GOAT (2025)

O sacrifício do gênio

título original (ano)
GOAT (2025)
país
EUA
gênero
Terror, Suspense
duração
96 minutos
direção
Justin Tipping
elenco
Tyriq Withers, Marlon Wayans, Julia Fox, Tim Heidecker, Jim Jefferies, Maurice Greene, Indira G. Wilson
visto em
Cinemas

Nos filmes de terror envolvendo casas mal-assombradas, é comum uma família se mudar para o casarão isolado no meio da mata. O local está em pedaços; há vultos estranhos pelos corredores, além de cômodos trancados e marcas nas paredes. Mesmo assim, a mãe esperançosa se exclama que vai viver muito feliz ali. Não tardam a acontecer os fenômenos envolvendo espíritos e possessões. O espectador pode se perguntar: por que raios foram viver neste lugar evidentemente demoníaco?

Uma das funções do terror consiste justamente em punir personagens por sua ingenuidade. Os moradores da casa mal-assombradas recebem o devido castigo por terem se mudado sem desconfiança. Assim como Chapeuzinho Vermelho era sancionada por não seguir os conselhos da mãe, e João e Maria eram penalizados pela gula, os personagens do horror em modo cautionary tale sofrem por não seguirem as mínimas regras da vida em sociedade — o dito bom-senso. Parte do terror consiste em nos apresentar uma versão catastrófica do que nos aconteceria caso seguíssemos somente nossos desejos, em detrimento das normas.

O longa-metragem se assemelha a um extenso videoclipe, graças à busca incessante por estímulos brilhosos, coloridos, fragmentados. Mas, em termos de reflexão, apoia-se em obviedades.

Algo semelhante ocorre em GOAT (um estranho nome brasileiro para o título original, Him). Cameron (Tyriq Withers) entra na casa de seu ídolo, Isaiah (Marlon Wayans). O jovem esportista encontra caveiras de animais, junto a indícios de magia negra. Percebe fenômenos estranhos ocorrendo desde os primeiros minutos. Colaboradores de treino surgem de lugar nenhum, sofrendo torturas bárbaras como forma de estímulo ao aperfeiçoamento do novo astro do futebol americano. Ele sofre alucinações, e encontra-se trancado em cômodos. Tudo indica que se trata de uma seita, ou pelo menos, de um local perigoso e ilegal. Mesmo assim, Cam permanece, ciente de que terá a melhor formação possível para obter um precioso contrato ao final dos testes. Logo, o jovem será punido por tamanha inocência.

O filme sustenta a tese de que “a grandeza exige sacrifícios”, estampada na forma de slogan pelo cartaz brasileiro. Trata-se de uma perspectiva alarmante a respeito dos esforços exigidos pelo esporte de alto nível. Para ser o melhor, Cameron aceita passar pelos mais estranhos procedimentos, capazes de recuperá-lo de uma lesão e aumentar o rendimento em campo. Curiosamente, para um longa-metragem esportivo, não se assiste a uma única sequência de jogo. Trechos rápidos desfilam pela tela da televisão, no entanto, os produtores não organizam uma única partida, que permitiria ao espectador contemplar o suposto talento sobre-humano de Isaiah ou Cameron.

Isso porque o foco se encontra neste “retiro” dos esportistas, uma espécie de acampamento de machos onde se testa a resistência à dor e à brutalidade, além de inúmeras provocações e humilhações. GOAT mergulha sem pudores na tortura recreativa, implementando inúmeras formas de violência física e psicológica contra o protagonista. Tyriq Withers o encarna de maneira estranhamente estoica e passiva — um registro inesperado para o quarterback obstinado a se tornar o melhor do mundo. Embora presencie agressões e seja provocado sexualmente cena após cena, move-se por corredores e centros de treinamento com uma placidez imperturbável. Esta composição soa incompatível com as necessidades do suspense psicológico.

