Presença (2024)

O espectro do roteiro

título original (ano)
Presence (2024)
país
EUA
Gênero
Suspense, Terror
duração
84 minutos
direção
Steven Soderbergh
elenco
Callina Liang, Chris Sullivan, Lucy Liu, Eddy Maday, West Mulholland, Julia Fox
visto em
Cinemas

O começo deste filme é bastante promissor. O cineasta (e diretor de fotografia) Steven Soderbergh introduz o espectador a um estranhamento que demora a se esclarecer — solicitando, assim, a nossa atenção. Por que estamos enxergando uma casa vazia, cômodo a cômodo? Por que as imagens estão em câmera subjetiva (ou seja, como se fossem vistas pelos olhos de alguém), através de uma lente extremamente grande-angular (distorcida, enxergando mais do que o campo de visão humano, tal qual o olho mágico de uma porta)?

Conforme uma família se muda para este imóvel, sonhando em construir belas memórias (o ponto de partida clássico do horror em casas mal-assombradas), seguimos observando-os no quarto, à distância, como voyeurs. Percebemos alguns segredos, brigas, ressentimentos. Espiamos as conversas sussurradas e as desavenças dos irmãos adolescentes. Neste primeiro momento, o verdadeiro invasor somos nós, espectadores, em posição de intrusos escondidos no domicílio alheio. Nosso olhar incomoda: somos nós a assombração.

Infelizmente, o jogo com a espectatorialidade não dura muito tempo: o roteiro logo avisa que se trata do olhar de Nadia, garota morta em circunstâncias misteriosas. Por isso, a “presença” mencionada no título tem nome, histórico (foi encontrada sem vida, fruto de uma estranha overdose) e objetivos precisos (ela deseja se comunicar, aparentemente, com intenções benéficas). O tema da invasão pelo olhar cede espaço a uma fantasmagoria simples: Nadia move objetos no ar e protege sua amiga Chloe — derrubando as prateleiras do guarda-roupa, por exemplo — quanto a estudante está prestes a tomar decisões equivocadas.

É uma pena que o texto se sabote tanto. Cada surpresa ou revelação prejudica ainda mais uma obra carente de direção e de ponto de vista a respeito dos temas abordados (a solidão jovem, o abuso de drogas, os crimes sexuais, etc.).

Assim, para além da corporeidade, a menina-invisível também possui uma moral. Neste momento (ainda no primeiro terço da trama), o longa-metragem começa a se esgarçar. Trata-se de um espírito corajoso, combativo e vingativo, buscando reparar erros, obter justiça e revidar contra seu algoz. Só assim ela poderá, enfim, sair de casa e repousar nos céus. Até por isso, a alma fica presa no interior da casa — e a câmera, por extensão, também —, tentando se libertar do trauma rumo a um ideal de paraíso. Como se percebe, os códigos do drama religioso (espírita, em particular) estão muito próximos deste terror piedoso. 

O roteirista David Koepp ensaia atribuir alguns dilemas para esta família, de modo que também sejam libertados graças à resolução do espectro traumatizado. Assim, marido e mulher estão à beira do divórcio; a mãe claramente prefere o filho atleta à filha deprimida; e a jovem convive com a dor da perda recente de duas amigas em circunstâncias similares. Pena que estes dilemas se desenvolvam com a mão pesada de quem não se importa, de fato, com a resolução, nem com a verossimilhança destes arquétipos (o atleta, a menina-problema, a mãe-que-só-trabalha, o pai emasculado). Cada figura é definida por uma única função na trama. Trata-se de desculpas narrativas, um recheio para colocar em prática a imagem distorcida e os planos-sequência.

É uma pena que o texto se sabote tanto. Presença desperta a incômoda impressão de um filme que piora minuto a minuto, como se cada surpresa ou revelação prejudicasse ainda mais uma obra carente de direção e de ponto de vista a respeito dos temas abordados (a solidão jovem, o abuso de drogas, os crimes sexuais, etc.). O espectro escondido no armário, que antes parecia temeroso ou triste, reveste-se de uma aura de super-herói, capaz de despertar os vivos com estrondos no ouvido e implementar outras ferramentas subitamente materializadas pela força de vontade. O bem precisa vencer no final, correto?

As soluções utilizadas para fazer a trama deslanchar, e para se resolver no terço final, são tão improváveis que deslocam a tensa ambientação inicial para algo próximo de uma paródia do horror. Janelas e espelhos se tornam particularmente risíveis, assim como alguns gestos envolvendo personagens coadjuvantes. Assim, o longa-metragem não consegue se levar a sério nem enquanto terror sinistro, nem enquanto brincadeira com as regras do gênero — e muito menos como drama de um núcleo melancólico de classe média-alta. 

Por este motivo, o elenco se encontra relativamente perdido em seus papéis: Chris Sullivan acentua até demais o sentimentalismo de seu personagem, enquanto Lucy Liu transforma a mulher trabalhadora numa figura maquínica e desprovida de emoções. Callina Liang busca algumas nuances em sua interpretação do luto, embora esteja mergulhada num universo maniqueísta, que soa incompatível com ambiguidades (as pessoas malvadas desta trama são muito, muito malvadas). 

Talvez Presença também quisesse nos dizer algo a respeito de adolescências problemáticas, masculinidades tóxicas e planos-sequências, tal qual a minissérie Adolescência. Em contrapartida, fica claro que os criadores estavam muito mais preocupados em criar imagens de impacto visual e ambientação sugestiva do que em desenvolver uma história digna de ocupar esta narrativa (na chave totalmente oposta ao projeto da Netflix). Soderbergh desperdiça seu conceito visual instigante com um roteiro que não interessa de fato nem a ele, nem a Koepp.

Presença (2024)
4
Nota 4/10

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