
Dre (Katy O’Brien) está preocupada: a festa comandada por ela enfrenta várias dificuldades financeiras, e a principal atração da noite, a performer Yasmine (Dominique Jackson), acaba de trocá-la por um evento mais chique. Para agravar a situação, zumbis começam a atacar a cidade. Como se percebe, Queens of the Dead parte de um cenário de celebração e descompromisso. Os problemas são improváveis, assim como os acontecimentos. Monstros aparecem de lugar nenhum, amigos e desafetos surgem abruptamente. Os dilemas atravessam a narrativa com a mesma velocidade que desaparecerão a seguir.
A diretora e co-roteirista Tina Romero nunca leva esta fantasia a sério. Prefere erguer uma grande homenagem aos filmes de zumbis imortalizados pelo pai, George Romero, explicitamente citado nos diálogos. Ao contrário dos novos mortos-vivos erotizados (Extermínio) ou velozes (Guerra Mundial Z), volta às raízes das criaturas lerdas, movendo-se em manadas acerebradas, e capazes de matar humanos apenas devido à irresponsabilidade das próprias vítimas. Ao invés de um adversário feroz, o zumbi constitui apenas uma praga, que vence pela insistência e pela quantidade. Estes monstros são novamente burros e condicionados — representando, deste modo, uma parcela doutrinada da sociedade em questão.
Romero compreende os zumbis enquanto figuras inerentemente queer. O filme propõe mortos-vivos cobertos de glitter prateado, tais quais uma drag queen.
Entretanto, a principal atualização diz respeito à perspectiva queer. Todos os personagens importantes da trama são LGBQTIA+, com a única exceção de um homem branco, cis hétero (Quincy Dunn-Baker), ridicularizado por não compreender as regras da comunidade alheia. Em geral, o ataque ocorre a mulheres cis lésbicas, drag queens, pessoas trans e travestis, indivíduos não-binários, etc. Seguindo a lógica de contaminação e disseminação dos mortos-vivos, estes próprios personagens, uma vez atacados, se convertem em zumbis glamurosos, maquiados, de salto alto e roupa impecável. A monstruosidade deixa de ser o outro, até porque, quando todos são queer (humanos e não-humanos), a alteridade reside no comportamento heteronormativo devidamente escanteado na história.
Em especial, Romero compreende os zumbis enquanto figuras inerentemente queer. Talvez esta seja o componente mais instigante do longa-metragem, que propõe mortos-vivos cobertos de glitter prateado, bochechas destacadas, lábios impecavelmente vermelhos — tais quais uma drag queen. A movimentação dos corpos se assemelha àquela da pessoa bêbada, ou dançando; ao passo que a performatividade (o fato de ocuparem as ruas à noite, de serem vistos com receio pela maioria) os aproxima de indivíduos não-normativos. No fundo, trata-se de um espelho: uma vez transformada em zumbi, a performer Jax (Samora la Perdida) volta à mesma gaiola onde já dançava. Depois do ataque, a defensora Tiger (Shaunette Renée) retorna ao clube noturno onde se encontrava antes. Afinal, para onde mais iria?
A ironia, neste caso, reside na compreensão de que a vivência zumbi não transforma estas pessoas muito mais do que a construção prévia de suas identidades e aparências. Quando contaminadas, alteram sua aparência como quem muda de maquiagem. Até por isso, a invasão destas criaturas se limita a um conflito secundário ao roteiro, que prefere a crise de identidade do tímido enfermeiro Sam (Jaquel Spivey). Será que ele vai ter coragem de voltar aos palcos e se apresentar como a divina Samoncé? O incentivo da amiga Ginsey (Nina West) será o suficiente? Vai fazer as pazes com Dre? E a colega enfermeira Lizzy (Riki Lindhome) terá tempo de anunciar sua gravidez à namorada? A ingênua Kelsey (Jack Haven) conseguirá reencontrar a esposa Pops (Margaret Cho)? No final, esta é uma questão familiar e afetiva bastante simples. Os pretensos adversários somentem acrescentam glitter, cores e performatividade à reunião.
Uma única ideia crítica atravessa a experiência: a sugestão de que os celulares seriam os dispositivos zumbificadores da nossa geração. Sem sutileza alguma (como tudo no projeto), os mortos-vivos transitam pelas ruas colados às telas de seus aparelhos, em funcionamento análogo àquele do recente Good Luck, Have Fun, Don’t Die. Os celulares possuem importância fundamental para estes influenciadores e pessoas histriônicas, carentes de curtidas para se sentirem vistos e amados. É claro que, apesar da cutucada autocondescendente, a direção jamais critica de fato nosso tempos individualistas e egocêntricos. Brinca com a fascinação pelos celulares e pela autoimagem graças à facilidade de fazê-lo — esta seria menos uma rebeldia do que uma adequação à norma, uma constatação do óbvio. É fácil satirizar nossa compulsão digital pela aprovação alheia; mais interessante teria sido buscar alguma alternativa a esta validação — algo que a modesta comédia obviamente não faz.
Isso porque, embora o projeto brinque bastante com as expectativas de um filme de zumbis, e com a subjetividade de seus personagens, ele sofre com evidentes problemas de mise en scène. Romero trabalha com diversas figuras em cena, mas não sabe como ocupá-las em simultâneo. Em consequência, ficam paradas, olhando uma para a outra, em gesto desconfortável aos atores. Embora haja incontáveis piadas de texto, encontram-se poucas gags na imagem e no som. A montagem de Aden Hakimi é arrastada, sempre demorando alguns segundos para cortar cada imagem, o que prejudica a fluidez e a comicidade das situações. Por volta do meio da trama, o quiproquó da invasão gira em círculos, seja pela inércia do roteiro, seja pela dificuldade de cortar excessos e agilizar passagens. O filme se beneficiaria de um corte consideravelmente mais enxuto.


Já as incongruências de direção de arte se justificam pela lógica do pastiche. Nenhum zumbi soa digno de crença enquanto tal. Da mesma forma, os performers nunca se apresentam durante mais de alguns segundos; o encanador jamais resolve o problema do banheiro; o barman não tem clientes a servir; a enfermeira não auxilia pacientes. Este é um faz de conta, um cosplay de arquétipos específicos da sociedade. Portanto, não se espanta que Samoncé apareça maquiada e perfeitamente montada em meio ao caos, ou que Yasmine se mantenha luxuosa durante a batalha. O elenco brinca de atuar para além do naturalismo, enquanto a direção de arte evoca o imaginário do horror e da fantasia, dispensando o compromisso da crença.
Por isso, enquanto o mundo supostamente pega fogo lá fora (algo que jamais veremos, devido ao baixo orçamento), os personagens se viram um para o outro, dentro do clube, e decidem dançar. Ligam o som e se soltam. Talvez este gesto absurdo resuma a obra na totalidade: uma explosão inconsequente de liberdade, uma atitude de dane-se a sociedade, preferindo pensar no próprio prazer, e no pequeno círculo de amigos em detrimento de uma ordem social maior (ninguém tem familiares a cuidar, nem precisa voltar para casa, por exemplo). O mundo está acabando; viva o mundo. Esta postura também diz respeito à identidade queer no sentido de romper com normas, e celebrar a existência destes personagens em sua exuberância e leveza — sejam eles cis ou trans, hétero ou gays e lésbicas, vivos ou mortos.




