanto uma parede descascada, no cômodo onde ocorrem as simulações, significa a precariedade, e também as ondas eletromagnéticas dos dispositivos utilizados. Estes sujeitos em crise financeira, lutando para sustentar a filha pequena de um segundo casamento, gastam seus poucos trocados na busca por falsear um futuro melhor.

Logo, Dia dos Pais se mostra um filme melancólico. O excelente Adanilo transmite tanto a incerteza quanto a força no olhar requisitadas do derradeiro encontro com o pai num bar. A narrativa sugere conciliações somente na imaginação, enquanto, na vida cotidiana, elas se fazem discretas (vide a conclusão agridoce). Ninguém se torna mais feliz, tampouco cai num desespero profundo. O curta-metragem recorre a uma situação crônica, que nem se inicia com a trama, nem se resolverá ao final da jornada.

Assim, em dois filmes praticamente simultâneos (Como Ler o Vento e Dia dos Pais), o realizador amazonense busca uma poesia direta, sem concessões nem disfarces. Uma moça aprisionava o vento num pote naquele filme; um rapaz concebe o prazer de matar o pai, neste aqui. Talvez ambos os projetos necessitassem de mais tempo para se desenvolver, soando como mini-longas, ao invés de conceitos adequados ao formato específico do curta. Mesmo assim, o autor demonstra firmeza no olhar e coragem na direção — duas características essenciais aos novos realizadores.

Dia dos Pais (2025)
7
Nota 7/10

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