
A primeira surpresa diante deste longa-metragem, por parte do espectador ouvinte, reside na complexificação dos recursos de acessibilidade. Filme efetuado com atores surdos, e preocupado em melhorar a experiência cinematográfica para eles, Nem Toda a História de Amor Acaba em Morte eleva as libras a novo patamar. Dezenas de atores são contratados para a tradução em libras — um para cada personagem. Conforme os atores mudam de figurino, seus intérpretes vestem roupas semelhantes.
Durante a apresentação do projeto no Olhar de Cinema, os criadores reivindicaram esta diversidade enquanto forma de aprofundar a imersão no filme: “Por que teríamos que ver o filme inteiro com um único ator, sério e de preto, falando por todo mundo?”. A demanda se justifica. Além disso, nada de uma caixinha discreta e minúscula no canto da tela: os intérpretes de libras são exibidos em tamanho generoso, ocupando partes mais próximas do centro da imagem. No caso de diálogo entre duas pessoas, os dois tradutores ocupam a tela simultaneamente, à direita e à esquerda.
Assim, estas figuras extrafilme integram a experiência, convertendo-se em parte da estética cinematográfica. Ao invés de reservar às libras um papel discreto, buscando a invisibilidade do mecanismo, o diretor Bruno Costa e sua equipe fazem o caminho contrário, elevando-a ao patamar de estrela da narrativa. Isso se explica pela história centrada na paixão entre uma professora do ensino primário, Sol (interpretada por Chiris Gomes), e Lola (Gabriela Grigolom), a mãe de um aluno. Esta última é surda, o que leva a discussões a respeito da inclusão e comunicação para PCDs no Brasil.
Esta é a principal virada de chave de Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, deixando os espectadores ouvintes levemente deslocados, como os surdos provavelmente se sentem na esmagadora maioria das sessões.
Lola representa uma figura máxima de alteridade, confrontando o marasmo do casal cis-branco-hétero-patriarcal ilustrado por Sol e o marido Miguel (Octavio Camargo). Uma vez separada do esposo, a protagonista inicia o relacionamento com a companheira surda, negra, lésbica, não-monogâmica, artista. Ao invés de ser colocada em posição de vítima-sofredora, ou de heroína-guerreira, esta mãe e trabalhadora com deficiência é apresentada pelo roteiro enquanto sinônimo de liberdade e não-conformidade com as regras. Ela pinta os cabelos de lilás, aceita pequenos empregos sem vergonha, e revida contra os abusos de escolas preconceituosas. Assim, encarna uma faísca de vivacidade, certamente muito mais atraente do que o sexo morno praticado por Sol e Miguel.
Além do romance, e de eventuais cenas dramáticas (um acidente caseiro, cujo alerta ao hospital cabe à mulher não-oralizada), o longa-metragem investe bastante num humor simples, familiar — acessível, justamente. Somos convidados a rir do fraco nível musical de um aluno de violão, da postura intrusiva da mãe de Miguel (uma atriz jovem demais para interpretar este papel, não?), e das piadas entre a comunidade surda, a respeito da própria surdez. Costa toma a precaução fundamental de jamais rir dos deficientes, embora se permita rir com eles. Percebe as ironias cotidianas e o absurdo de certas situações — a exemplo do sujeito que fala mais alto, de maneira bem ar-ti-cu-la-da, esperando ser compreendido pela mulher surda.
Longe de lamentar ou se apiedar por estas pessoas, o discurso enxerga leveza e naturalidade no cotidiano de PCDs, convidando o espectador a se identificar com os aspectos mais comuns do cotidiano de qualquer indivíduo: os novos romances, os problemas no trabalho, a dificuldade de criar os filhos, etc. Estes são os principais dilemas de Lola, em detrimento da deficiência. Na plateia, a quantidade expressiva de espectadores surdos se divertia muito com as gags, identificando-se de maneira direta com o texto, os personagens e as situações. É bonito e raro encontrar uma obra audiovisual pensada para as PCDs, e não minimamente ajustada, dentro do possível, para elas. Esta é a principal virada de chave de Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, deixando os espectadores ouvintes levemente deslocados, como os surdos provavelmente se sentem na esmagadora maioria das sessões. A minoria, neste caso, somos nós, ouvintes.
