Uma Mulher Sem Filtro (2025)

Cabe às mulheres superar o machismo?

título original (ano)
Uma Mulher Sem Filtro (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia
duração
92 minutos
direção
Arthur Fontes
elenco
Fabiula Nascimento, Camila Queiroz, Samuel de Assis, Júlia Rabello, Caito Mainier, Louise D’Tuani, Enzo Campeão, Emílio Dantas, Polly Marinho, Patrícia Ramos, Luana Martau
visto em
Cinemas

As intenções desta comédia são bastante defensáveis. Partindo do texto de Tati Bernardi, o diretor Arthur Fontes deseja sublinhar o machismo nos relacionamentos e no ambiente de trabalho. O filme aponta para a ausência de lideranças femininas no mundo empresarial, para a conivência dos “esquerdomachos”, e para o silêncio a respeito do prazer e da sexualidade das mulheres. Em outras palavras, o longa-metragem se pretende empoderador e feminista, dando voz a uma heroína comum, de classe média, no dia em que finalmente se cansa das amarras sociais e decide mandar todos os opressores às favas.

O problema começa na maneira como esta demonstração de progressismo opera na tela. Primeiro, Uma Mulher Sem Filtro acredita, a exemplo de tantas comédias a respeito da classe média e das classes populares, que o exagero seja sinônimo de humor. Por isso, quanto mais estridente, redundante e caricatural, mais engraçado seria o resultado. Trata-se de uma falácia óbvia, que não impede tantos diretores de pedirem aos atores para acentuarem os traços, aumentarem o tom da voz, e expandirem os gestos corporais. O cartaz, com uma careta acentuada de Fabiula Nascimento, diz bastante do tipo de comicidade buscado pelos criadores.

Uma Mulher de Filtro adoraria que o machismo desaparecesse, mas não tem ideia de como isso poderia acontecer. Por isso, propõe uma fábula inofensiva, tão politicamente relevante quanto a decisão de Bia de latir contra os cachorros que latem para ela.

Por isso, não basta que a protagonista Bia esteja um pouco cansada. É preciso que tudo indique a sua estafa, cena após cena. O marido (Emílio Dantas) é um artista acomodado; o enteado não ajuda na casa; a amiga não a escuta quando ela fala, e o chefe não se preocupa com sua contribuição para a revista feminina onde trabalha. Já a vizinha faz festas altíssimas durante a madrugada, e que, aparentemente, incomodam somente a pobre heroína. A Internet não funciona, a água quente foi cortada. Há trânsito na rua e cachorros latindo nos portões. O roteiro estima que, quanto mais grave for a situação da mulher, mais motivos ela teria para procurar uma mudança — sugerindo em paralelo que, numa vida verossímil, de incômodos moderados, a necessidade de transformações não se justificaria.

O princípio do acúmulo e da gradação sempre esteve na base destas comédias populares, no entanto, surpreende a dificuldade do cineasta e da montagem em imprimirem tal sensação. As cenas se acumulam, enquanto Fabiula Nascimento faz o possível para construir a irritação longe do excesso. Em contrapartida, as sequências parecem não se comunicar uma com a outra, nem aumentarem em termo de intensidade. Talvez por isso seja necessário incluir, em pós-produção, um efeito de tremedeira, ornado com halos coloridos, para sugerir um nervosismo que a mise en scène não imprime em termos de enquadramento e fotografia. 

A construção do mundo ao redor da jornalista cansada tampouco ajuda. Surpreende a maneira como o som de Laura Zimmerman e Denilson Campos imerge Bia num mundo-bolha. Ela trabalha no escritório mais silencioso do mundo, dirige num trânsito sem barulhos reais e percorre galerias comerciais hermeticamente isoladas, porque o desenho de som privilegia o silêncio artificial do mundo-estúdio ou, em chave simetricamente oposta, a barulheira absurda da festa na vizinha — porém, nada entre os dois. Já a direção de arte opera na reafirmação dos estereótipos mínimos de cada personagem: a irmã que unicamente gosta de gatos (Júlia Rabello) possui quadros do animal por todos os lados, a guru espiritual Deusa Xana (Polly Marinho) trabalha num salão de massagem cuja porta tem formato de vagina.

Em paralelo, o diretor se apoia unicamente nos diálogos para imprimir comicidade: nada no enquadramento, na duração dos planos ou na fricção entre imagem e som produz alguma forma de comicidade. Os atores são reduzidos a rostos, em planos e contraplanos básicos, ou planos de conjunto conforme conversam em frente aos carros e portões de prédios. Mesmo a trilha sonora opera na chave da obviedade: “Baby, às vezes eu me sinto tão crazy”, afirma a canção, enquanto outra letra menciona um “bicho solto” uma vez que Bia, agora liberada, passa a latir para cachorros. A ideia de mulheres histéricas, malucas e incontroláveis nunca passa longe desta pretensa homenagem ao gênero feminino. Uma vez emancipadas graças à magia (tão secreta quanto difundida) da Deusa Xana, todas se tornam desbocadas, algo que o roteiro confunde com assertividade.

Isso porque Bia insulta o chefe, e recebe elogios pelo comportamento. Depois, agride outra chefe, e ganha uma promoção. Ameaça a vizinha barulhenta, e se torna amiga dela. Revida contra uma motorista (que convenientemente cruza a rua na mesma hora que ela, todos os dias), e ganha o direito de passar primeiro. A mulher é magicamente recompensada pelo rompante de ira, como se o fato de se impor produzisse um retorno imediato de valoração e apreço. Dois homens a disputam de imediato, quanto mais ela os odeie. Estão vendo, mulheres? Basta gritar contra seus desafetos e todos te entenderão! Diga tudo o que pensa pelas ruas, e o machismo acabará! Começa o matriarcado!

Obviamente, o gesto constitui uma metáfora — ninguém está realmente sugerindo uma revolução feminina baseada no bate-boca. No entanto, a simplicidade desta analogia não esconde a falta de reflexão a respeito das origens deste machismo que o filme tanto denuncia. Uma Mulher Sem Filtro parte de uma constatação tão válida quanto óbvia (as mulheres são tratadas injustamente em sociedade), porém, não tem ideia de onde o problema surgiria e, muito menos, de como enfrentá-lo. Por isso, prefere soluções mágicas, a partir das quais tudo literalmente se conserta e a opressão feminina desaparece num estalar de dedos. A ingenuidade desta leitura beira o conservadorismo, no sentido de estimar que caberia unicamente à boa vontade das mulheres acabar com o machismo. Nenhuma mudança estrutural, política ou institucional se faz necessária.

A ambiguidade deste frágil discurso social pode ser resumida na postura ambígua em relação aos celulares e redes sociais. Por um lado, o filme deseja criticar nossa dependência de telefones e da mídia, mas por outro, sugere que influenciadoras de maquiagem podem, sim, ser excelentes pessoas que alertam a respeito dos relacionamentos e magicamente (uma vez mais) oferecem empregos, promoções e mimos às pessoas que as insultam. Tati Bernardi morde, mas também assopra esta mão fundamental ao seu percurso de escritora. Já Arthur Pontes filma de maneira bastante patética o orgasmo feminino que supostamente homenageia. Algo semelhante ocorre com as relações de gênero. Uma Mulher de Filtro adoraria que o machismo desaparecesse, mas não tem ideia de como isso poderia acontecer. Por isso, propõe uma fábula inofensiva, tão politicamente relevante quanto a decisão de Bia de latir contra os cachorros que latem para ela.

Uma Mulher Sem Filtro (2025)
3
Nota 3/10

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