
Desde as primeiras cenas, Sede de Rio alterna entre dois registros praticamente opostos. Primeiro, abraça uma construção poética próxima da performance. O protagonista, Nitercílio Ferreira de Morais, está deitado sobre a terra, com o rosto e o corpo encobertos pela lama. Num corte da montagem, o sujeito é equiparado a um peixe fora d’água, agonizando em terra firme. O diretor Marcelo Abreu Góis intervém na natureza, criando cenas poéticas através da ficcionalização. Ele molda a paisagem para desenvolver as metáforas desejadas — logo, o meio se ajusta às necessidades da câmera.
Segundo, investe num cinema da contemplação, admirando o capitão ribeirinho e os locais por onde ele transita. Desta vez, a imagem ora espia o homem, captando-o de longe, em grandes planos gerais (o barco solitário na imensidão do mar, o sujeito convertido em silhueta no horizonte), ora o registra em planos extremamente próximos, colados ao rosto e a partes do corpo, ou ainda, aos objetos presentes no barco. Neste momento, nada soa encenado ou induzido pela direção e direção de fotografia, que se adequam às situações, conforme se apresentam — aqui, a câmera se ajusta às necessidades do meio.
O filme tanto abraça uma construção poética próxima da performance quanto investe no cinema da contemplação.
Logo, o projeto transita entre o controle e a abertura ao acaso; entre uma abordagem sobre Seu Nir (nos moldes tradicionais, descrevendo-o) e um filme com Seu Nir, em parceria, no qual dados e informações são deixados em segundo plano. Tanto a direção quanto a montagem preferem um ritmo contemplativo, dissociando o som das falas de suas imagens referentes (nada de testemunhos típicos, diretamente para a câmera), e alternando conversas com longos períodos de observação do protagonista em sua rotina. Esta estratégia acredita na capacidade do espectador em compreender o necessário, sem recorrer a ferramentas pedagógicas tais quais dados e letreiros.
Por um lado, isso proporciona um espaço no qual o espectador pode se projetar. Trata-se de um longa-metragem misterioso, quase fantasmático, a respeito de pessoas que se deslocam para locais não exatamente identificados, desempenhando práticas que talvez não se esclareçam aos nossos olhos de imediato. Há espaço para dúvida, ambiguidade, imaginação — algo particularmente saudável dentro de um documentário, esta linguagem que costuma se estimar responsável pelo ensino do público. O diretor evita a cronologia, dispensa relações de causa e consequência, e foge à obrigação de conduzir sua trama rumo a mensagem em particular. Nunca parece defender uma tese — em consequência, não possui nada a comprovar.
Por outro lado, sua relação com a temática pode soar ampla e vaga até demais. Caso o espectador entre numa sessão de Sede de Rio sem ler nenhuma informação prévia, a sinopse pode ser difícil a discernir entre os acontecimentos na tela. De fato, a menção à romaria solitária de Nitercílio está presente em algumas cenas, diluídas em instantes de conversa no bar (com um som limpíssimo, sem ruídos ao redor), e outros gestos corriqueiros do protagonista. O passado deste homem, o destino preciso da embarcação e todos os rituais relacionados a Bom Jesus da Lapa são citados discretamente, sem aprofundamento.
A certa altura da jornada, nosso herói desaparece de cena, cedendo espaço outro homem — um artista navegando com suas obras. Quem seria este? Qual a relação entre ambos? Estamos, então, em uma narrativa coral, construída a partir de diversos personagens centrais? “Deus quer que eu fique sozinho”, explica Nitercílio. Ora, ele sempre pensou e se comportou assim? Como se sente em relação a esta convivência, e de que maneira experimenta a fé no cotidiano? Os criadores deixam estas respostas em suspenso, na forma de meras evocações poéticas. Preferem que o público se perca num mar de estímulos visuais e sonoros, ao invés de mergulhar na psicologia destes homens (este é um filme quase inteiramente masculino) e na sociologia dos movimentos culturais retratados.
A propósito de recursos estéticos, o resultado se destaca pela construção precisa de linguagem. Góis, também diretor de fotografia, demonstra o prazer das composições estáticas, valorizando a luz natural, a presença do barco e dos corpos em meio às águas. Tanto pela trilha sonora quanto pelos sons diretos, nota-se a busca por um cinema sensorial, meditativo, que oferece a possibilidade de navegar a esmo pela beleza das imagens. Nosso olhar pode vagar de um canto ao outro; de um objeto em primeiro plano ao mundo que o circunda. A montagem oferece o tempo necessário para tal divagação — algo curioso para um filme de duração tão enxuta.


Em contrapartida, esta formatação estética soa convencional, quase acadêmica, no sentido de explorar um imaginário bastante conhecido de deleite visual e sonoro. Há muito pôr do sol, muitas silhuetas em contraluz, muitas melodias doces para engrandecer a paisagem. Diversas composições funcionam tão bem enquanto still do que como partes de uma narrativa. Por vezes, despertam a impressão de folhearmos o álbum de um excelente fotógrafo, especializado em ensaios da natureza. Sempre correm o risco de chamar mais atenção à própria direção do que ao tema da religião, ou da relação entre comunidade e crenças — um perigo frequente em obras excessivamente estetizantes. No final, quando se chega à procissão, a câmera treme nas caminhadas em meio às pedras, demonstrando um registro de urgência, inédito até então. O criador parece romper com seu próprio pressuposto.
De qualquer modo, Sede de Rio se fortalece quando valoriza o olhar afinado de cronista, capturando um gatinho na praia, por exemplo, ou dois senhores cochilando em suas cadeiras, sob o som da chuva. Instantes como estes comprovam a disponibilidade do olhar, e o encantamento do diretor com o local onde se encontrava. Em chave oposta, o resultado se torna menos interessante quando repete o cair da tarde e as luzes alaranjadas do pôr do sol. No final, o projeto se distingue pelo esmero de produção, notável em um projeto de baixo orçamento, que não faz feio perto de filmes muito mais endinheirados. Ele consegue homenagear seu personagem sem idolatrá-lo, valorizando sua prática sem recorrer ao olhar costumeiramente exótico de quem observa a cultura alheia. São qualidades consideráveis.