É claro que, para atingir tamanho nível de conforto, dentro de um projeto ostensivamente pensado para se encaixar no feel good movie, o cineasta abraça incontáveis clichês do romance e da comédia dramática. Lola e Sol estão prestes a se beijar, quando um anônimo as interrompe; a nova namorada é flagrada pelo marido durante o café da manhã, gerando um constrangimento entre ambos; Sol corre atrás da namorada, apenas para flagrá-la beijando outra mulher. Assim como o título sugere, trata-se de uma obra pautada na previsibilidade, numa rígida promessa de otimismo. Tudo dará certo, todos serão felizes, eu garanto.
Isso resulta em alto grau de previsibilidade, e mesmo de simplificação dos processos emocionais e psicológicos. Nunca se trabalha bem a passagem do tempo, posto que a narrativa corre para as guinadas que mais lhe interessam: a ruptura das duas mulheres, a evidente reaproximação entre elas; a atenuação do conflito entre Lola e Miguel; a filha de Lola servindo como ponte para as protagonistas. Há festas-surpresa de aniversário, reconciliações românticas na rua, e um espetáculo teatral magicamente encenado, apesar das dificuldades operacionais da produção. Costa não investe na surpresa ou originalidade enquanto valores-base, e sim no retorno sobre o investimento: ele oferece ao espectador exatamente aquilo que se anunciava a ele.
Logo, não se surpreende que algumas cenas pendam a uma pedagogia ex-ces-si-va, em nome da clareza. A cena da acessibilidade e cidadania para todos, com pessoas cadeirantes passeando sob a bela luz do dia, além dos cachorrinhos brincando em câmera lenta, parecem retiradas de um comercial de margarina. O choro solitário de Sol no fundo do ônibus e as diversas piadas a respeito de um vibrador rosa buscam se comunicar com a linguagem um tanto desgastada, em estilo De Pernas pro Ar e demais comédias populares brasileiras. Mesmo o combo de tragédias simultâneas no começo (demissão do trabalho, divórcio, corte no serviço de luz, doença) também aponta ao caráter exemplar de uma representação de crise.


Por fim, Nem Toda História de Amor Acaba em Morte ainda aposta que a alegria e o romantismo impliquem na eliminação de certas nuances ou riscos de linguagem. Esta estética do otimismo evita perigos reais aos personagens, ou sentimentos dúbios em relação aos acontecimentos. Trabalha-se em chaves binárias, opostas e excludentes: a queda e a redenção; a ruptura e a reconciliação; a inimizade e o afeto. É curioso que, nesta vontade de mostrar a vida como ela é (a dureza da classe trabalhadora, a rotina de PCDs), o filme se afaste dos problemas reais em prol deste olhar afetuoso, visando a conciliação inevitável entre as diferenças.
Logo, os dilemas se resolvem magicamente, a exemplo de tantas obras hollywoodianas que lhe servem como referência. O resultado é tão carinhoso quanto ingênuo em certos processos, e consciente de sê-lo. Se os casais héteros, cis e ouvintes sempre tiveram dezenas de obras ensolaradas à sua disposição, por que os personagens e artistas com deficiência não poderiam ter a sua cota, certo? Assim, a abordagem se compreende e se legitima. Trata-se de um gesto importante, nada anódino dentro de uma cinematografia nacional que presta pouquíssima atenção às PCDs. Talvez o próximo passo consista em dissociar a benevolência de certa inocência das formas e narrativas. Ainda é possível ser solar, otimista e engraçado sem câmeras lentas nem beijos interrompidos. Chegaremos lá.




