Família à Prova de Balas (2025)

O bom homem armado

título original (ano)
Guns Up (2025)
país
EUA
gênero
Comédia, Ação
duração
92 minutos
direção
Edward Drake
elenco
Kevin James, Christina Ricci, Luis Guzmán, Francis Cronin, Melissa Leo, Joey Diaz, Timothy V. Murphy, Keana Marie, Leo Easton Kelly
visto em
Cinemas

Esta comédia de ação parte do princípio Breaking Bad: um pai de família honesto e trabalhador se vê incapaz de garantir um futuro aos filhos e esposa. Por isso, começa a colaborar com a máfia. Embora o ex-policial preste serviço a criminosos, a patroa garante que ele não é uma “pessoa má”, e sim, um “bom pai”. O sujeito também possui códigos éticos que lhe permitem dormir tranquilamente à noite: agride somente sujeitos com bastante dinheiro, e nunca atinge crianças. Em paralelo, evita matar. Acredita que, limitando-se aos socos e chutes ordenados por terceiros, não teria do que se arrepender. 

Esta espécie de negociação com a consciência cristã se prova fundamental para um filme obcecado com a noção de família. Desde a saga Velozes & Furiosos, um filme de ação não se dedicava tanto à ideia de que, para proteger os nossos, tenho o direito (ou mesmo, o dever) de eliminar qualquer um em meu caminho. A adolescente Siohbán Hayes (Keana Marie) é recompensada pelo pai com sorvetes após agredir colegas na escola para honrar o irmãozinho, vítima de bullying. “É sempre certo defender a família, em qualquer situação”. “Você é meu irmão. E família é para isso”, declara o colega de emboscadas. O roteiro está repleto de frases de efeito semelhantes.

A negociação com a consciência cristã se prova fundamental para um filme obcecado com a noção de família.

O elogio ao patriarcado atinge aspectos obviamente machistas. Ao se deparar com um gângster flertando com uma garota na boate, Ray Hayes (Kevin James) começa a bater no sujeito, que lhe pergunta: “Você é pai dela?”, e escuta, como resposta: “Não, mas alguém é”. Logo, o herói assume a postura de defensor de todas as moças indefesas, em nome dos incontáveis pais mundo afora. É preciso manter a castidade das mulheres, supondo que não possam se defender sozinhas. Ator consagrado pelas comédias, James engrossa a voz e franze o olhar, encarnando uma persona de ator dramático carrancudo, muito sério em sua missão protetora.

Ao mesmo tempo, o projeto se esforça em funcionar como comédia. Curiosamente, trata-se do aspecto menos convincente, ornado por piadas mal construídas, gags pouco funcionais e textos mal pensados para caberem na boca dos atores. No meio do tiroteio, o garotinho pequeno dispara: “É pesado”. A irmã questiona: “O colete ou a situação?”, e o menino: “Os dois”. Imagina-se como esta tirada tenha soado genial ao cineasta e roteirista Edward Drake, embora soe estranhíssima para o vocabulário de uma criança. “Por que vocês parecem figurantes de filme B?”, provoca Danny (Francis Cronin) a um grupo de capangas. “Vou batizar meus dez primeiros filhos de Ray”, ele brinca, após ser salvo pelo amigo. As piadas são sofríveis.

Já as cenas de luta estão distantes dos melhores momentos do cinema de ação, por apostarem nos cacoetes típicos das produções de baixo orçamento, sobretudo a câmera tremida e a montagem picotada durante as lutas, para se disfarçar com facilidade a presença de dublês. A fotografia escurece os combates, ou investe num contraluz tão intenso (a luta na boate) que mal se enxerga os adversários. Deste modo, privilegia-se uma ideia de ação, um imaginário de movimentação frenética por todos os lados, com gritos e objetos de quebrando. O espectador que complete os detalhes do enfrentamento que Drake evita coreografar em detalhes. Trata-se de um cinema de baixo investimento em termos de coesão e verossimilhança — ninguém envolvido na obra acredita estar criando algo realmente precioso. Até por isso, surpreende a estreia nos cinemas de uma iniciativa tão claramente feita para o lançamento direto em streaming (algum tempo atrás, seria diretamente nas locadoras).

Em consequência, o terço final trata de revelar alguns segredos. Eles servem para fomentar o humor irônico, ainda que sejam bastante difíceis de acreditar. O cartaz brasileiro ainda proporciona um spoiler, ao revelar Christina Ricci com um revólver na mão — afinal, a participação dela no combate aos vilões consiste numa surpresa reservada ao final. A arte internacional prefere posicioná-la atrás do marido, este, sim, devidamente armado, protegendo a todos. O diretor estima que, ao “empoderá-la” com habilidades de combate rumo ao final, dilui parte do teor másculo da trama. A proposta é questionável, e um tanto absurda narrativamente — como ninguém teria suspeitado do passado de Alice Hayes até então? Entretanto, as artes brasileiras não se importam com spoilers.

De modo geral, Família à Prova de Balas prefere habitar um imaginário do cinema de ação. Pouco importam as causas e consequências, ou as origens e motivações. Ray possui habilidades afiadíssimas de luta, embora nunca saibamos como ele desenvolveu estas capacidades (certamente, não foi como pequeno policial de bairro). As pessoas o redor ocupam tipos narrativos: o grande vilão com tapa-olho, sotaque forte e charuto na mão; o filho nerd (por isso, usa óculos e sempre possui um livro em mãos); a filha rebelde (até compreender o amor do pai); o capanga latino de moral dúbia; o colega irlandês servindo como alívio cômico, etc. O longa-metragem investe em funções esperadas do gênero, ou seja, códigos habituais, ao invés de subjetividades específicas. Drake se interessa pela capacidade dos atores em habitarem os estereótipos, ao invés de escapar aos mesmos.

Timidamente, o roteiro embute elementos de uma sexualidade dissidente: o bandido Ignatius (Luis Guzmán) é efeminado e gosta de ser chamado de “puta”, e Melissa Leo interpreta uma capanga brutalizada de nome Michael. Entretanto, os acenos discretos às identidades minoritárias chamam mais atenção pela falta de coragem em se assumir como tais, do que por um pretenso acolhimento às diversidades. Afinal, esta obra de ação privilegia o elogio à masculinidade, à força brucutu, à decisão individual de agir contra os desafetos sem esperar por delegados, juízes ou demais instâncias. (Vale notar que Ray se converte num homem temido somente quando abandona a polícia). Em certa medida, esta é uma investida reacionária, saudosa dos filmes dos anos 1980 e 1990, de baixa dedicação narrativa, porque privilegia as surpresas e espetáculos fáceis (a explosão atrás da família unida). Drake acredita que o cinema pode ser divertido quando pensa pouco, e se dedica a colocar a premissa em prática.

Família à Prova de Balas (2025)
4
Nota 4/10

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