Narciso (2026)

O objeto de desejo

título original (ano)
Narciso (2026)
país
Paraguai, Alemanha, Uruguai, Brasil, Portugal, Espanha, França
gênero
Drama, História
duração
101 minutos
direção
Marcelo Martinessi
elenco
Diro Romero, Manuel Cuenca, Arturo Fleitas, Margarita Irun, Mona Martinez, Nahuel Perez Biscayart
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Este filme parte de uma premissa repleta de potencial para representar o cenário político sul-americano. Em oposição à ditadura militar paraguaia, concentra-se num ideal de liberdade: Narciso (Diro Romero), jovem locutor de rádio, entusiasta do rock e das tendências estrangeiras — mal vistas pelos generais de seu país. Ele desperta a atenção das mulheres e dos homens, dos mais velhos e dos mais novos. Movimenta-se com uma sensualidade assumidamente inspirada em Elvis Presley enquanto, durante a noite, multiplica os encontros amorosos. 

Curiosamente, o diretor e roteirista Marcelo Martinessi não desenvolve esta história pela perspectiva do herói. Ele será sempre visto por terceiros: o dono da rádio, Lulu (Manuel Cuenca), homossexual reprimido e fascinado por ele; Mr. Wesson (Nahuel Pérez Biscayart), um representante norte-americano no país, e assumidamente gay; e Nenucha (Mona Martinez), a dona da pousada onde o porta-voz do rock se hospeda. Ainda haverá prostitutas, a esposa conservadora de Lulu, e as jovens meninas sonhadoras, que o perseguem em seu dormitório. Imagina-se um espectro, uma figura quase mítica de beleza irresistível.

O cineasta descreve uma opressão que não está disposto a filmar; uma censura que nunca se materializa, e uma sexualidade latente, porém, ausente em imagens.

Em contrapartida, o texto evita construir uma atração progressiva. Começando pelo final trágico, volta um ano antes para desenhar um protagonista, no mínimo, contraditório. Narciso salta do quase anonimato para a aclamação de maneira repentina. Torna-se reconhecido nas ruas, embora ainda constitua fundamentalmente uma personalidade das rádios. Ele pressiona Lulu a tocar rock em sua empresa, embora o homem se oponha, em nome das raízes folclóricas paraguaias. Pouco tempo depois, o dono da rádio abraça o novo gênero, sem revelar os motivos da mudança repentina de opinião. Menciona-se com frequência a perseguição e vigilância dos ditadores, embora nunca os vejamos, de fato, exercendo controle sobre a programação cultural. (A autocensura ocorre com maior frequência do que a ingerência frontal dos governantes).

Assim, a obra gira em torno de um herói opaco, preso a um cenário de paranoia meramente sugerida. Todos desejam Narciso, porém, nunca se sabe o que ele mesmo quer. O rapaz se deita com Nenucha, ainda que demonstre pouco interesse por ela. Chega a beijar rapazes e flertar com outros, ciente de seu poder de sedução, no entanto, segundos depois, transparece o desinteresse pelos pretendentes. Seu próprio nome sugere um egocentrismo, tampouco desenvolvido pela premissa inicial. De onde surgiu a paixão pelo rock? Como o jovem descobriu o ritmo inédito em sua cidade? De onde ele vem, e para onde pretende seguir? O que lhe ocorreu, verdadeiramente, para justificar a brutal imagem que lança a narrativa? Mistério. Martinessi prefere que o homem encarne, sobretudo, um símbolo.

Este mundo funciona unicamente em chave alegórica, composto por personagens-tipos: militares ou artistas, empresários ou trabalhadores, gays ou heterossexuais. O cineasta descreve uma opressão que não está disposto a filmar; uma censura que nunca se materializa, e uma sexualidade latente, porém, ausente em imagens. Deste modo, depende demais da crença do espectador naquilo que é dito, e nas pressuposições de terceiros: alguém teria escutado que os militares gostariam de ver uma versão mais alegre de Drácula nas rádios… Por quê? Em quais termos? O que ocorrerá, caso não sigam as supostas instruções? Silêncio. Denuncia-se aquilo que nem mesmo se procura representar.

Na ausência da materialização dos conflitos, resta muita construção de atmosfera. Narciso efetua uma onerosa reconstituição de Assunção em 1959. Nota-se a preocupação com figurinos, cenários, maquiagem, além de uma iluminação bastante dramática. O diretor de fotografia Luis Arteaga trabalha com focos de luz intensos e direcionais, optando por incontáveis cenas em contraluz, visando efeito dramático. Mesmo num inferninho onde os rapazes se encontram clandestinamente, alguma luz estranhamente forte os destaca do cenário. Deste modo, os personagens habitam um palco permanente, seja nas insistentes apresentações de Drácula, seja nas ruas e becos. 

Assim que Lulu ou Narciso deixam o prédio, eles posam num canto preciso do enquadramento, de modo que a luz das marquises ou postes brilhem sobre eles. Trata-se de uma mise en scène da rigidez, do controle: não há uma única cena de aparência despojada, orgânica, em meio a quadros tão cuidadosamente compostos. Como resultado, o drama transparece a artificialidade — voluntária ou não, dependendo da leitura do espectador. Por exemplo, nos encontros do herói com uma mulher, ela ainda geme de prazer em algum espaço fora do enquadramento, ao passo que Narciso veste suas roupas e deixa o quarto (sem sugestão de salto temporal). Após a noite com a proprietária da hospedaria, ele se encontra nu sobre a cama, com o lençol cobrindo unicamente a genitália. São quadros, pinturas, ensaios fotográficos. Aqui, o mundo se adequa às necessidades da câmera — não o contrário.

Em consequência, o longa-metragem se apoia numa tradição de qualidade bastante anacrônica para os padrões contemporâneos. Aquilo que, um dia, já se chamou de “cinema de papai”, ou de “cinema de qualidade” (de maneira pejorativa), foi substituído por abordagens mais assumidamente farsescas, absurdas, fantasistas, grotescas, de terror. Busca-se no gênero, nas metáforas e alegorias uma ferramenta para ilustrar a opressão das ditaduras latino-americanas. Ora, Martinessi se atém aos cenários imponentes, às luzes belas e aos personagens atraentes, numa plasticidade asfixiante, evitando se aprofundar ou assumir seu aspecto kitsch. O projeto se leva a sério demais e, para uma construção a respeito de violências, corpos e libido, carece de encenações verossímeis do desejo humano.

Quanto à denúncia da ditadura, e da opressão conservadora, elas serão tímidas, para dizer o mínimo. Expõe-se a perseguição aos “invertidos”, a denúncia cristã da “imoralidade”, num contexto onde nenhum personagem experimenta sua sexualidade de maneira assumida e feliz. Todos os gays, sejam eles reprimidos ou assumidos (e também os bissexuais) serão punidos de maneira exemplar, trágica e inequívoca — tal qual se fazia aos personagens gays sacrificiais dos anos 1970 e 1980. Ainda pior é a materialização do gay enrustido, enxergado como perigoso e fisicamente abusivo em relação aos funcionários. Narciso resulta antiquado em sua abordagem e ponto de vista: pouco corajoso no enfrentamento à violência, temerário demais em relação à libido, e disposto a simplesmente sugerir, de maneira pudica e distante, seu real objeto de estudo.

Narciso (2026)
3
Nota 3/10

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