
Um grupo de jovens se encontra diante das magras oportunidades de vida na cidade onde moram. As comunidades mais pobres são constantemente desalojadas para a criação de empreendimentos comerciais. A possibilidade do ingresso na universidade soa distante, mesmo para as alunas mais brilhantes. Um jogador de basquete de visível talento também duvida da oportunidade de se converter em profissional. As bandas locais já não conseguem bicos de shows. Os contatos com os familiares são ternos, porém um tanto desgastados. Eles parecem abandonados por qualquer política pública, assim como por um senso mais amplo de comunidade. Contam apenas uns com os outros para lidar com tamanha angústia.
Horizonte parte deste contexto desfavorável. Seis ou sete jovens compõem o núcleo central, alternando-se entre conflitos privados (uma gravidez inesperada, a viagem para outra cidade) e dilemas coletivos (a chegada da Star Shop, grande centro comercial que ameaça o futuro dos trabalhadores do município). Mesmo assim, encontram escapatória na música, na bebida e nas drogas, além dos atos de rebeldia contra o sistema: pichações, sabotagem de um show de música sertaneja, sumiços durante vários dias. Organizam-se, como podem, entre o desejo de serem notados e as vantagens de serem invisíveis ao poder público. Aqui, a insatisfação constitui uma condição crônica, o que obviamente conduz à deterioração dos relacionamentos interpessoais.
Horizonte transparece um vigor notável de mise en scène, além de preciosas qualidades de desenvolvimento de personagens.
A diretora Jessica Candal, que assina o roteiro junto de Dionwiul e Stilo Eustachio, evita a denúncia frontal de desigualdades. Embora estampe cada sequência com injustiças e carências, permite que se infiltrem nas conversas dos amigos de maneira poética, através de diálogos meio naturalistas, meio declamados — como num slam. Os amigos compartilham um ao outro as dores da rotina, o vazio de sonhos, a frustração com a entrada na fase adulta. Afirmam que “o rap é a luz na escuridão”; concluem que a prisão “prejudica o seu corpo, mas não a sua mente”, e constatam que “as necessidades vêm antes das oportunidades”. Muitas falas são empostadas, em frases de efeito, ou ostensivas tiradas lúdicas e existencialistas. Estes colegas constituem, talvez sem perceberem, poetas do cotidiano.
Por este motivo, a obra oscila entre o realismo social mais bruto (as interações verossímeis, a aparência ocasional de improviso) e a busca por um encantamento das rotinas adversas. Felizmente, evita-se embelezar a miséria alheia: a cineasta e sua diretora de fotografia Isa Lanave encontram candura em simples jogos de espelho (a antessala do ato sexual entre dois personagens), nas luzes coloridas mais fortes que o comum (o azul artificial da noite, projetado sobre a casa modesta), e nos inserts em VHS, destinados a representar a maneira como os amigos enxergam a si mesmos, e ao mundo ao redor. A dança destes rejeitados durante o Ano Novo, em câmera lenta, resulta em um dos mais preciosos instantes do longa-metragem. É fácil acreditar nestas figuras, em suas roupas, suas interações, e nas circunstâncias que experimentam. O filme claramente decorre de uma autora com conhecimento da realidade representada.
É possível que, ocasionalmente, as denúncias de mazelas embutidas nos diálogos resultem didáticas, devido à insistência e ao teor excessivamente escrito do texto. Em especial, as trocas entre Fú e seu treinador estão repletas de momentos inspiradores, assim como as reflexões de Casca contra a sociedade capitalista. Mesmo as falas deste treinador, num estranho futuro simples, denotam uma rigidez; também percebida na entonação de outros coadjuvantes (“Não aguento mais esse fedor. Tem que mudar esse modo de ser”). A decisão de embutir no Star Shop, ainda às vésperas da abertura, a somatória de todos os males (políticos, econômicos e sociais) resulta acessória demais, enquanto ferramenta de roteiro. O mesmo vale para a autoconsciência profunda de cada jovem a respeito de suas condições e da causa das mesmas — sinal de que a autora tende a colocar na boca deles tudo o que deseja transmitir a respeito do estado das coisas.
Mesmo assim, Horizonte transparece um vigor notável de mise en scène, além de preciosas qualidades de desenvolvimento de personagens. Raramente se encontra uma obra capaz de equilibrar, com tamanha naturalidade, o protagonismo entre diversas figuras, sem se esquecer por tempo excessivo de nenhuma delas — graças à montagem de Raíssa Castor. As atuações dos protagonistas são homogêneas, verossímeis, num registro capaz de condensar a linguagem documental com o controle exclusivo à ficção. Poucos filmes brasileiros observam uma periferia com foco no afeto entre os habitantes, ao invés das ferramentas sensacionalistas habituais (crimes, prisões, assassinatos, acertos de contas, vigilância policial). O drama paranaense se une a Kasa Branca na bem-vinda leva de obras olhando para moradores desprivilegiados sem reduzirem estas subjetividades à miséria.


Esteticamente, trabalha-se com uma fotografia impressionante. Deixando de lado as trocas um pouco aleatórias entre janelas de imagem, trabalha-se com uma textura da imagem nem ostensivamente “antiga” (ou seja, sem a granulação típica do 16mm), nem profundamente nítida, a exemplo dos filmes ultra contemporâneos do streaming. Isa Lanave e a diretora de arte Laís Melo efetuam um excelente trabalho nesta recriação dos anos 1990, que foge à nostalgia e à vaidade. A configuração de figurinos e cenários se faz discreta (com exceção dos uniformes de basquete escritos “Basquete”), enquanto a textura da imagem desperta a tímida sensação de um passado recentes. A competição esportiva demonstra uma belíssima conjunção entre fotografia e montagem, enquanto o flagra de uma briga entre pai e filho, depois de uma apresentação musical fracassada, aponta à ambição de Candal para voos mais altos.
Apesar do baixo orçamento, o resultado se revela polido, efetuando excelente uso dos espaços, além de contar com o trabalho de som sempre muito confiável de Guile Martins, um dos maiores profissionais do país nesta área. Nenhum segmento de criação rouba a atenção para si próprio — eles colaboram de maneira produtiva com os demais, valorizando os esforços alheios (sobretudo dos jovens atores). Talvez os dramas mais convencionais apostassem em catarses emocionais junto aos familiares (na escola ou no trabalho), além de conclusões otimistas para apaziguar os ânimos do espectador. Candal dispensa estes recursos sensacionalistas, no sentido estrito do termo, para colocar os garotos e garotas unicamente entre si mesmos, ajudando-se e entendendo-se como adultos no espelhamento um do outro. Ninguém aparenta possuir modelos de conduta neste crescimento errático, de modo que precisam apostar na versão forjada de si próprios. Há risco, ousadia e um impressionante controle de direção nesta obra de estreia de notável impacto.




