
Um dos motivos pelos quais a história de Drácula é contada inúmeras vezes no cinema vem da riqueza de interpretações a partir do romance de Bram Stoker. O vampiro foi utilizado para representar a exploração sanguinária dos aristocratas contra a classe trabalhadora. Já simbolizou o medo dos cidadãos da Europa do Leste tomando as mais ricas capitais do continente, representados pejorativamente pela contaminação da Peste. Adquiriu um significado de sexualidade liberada (e, por isso mesmo, monstruosa) posto que a criatura busca o romance com uma mulher, embora ataque o corpo do agente imobiliário que visita seu castelo. Além disso, evocou a imortalidade enquanto perversidade, confrontando-se à inevitabilidade da morte — temas comuns na literatura e no audiovisual góticos.
No entanto, na versão idealizada por Luc Besson, todos os aspectos sociais, políticos, de classe e gênero desaparecem. O francês imagina o protagonista lendário na condição de um apaixonado incurável, disposto a todas as atrocidades em nome das saudades pela querida Elisabeta. Qualquer crime cometido pelo aristocrata esbarra nesta desculpa simples e conveniente: Vlad (Caleb Landry Jones) assassina brutalmente um padre, porque este não rezou o bastante pela sobrevivência da condessa. Aniquila diversas pessoas em busca da reencarnação desta mulher. Fabrica o perfume perfeito para se aproximar de todas as donzelas e reconhecer, no olhar de alguma moça do mundo inteiro, o espírito de sua amada.
Na versão idealizada por Luc Besson, todos os aspectos sociais, políticos, de classe e gênero de Drácula desaparecem. O francês imagina o protagonista lendário na condição de um apaixonado incurável.
Aqui, a peste se reduz a mera nota de rodapé: “Viver sem amor é a pior das doenças”, minimiza o herói. A Transilvânia perde importância — Besson prefere situar parte considerável da trama em Paris, enquanto filma as sequências restantes na Finlândia. A relação predatória com funcionários se perde porque, agora, o vampiro “somente” escraviza gárgulas computadorizadas, muito felizes em servir ao mestre. O abuso sexual do nobre contra a jovem de classe desfavorecida também cede espaço ao desejo voluntário de Mina (Zoë Bleu) em ser possuída. Esqueça toda a complexidade psicológica e histórica desta jornada violenta: Besson enxerga nada mais do que o “amor eterno” do título nacional. Neste sentido, quanto maiores forem os gestos dele, mais apaixonado soará.
Para uma caracterização idealizada, ele convida um ator que adora os maneirismos e excessos. Caleb Landry Jones entrega-se ao papel como se fosse o último filme de sua vida. Ele encarna um conde delirante, de olhos arregalados, fala suplicante, gestos sedutores. Não há tempos mortos, respiros nem sutilezas: tudo precisa ser exteriorizado como se Drácula estivesse a ponto de explodir em cada cena. Por isso, a criatura sangra, chora, baba, escarra, transpira, goza. Ele está sempre coberto em secreções, com os cabelos desgrenhados e os lábios trêmulos. O vampiro se converte numa figura obsessiva e enlouquecida, do tipo que, normalmente, habitaria os manicômios.
Já Besson ignora a caracterização estética da época. Enquanto Robert Eggers criou seu Nosferatu com pesadíssimos tons cinzentos e textura granulada, para remeter a séculos atrás, o veterano simplesmente retrata o século XV como se fosse hoje. Em nenhum momento estes personagens medievais soam frutos de seu tempo, seja pela construção colorida e excessivamente nítida da imagem, seja pela sobrecarga de efeitos digitais e pelas opções de figurinos e maquiagens. Em seu castelo, o Vlad envelhecido ostenta um gigantesco coque branco e os trejeitos efeminados que não fariam feio à galeria de figuras excêntricas de O Quinto Elemento. Onde Eggers enxergava solidão, Besson vê opulência.
Por isso, as acusações de que o cineasta francês teria feito mais do mesmo soam completamente infundadas. Nunca houve um Drácula como este, para o bem ou para o mal. A sequência da fragrância perfeita, envolvendo cenas de dança, está mais próxima do Perfume (2006) de Tom Tykwer do que de qualquer construção conhecida do vampiro nas telas. Já o padre irônico (pois interpretado por Christoph Waltz, construindo pela enésima vez um cinismo cômico) se aproxima das encarnações de autoridades religiosas em filmes de exorcistas. Besson ainda encontra espaço para subtramas que a montagem sabota, provavelmente em nome de uma duração mais enxuta. Este é o caso da ruptura de um lago congelado, do diagnóstico de um médico (Guillaume de Tonquédec) sem real função narrativa, e do culto dos seguidores de Drácula, transformados em animais de estimação (vide a cena de Maria presa, com trejeitos caninos).


Devido aos excessos e extravagâncias, o autor sempre esteve muito próximo de um cinema queer, exceto pela dificuldade de abraçar, sem culpa, o homoerotismo e os enfrentamentos da norma. Apesar de sugerir uma tensão sexual entre Mina e Maria; e aproximar Vlad de Jonathan por meio de lambidas, ele ainda retorna a uma compreensão nuclear, e bastante conservadora, das identidades sexuais e de gênero. Para ele, as dissidências servem enquanto exotismo — são o outro, o diferente, o engraçado, o ridículo, o monstro. Uma importante sequência ocorre durante uma feira de atrações, povoada por mulheres barbadas, contorcionistas e outras personas estranhas. Este é um bom resumo do modo como Besson enxerga as minorias.
Por fim, Drácula: Uma História de Amor Eterno privilegia incontáveis discussões a respeito de Deus e do amor. Na figura do padre, o cristianismo surge para atestar a veracidade da paixão de Drácula e, de certo modo, admirá-lo por seus feitos. Embora se pretenda rebelde e provocador (“Deus é amor. Ele vai entender. E se não entender, que ele vá para o inferno”), Besson ainda se mostra um tanto conservador no final, ao acreditar que o aspecto chamativo das imagens (uma torre de mulheres sedentas por sexo; a orgia num baile) compensaria a ausência de discussão a respeito da sociedade em que estas personagens se inserem.
Trata-se de uma provocação juvenil, em detrimento de um convite à reflexão. Assim, ele promove um cinema da distração, do entretenimento enquanto meio e finalidade. Seu projeto pasteuriza até uma das fábulas mais complexas da literatura mundial em prol de uma simples declaração de amor romântico de um rapaz por uma moça.




