Mãe Fora da Caixa (2025)

O real e a fórmula

título original (ano)
Mãe Fora da Caixa (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia, Drama
duração
90 minutos
direçã0
Manuh Fontes
elenco
Miá Mello, Danton Mello, Xando Graça, Malu Valle, Ester Dias, Lidiane Ribeiro, Welder Rodrigues
visto em
Cinemas

Existem dois movimentos contrários no interior de Mãe Fora da Caixa. O primeiro reside numa bem-vinda intenção de ruptura com os padrões. Ao invés de apresentar maternidades idealizadas, estampadas por mães felicíssimas junto aos bebês, o filme prefere mostrar aquilo que a divulgação tem apresentado como “maternidade real”. Ou seja, esta equipe majoritariamente feminina, comandada pela diretora Manuh Fontes, prefere sublinhar o cansaço, as inseguranças, a dificuldade de pedir ajuda e receber ajuda, além de outros conflitos relacionados à chegada do primeiro filho.

Neste aspecto, a comédia dramática encontra seus melhores momentos. A descrição da dor nos seios ao amamentar, do receio diante do filho adormecido (Estaria respirando? Seria normal?), da diminuição da libido, da presença paterna limitada, e da irritação ao lidar com conselhos de terceiros, compõe uma ótima crônica. Estas passagens certamente só poderiam ser escritas por autoras com experiência em tais situações, buscando a identificação de outros espectadores (ou, provavelmente, espectadoras) que não conseguem se enxergar na versão idílica do puerpério. Há muito espaço no cinema para honrar mulheres em suas tensões do dia a dia, naturalizando incertezas relacionadas à gestação e ao cuidado dos filhos.

Fica a impressão de que o cinema popular tolera uma pequena intromissão do “mundo real”, contanto que, no final, vençam o absurdo, o viés moral e o otimismo forçado. 

Miá Mello está confortável neste registro, integrando um casal de classe média repleto de amor, apesar das dificuldades esperadas deste período. Teria sido fácil recorrer à figura de maridos infiéis, esposas vitimizadas e outros subterfúgios do melodrama. Embora acene a estas pistas, o texto jamais as concretiza, preferindo que os dilemas do casal decorram de um desgaste habitual, após tantas transformações no corpo, na psique e na rotina. O desejo de se aproximar de uma vivência plausível planta a narrativa na dinâmica do cotidiano, ao invés de apostar em qualquer acontecimento extraordinário e excepcional (doença do bebê, precariedade financeira súbita e afins). Parte-se do pressuposto que há magia, humor, drama e afeto suficientes na vida de pessoas comuns, logo, dispensa-se a intromissão de desordens externas.

Por este mesmo motivo, surpreende a chegada do segundo movimento em Mãe Fora da Caixa, que insiste em associá-lo aos vícios mais desgastados de certa comédia popular. Trata-se do pressuposto que o humor só funciona junto ao público caso seja, 1. Exageradíssimo, e 2. Explicadíssimo. No quesito exagero, estima-se que quiproquós absurdos, movidos por um humor físico associado a alto grau de implausibilidade, precisam entrar em cena para fazer o público rir. Atinge-se um registro bastante histriônico por se esforçar desesperadamente em fazer rir, acreditando que, quanto mais improvável, absurda e insana, mais hilária seria a situação.

Assim, nossa mãe “comum” de repente se vê presa numa fantasia de Galinha Pintadinha, durante a festa improvisada no interior do hotel altamente vigiado onde trabalha. Nada nesta passagem convence: o esquecimento de Manu sobre o fato de estar vestindo a fantasia de galinha, o fato de ficar presa na roupa, a festa improvisada com uma única cúmplice no hotel, o discurso inspirador a uma plateia calada e séria. Neste momento, o filme se contradiz: se estimava que a vida da protagonista fornecia todos os ingredientes necessários ao encantamento e à emoção, por que recorrer a ferramentas tão lamentáveis de roteiro? Esta sequência, concebida enquanto grande clímax do longa-metragem, prejudica fortemente o resultado.