Já o diretor Justin Tipping prejudica sua metáfora através do uso ostensivo de simbologias. O cineasta possui uma mão pesadíssima em termos de estilo e alegorias, razão pela qual cada elemento do discurso é sublinhado, reiterado, explicado, até beirar a caricatura de si próprio. Nos próprios diálogos, os personagens explicam tudo o que o diretor gostaria de dizer. A narrativa se inicia com a frase “Esporte é cinema com consequências reais. É mais que um jogo”, proferida pelo narrador na televisão. Em seguida, afirma-se que o GOAT (greatest of all time, “o melhor de todos os tempos”) “traz a salvação para o povo” através de seu sangue — as alusões ao sacrifício são inesgotáveis. “O jogo recompensa a violência”, explica Isaiah, que completa: “Isso não é um jogo. Isso é tudo”. Adiante, o espectador é avisado: “Quando dois homens entram no Coliseu, apenas um sai”, prenunciando o final. Para atestar o caráter divino dos jogadores, aponta-se para placas a respeito da “divindade” de Isaiah, criadas por fãs, enquanto Cam é enquadrado, nada discretamente, em sua versão da Última Ceia de Da Vinci.

Esteticamente, o longa-metragem se assemelha a um extenso videoclipe, graças à busca incessante por estímulos brilhosos, coloridos, fragmentados. Entram em cena luzes vermelhas e azuis; as lutas entre personagens são substituídas por representações de raios-x; os capacetes se iluminam. Nota-se um componente de magia surgido de lugar nenhum, posto que a narrativa jamais investe numa mitologia capaz de conectar ambientes de festa com as bolas de futebol americano girando sozinhas, os monstros de franjas que tentam matar Cameron, e os fãs enlouquecidos de Isaiah (alguns deles, diretamente copiados de Nós de Jordan Peele, produtor deste filme). Os estímulos soam aleatórios, assim como em diversos videoclipes. Se Tipping estima que algum recurso causar impacto, emprega-o sem pensar duas vezes — sem moderação, nem coerência.

Algum comentário racial interessante poderia decorrer deste embate. Isaiah afirma algumas vezes ter lutado muito mais dentro do esporte por ser um homem negro. Cameron, rapaz negro de pele clara, é chamado de yellow nigger e halfrican-american, em provocações do mentor. Ora, a agressão de homens negros entre si oferece uma variação das torturas contra personagens negros praticadas por vilões brancos, em projetos como a série Them. No entanto, discussões a respeito de raça e classe se dissipam, visto que a sociedade ao redor dos esportistas desaparece. GOAT demonstra dificuldade de perceber falhas sistêmicas, preferindo concentrar-se em dois sujeitos particularmente obsessivos e autodestrutivos. Em consequência, ambos soam como casos excepcionais. Assim, critica-se a febre pelo sucesso (“Às vezes eu sou um pouco intenso”, brinca Isaiah enquanto coça a cabeça com um revólver, parodiando Pânico), entretanto, a NFL é preservada de qualquer observação a respeito da conduta com seus atletas.

Por fim, o que a obra teria a dizer a respeito do esporte profissional, da pressão sobre astros em ascensão, e da busca pela fama? Para tamanho festival de luzes e brutalidade, o filme se atém à constatação bastante simples de que estes fenômenos existem. Entretanto, mostra-se incapaz de investigar de onde surgiria tal comportamento, quais seriam os responsáveis, e como se poderia enfrentar este padrão. A solução milagrosa ao final serve enquanto catarse, embora soe altamente improvável em termos de coesão narrativa. Tipping se dedica a um espetáculo vaidoso com muito a mostrar, mas pouco a dizer. Em termos de reflexão, apoia-se em obviedades. Ainda estima que, quanto mais elementos de medo embutir nesta jornada, mais complexo o resultado será. Ora, a sobrecarga provavelmente desperta o efeito inverso: a anestesia e a indiferença por parte do espectador. 

GOAT (2025)
3
Nota 3/10

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