Four Minus Three | “As histórias mais emocionantes são escritas pela própria vida”, aponta Adrian Goiginger

No 76º Festival de Cinema de Berlim, o diretor austríaco Adrian Goiginger apresenta seu novo filme, o drama Four Minus Three.

O roteiro deriva da história real de Barbara Pachl-Eberhart, uma atriz e palhaça austríaca. Ela e o marido tinham a mesma profissão circense, levando uma vida pacífica com os dois filhos. No entanto, um trágico acidente de carro leva ao falecimento do esposo e das crianças. Algum tempo depois, Barbara narra, em um livro autobiográfico, o longo processo de luto e aceitação de uma tragédia tão grande.

Este material serviu de base para o roteiro da ficção. Valerie Pachner encarna o papel principal, enquanto Robert Stadlober interpreta o marido Heli. Em entrevista ao Meio Amargo, o diretor comenta o desafio e a responsabilidade de adaptar uma história tão delicada ao cinema, encontrando momentos de leveza em equilíbrio à dor da protagonista:

Como você se sente em relação à responsabilidade de retratar uma história real? Esta não é a primeira vez que você retrata histórias verídicas.
Adrian Goiginger: Eu acho que as histórias mais emocionantes são escritas pela própria vida. Eu realmente gosto de pesquisar. Gosto de conversar com as pessoas, ler livros, assistir a documentários sobre o tema ou sobre algo relacionado, e isso é mais fácil quando se trata de algo que de fato aconteceu.
Neste caso, eu senti uma responsabilidade enorme, porque Barbara ainda está viva e muito bem. Ela realmente nos entregou a vida dela, entende? Entregou a mim e ao roteirista Senad Halilbašić, que esteve no projeto comigo desde o início. Era muito, muito importante para mim que Barbara se sentisse bem e segura, e que fosse ouvida em todas as etapas da produção.
Ela esteve envolvida desde a escolha do elenco, porque já houve outras pessoas que tentaram fazer um filme a partir do livro dela. Mas ela sempre recusou, porque não gostava dos projetos. Às vezes, não ficava satisfeita com o elenco, ou com o roteiro. Então, ela realmente teve uma espécie de supervisão sobre todo o projeto.

Eu senti uma responsabilidade enorme, porque Barbara realmente nos entregou a vida dela, entende?

No final do filme, você apresenta as fotografias das pessoas que inspiraram os personagens. Percebemos que o elenco é bastante parecido com Barbara e sua família. Isso também foi um critério?
Adrian Goiginger: Sim, na verdade foi. Eu tive sorte — ou talvez tenha sido destino. Porque encontramos dois atores extraordinários: Valerie Pachner e Robert Stadlober. Mas eles não foram escolhidos porque se pareciam com Barbara e sua família. Foram escolhidos porque são excelentes para esses papéis. Era um bônus o fato de se parecerem com as pessoas reais.
A linguagem também foi algo muito importante para mim, porque o filme é parcialmente falado em dialeto austríaco, que é muito difícil de entender na Alemanha. Então eu tentei misturar para tornar o mais realista possível.

Valerie entrou em contato com Barbara para se preparar? Assistiu a muitos vídeos dela?
Adrian Goiginger: Não, ela quis manter distância por um bom tempo, porque não queria simplesmente imitá-la ou, de certa forma, vestir a pele dela. Não era esse o objetivo. Ela queria encontrar sua própria palhaça e sua própria personagem. Mas, por volta de dois meses antes das filmagens, elas se encontraram e conversaram por três ou quatro horas. Não falaram sobre o filme, mas sobre assuntos pessoais. Isso foi muito importante para ambas. Mas eu nunca disse à Valerie que ela precisaria ser exatamente como Barbara em cada movimento.

Pelo material, o filme poderia se tornar bastante emotivo, mas você conseguiu encontrar momentos de leveza, e até humor. Como pensou nesse equilíbrio?
Adrian Goiginger: Essa foi a parte mais difícil para mim desde o início, porque ninguém quer assistir a alguém chorando durante 120 minutos. É demais. É preciso encontrar um meio-termo, encontrar escuridão e luz. Há muitos filmes excelentes que fazem isso muito bem. Por exemplo, Alabama Monroe foi uma grande referência para nós, assim como os antigos filmes de Charlie Chaplin, e A Vida é Bela, de Roberto Benigni.
Então eu realmente tentei criar esse equilíbrio. Foi por isso que decidimos trabalhar com duas linhas temporais: aquela do presente, em que ocorre o acidente, e a do passado, em que basicamente contamos uma história de amor, quando dois palhaços se encontram e se apaixonam. Depois tivemos que montar tudo, o que levou muito tempo na sala de edição. Mudamos completamente a estrutura; o roteiro era totalmente diferente da ordem final na montagem.

