
É muito fácil nos identificar com a família deste curta-metragem. Durante o Natal, reúnem-se pais e filhos, tios e sobrinhos, cachorros e agregados. A mulher religiosa defende que todos esperem até a meia-noite para jantar, enquanto outros preferem comer quanto bate a fome. Mas ninguém vai assistir à missa do Galo? Cuidado para não tropeçar no presépio! Olha que tem presentes! Nossa, esse cachorro ainda está vivo? O diretor Felipe Bibian demonstra um excelente talento de cronista, aplicado à estrutura coral com quase uma dezena de personagens em cena, simultaneamente.
As tensões crescem progressivamente, através de outro recurso tipicamente brasileiro: o jogo de amigo oculto. Na hora das tradicionais descrições do presenteado, flashes nos levam para fora daquela casa, numa apresentação veloz de cada personagem, resumido a gostos, características físicas, etc. De repente, preferências mais complexas surgem nesta janela-dentro-do-filme: um filho reacionário, fã de Bolsonaro; um pai que sofreu nas mãos da ditadura militar. Desde a figura inicial de um animalzinho quebrado no presépio do título, o cineasta sugere a ruptura que se intensifica até uma explosão — literalmente, conforme atesta o último efeito sonoro.
O elenco está muito bem dirigido. Poucos curtas-metragens se dão ao luxo de contar com atores do calibre de Wilson Rabelo e Suzy Lopes, sem falar na curiosa escalação do também cineasta Luciano Vidigal para encarnar a nova geração da extrema-direita. Está certo que, uma vez deflagrado o conflito da arma de brinquedo, entregue ao filho como presente, o clima esquenta em velocidade altíssima — o filme que se cozinhava em banho-maria passa à fritura por imersão. No entanto, os elementos para tal embate estavam dispostos, e todos os personagens foram suficientemente aprofundados para se justificar os confrontos.
Existe uma beleza perturbadora na ideia de um filme cujo acontecimento gravíssimo se prova, ironicamente, inconsequente. Passado o quiproquó, os familiares dão-se as mãos, e a festa continua. O roteiro sugere que acontecimentos semelhantes podem ter ocorrido nos anos anteriores, e que ninguém está realmente surpreso com os sentimentos aflorados por parte de um e de outro. A filmagem em scope ainda permite incluir da melhor maneira todos os personagens no plano, sem hierarquia, agindo ao mesmo tempo. (Um alívio decorre deste raro widescreen bem utilizado, com plausibilidade estética e narrativa, ao contrário de tantos curtas-metragens que abraçam a imagem retangular pela simples impressão de elegância).
Ao final da trama em que tudo-e-nada acontece, os familiares são filmados em leve plongée, como quem observa, do alto, um presépio disposto sobre a mesa. No entanto, esta típica família brasileira, formada por progressistas e conservadores, de gerações distintas, também possui seu animalzinho quebrado, mal colado, e comicamente substituído por um dinossauro. Bibian sabe enxergar tanto a seriedade da premissa quanto a absurda tragicomédia de sua continuidade. O Brasil está muito bem representado por este percurso.






