
Neste documentário, o cinema se esforça para tratar Dona Onete com toda a pompa que a artista paraense merece. Os criadores partem do princípio que simplesmente obter falas dela (além de elogios de terceiros a respeito dela) não seriam suficientes, como parecem bastar a tantas biografias musicais. É preciso fazer que o ambiente onde vive, e a natureza ao redor, se tornem cenário de um show criado especificamente para o longa-metragem. Por isso, impressiona a fotografia ostensiva, com uso de luzes e cores que a maioria das ficções, dotadas de amplo controle do ambiente, nunca alcança.
Além disso, o som se mostra impecável, tanto na captação de conversas quanto de ruídos necessários à imersão naquele espaço. Em se tratando de um filme a respeito da música, e do timbre tão específico da protagonista, a atenção ao trabalho sonoro era fundamental. A diretora Mini Kerti e sua equipe criam uma espécie de show num barco flutuante, quando Onete se apresenta às câmeras, literalmente movendo-se através dos rios e da paisagem. A homenagem se constrói por meio desta orquestração da linguagem cinematográfica, pensada para captar a protagonista em estado de esplendor.
O que diferencia o projeto tanto da mera gravação de um DVD quanto de um talking head tradicional é a disposição a promover encontros. Dispensam-se as habituais falas para a câmera, que conferem uma rigidez excessiva, além da impressão de pouco risco de mise en scène. No caso da artista popular, tão informal em suas falas e gestos, prefere-se que os convidados sentem perto dela. A partir de prováveis estímulos da direção, discutem os diferentes gêneros musicais de suas carreiras, os temas de cada canção, a presença de palco, a importância de valorizar a cultura local em ritmo e letras.
Somos convidados a enxergar a cantora como uma figura próxima de nossas mães e avós, ao invés de uma estrela inalcançável.
Dona Onete discute amigavelmente com Dira Paes, Fafá de Belém, Gaby Amarantos, Emicida, Jaloo, entre outros. No caso de Gaby Amarantos, a montagem se encanta com o trecho a ponto de preservar uma cena longa, na qual a cantora jovem quase rouba os holofotes para si, dada a quantidade de falas e a disposição a remeter o diálogo à sua experiência pessoal. Os demais convidados, em sua maioria, preferem discutir a música brasileira em chave mais ampla, ou o passado de Onete. Logo, a estrutura do roteiro também dispensa a narração explicativa em off e o caráter pedagógico decorrente das linhas do tempo e dos letreiros informativos.
Kerti tampouco efetua uma extensa pesquisa em material de arquivo para comprovar a veracidade das afirmações. Ao invés de uma obra fatual, movida pelo desejo de revelação de uma verdade, ou da atestação de fatos, prefere valorizar as emoções, os afetos ao vivo, diante das câmeras. Nota-se uma bem-vinda abertura ao acaso neste processo. Embora transmita as passagens principais — o histórico como professora e ativista —, a direção nem mesmo se atém à raridade de uma cantora iniciar sua aclamada carreira aos 72 anos. A maioria dos documentaristas teria se deliciado com esta exceção, que soa dispensável à cineasta. Ela prefere a mulher e a música às peculiaridades.
Quando se encontra no barco, falando por si própria, Onete também se expõe com a intimidade de quem revê um amigo de longa data. O espectador é colocado nesta posição de confortável proximidade quando a protagonista narra seus namoros, o casamento frustrado e o arrependimento por não ter colocado “mais de 300 chifres” na cabeça do ex-marido abusivo. As interações estão repletas de humor e camaradagem, mesmo quando evocam violências de gênero. Deste modo, somos convidados a enxergar a cantora como uma figura próxima de nossas mães e avós, ao invés de uma estrela inalcançável.
Os shows ocupam parte modesta da narrativa. Há certo interesse em presenciar a mulher adaptando seu canto a estilos tão diferentes, em parcerias com artistas jovens que a admiram. Emicida chega o mais perto possível da hagiografia, ainda que sua fala decorra de um gesto de evidente sinceridade. Os demais se surpreendem com a presença de palco, a maneira como Onete cativa o público, a possibilidade de empregar a voz rouca e o canto bruto a registros que vão do rock à MPB. Kerti constrói sua personagem enquanto pássaro raro, mas não uma figura de exotismo.


Enquanto isso, as locações se fazem estúdio: para a narração das desilusões amorosas, a tempestade no barco serve como metáfora de turbulências; para o encontro com Dira Paes, um luxuoso teatro contribui para colocá-las no patamar de um ensaio fotográfico. Existe um verniz luxuoso neste cuidado tão preciosista, quase publicitário, de personagens e ambientes (vide a câmera subindo a palmeira de açaí junto de um garoto da região). Em contrapartida, face a uma parte do Brasil raramente retratada no nosso audiovisual (ou mal retratada, com preconceitos e fetiches da miséria), tamanho embelezamento se justifica.
Dona Onete: Meu Coração Neste Pedacinho Aqui celebra uma brasilidade paraense e marajoara, humanizando a natureza enquanto explora a natureza humana. Talvez o espectador saia com algumas lacunas de dados, que poderá facilmente procurar por conta própria após a sessão. O filme não se incumbe da função jornalística de introduzir o tema ao espectador presumido ignorante, tampouco busca reduzir a mulher à sucessão veloz de conflitos pessoais e “maiores hits”. Deixa que a música, as conversas e os sorrisos convertam Onete naquela amiga do bairro com quem seria delicioso sentar num bar, tomar uma cerveja e jogar conversa fora.