No entanto, não se trata do único elemento danoso ao conjunto. O didatismo incomoda bastante, por estimar que o público seria incapaz de compreender acontecimentos óbvios. Por isso, a narração em off justifica, explica e esmiúça insistentemente aquilo que as imagens e sons já demonstravam por conta própria, com suficiente clareza. Talvez este monólogo interno se justificasse na linguagem literária — o filme decorre da obra de Thaís Vilarinho —, e soasse igualmente pertinente no teatro, onde a publicação já foi adaptada. No cinema, em contrapartida, seria importante fazer adaptações da ordem da linguagem.

Mesmo assim, Manu apresenta a si mesma e aos outros personagens — gráficos “engraçados” nos ajudam a compreender as características de cada um. Ela diz tudo o que pensa, avisa dos próximos passos, e ironiza suas atitudes. Em especial, descreve aquilo que já estamos presenciando. “Olha aí quem chegou: a culpa materna”, afirma a narradora, imediatamente após uma demonstração claríssima deste sentimento. “E assim, o plano de Manu e André foi por água abaixo”, ela pontua, após o fracasso facilmente compreensível do tal plano. “Mãe perfeita é uma invenção. O que existe é mãe possível”, explica a avó da criança, após um longo desenvolvimento deste exato raciocínio junto ao público.

Mãe Fora da Caixa não deixa nada ao espectador. Não nos convida a pensar junto, a debater, a discordar. Não restam lacunas a preencher com nossas ideias pessoais. A narrativa possui uma mensagem clara, entregando-as com uma pedagogia mas-ti-ga-da ao espectador infantilizado, passivo, presumido pouco inteligente. “O que mais me choca é que ninguém fosse capaz de me alertar sobre [os dilemas do puerpério] — ou talvez eu não quisesse ouvir”, pontua a heroína, em associação com a cena da qual se retira o mesmo aprendizado. Mais da metade da narração onipresente poderia ser retirada sem prejuízo à compreensão. Pelo contrário, a redução do palavrório teria convidado os espectadores a tirarem suas próprias conclusões, integrando o processo de produção de significado.

A direção ainda aposta nos facilitadores e lugares-comuns da estética televisiva: trilha sonora em excesso, nos dizendo quando rir e quando chorar (mais uma peça didática); cenas genéricas de transição (paisagens cariocas ao entardecer, que soam extraídas de bancos de imagens); trapalhadas físicas injustificáveis, de potencial cômico limitado (a amiga incapaz de prender o celular ao painel do carro). Somam-se as criações sonoras pouco cuidadosas (inúmeros choros aplicados ao bebê que obviamente não está chorando) e ferramentas convenientes de roteiro (a crise de asma do marido que nunca havia manifestado tal problema antes). Trata-se de uma mise en scène cômoda, pouco inventiva, contentando-se com o mínimo esperado deste formato de criação. Faz-se assim porque tem sido feito desta maneira e, aparentemente, isto basta.

No final, até mesmo o discurso anti-idealização da maternidade se contradiz por meio do ensinamento de Manu em sua conclusão triunfante: “Eu amo tanto a minha filha que qualquer jornada, por mais caótica que seja, vale a pena”. Ora, o que diferencia este final feliz de tantas visões romantizadas da mulher-mãe-esposa plenamente realizada em sua função? Partindo de um desejo de desconstrução (de discursos, imaginários e estéticas), o projeto se rende, a princípio, à linguagem da comédia popularesca, e depois, ao enaltecimento que pretendia criticar. Fica a impressão de que o cinema popular tolera uma pequena intromissão do “mundo real”, contanto que, no final, vençam o absurdo (a Galinha Pintadinha), o viés moral (o discurso no evento) e o otimismo forçado. 

Mãe Fora da Caixa (2025)
5
Nota 5/10

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