Ninguém quer assistir a alguém chorando durante 120 minutos. É preciso encontrar um meio-termo, encontrar escuridão e luz.

A presença de palhaços ajuda muito a trazer essa leveza inesperada. Você já conhecia a cultura dos palhaços antes deste projeto?
Adrian Goiginger: Não. Fico muito feliz por tudo o que aprendi por meio deste filme, porque antes eu realmente não gostava muito de palhaços. Às vezes eu achava que não eram engraçados, como no circo austríaco, ou pensava nos palhaços de terror, a exemplo de Stephen King. Mas agora eu conheci toda a filosofia por trás disso, essa ideia bonita de que são justamente os seus erros e falhas que o tornam alguém interessante.
Para o filme, isso significou que a cena do funeral — obviamente a coisa mais triste possível, quando ela precisa enterrar seus dois filhos e seu marido — se tornou a mais colorida e cheia de música. Isso é a palhaçaria em sua essência, e foi o que tentei retratar.
No elenco, os dois atores tinham mais experiência nesta prática do que eu, mas também contamos com um especialista no set, um palhaço francês chamado Jean-Paul Ledun. Ele preparou os treinamentos na área, e deu aos atores muita confiança para encontrarem seu próprio palhaço dentro de si.

Ao mesmo tempo, o filme não mostra apenas o lado mais virtuoso de Barbara. Ela pode ser agressiva, e aprecio a forma como você retrata a sexualidade dela.
Adrian Goiginger: Barbara tentou de tudo para permanecer viva. No filme, ela adota diferentes estratégias para recuperar a felicidade. Às vezes tenta ignorar a dor, refugiando-se na personagem do palhaço. Há uma cena em que diz: “Barbara perdeu a família, mas eu não. Eu sou a palhaça.” Existe também o momento em que ela sai para festas para ficar com alguém. Ali, a ideia é engravidar, viver sua sexualidade como forma de distração, para voltar a ser mãe. Mas também não funciona. Ela precisa falhar e tentar novamente, falhar e tentar novamente.
O personagem de Friedrich, para mim, é a figura central. No início, ele é um pouco tolo e diz coisas inadequadas. Mas depois ele se torna essencial, porque ajuda Barbara no processo de luto.

Não penso em festivais ou críticos. Quero me conectar com o público, colocar pensamentos e sentimentos no coração e na mente dos espectadores.

Este filme é bastante diferente dos seus anteriores. Como percebe o papel dele na sua filmografia? Adrian Goiginger: A característica comum de todos os meus filmes é serem muito centrados nos atores. Eu realmente me foco neles e tento levá-los à melhor atuação possível. Costumo demorar mais para encontrar a identidade visual, o valor artístico do filme; isso é um pouco mais difícil para mim.
Mas o que aprendi com este filme, e que o torna um pouco diferente, é a presença deste tema duro e muito triste desde o início, pois a história praticamente começa com o acidente. Tive que pensar bastante na conclusão, porque sempre tento construir um final feliz. Levou muito tempo até encontrarmos esse ato final. Como poderia terminar? Foi muito difícil para mim.

Four Minus Three me parece um filme de grande alcance de público, além da crítica. Você tem outros sucessos consideráveis de público, caso de The Fox. Este é um fator que considera ao preparar um filme novo?
Adrian Goiginger: Não, nem um pouco. Às vezes, acho que deveria pensar mais nisso, mas não penso. Sou um grande cinéfilo e sempre me pergunto, ao pagar por um ingresso, no que eu gosto de ver enquanto espectador. Espero que as pessoas também gostem das mesmas coisas que me agradam. Não penso em festivais ou críticos. Quero me conectar com o público, colocar pensamentos e sentimentos no coração e na mente dos espectadores.
Espero que muitos espectadores se conectem com essa história. Ela realmente me tocou quando a li pela primeira vez e quando conheci a verdadeira Barbara. Acho que este filme é uma forma de encontrá-la, pelo menos na tela.

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