No Início do Mundo (2024)

Encantar-se

título original (ano)
No Início do Mundo (2024)
país
Brasil
linguagem
Animação
duração
7 minutos
direção
Camila Osório
visto em
24º Curta-SE (2025)

A abordagem da morte num filme destinado ao público infantil apresenta desafios evidentes. Como se comunicar com as crianças com a devida complexidade do tema, de maneira que possam assimilar o debate? Algumas animações tradicionais optam por metáforas envolvendo animais e criaturas mágicas da natureza e afins. Optam por uma fuga ao real, de modo que a efemeridade humana seja sublimada na paisagem, compreendida enquanto conceito amplo, abstrato.

Curiosamente, a diretora Camila Osório opta por uma narrativa bastante direta: em No Início do Mundo, a avó adoece e rapidamente permanece na cama, até se encantar (o termo se mostra particularmente propício à linguagem da animação). A menina precisa cuidar da senhora idosa, em termos de assistência médica, algo que implica em cenas que a maioria das narrativas evitaria. A menina, a princípio emudecida, encontra a sua voz enquanto a outra se apaga. Quando a avó não pode mais se expressar, a garota descobre a necessidade de fazê-lo por conta própria. Logo, a transmissão de conhecimento ocorre pela metáfora (também, bastante palpável) da voz.

A animação, por sua vez, adota traços assumidamente simplificados. Os personagens possuem cores fortes, sem texturas, em linhas que remetem ao desenho lúdico. Quando os cabelos começam a crescer, tornando-se maiores que os corpos, e ocupando o espaço da casa, o filme transparece uma liberdade criativa tão bela quanto furiosa, violenta. Os melhores instantes do curta-metragem decorrem da recusa à verossimilhança — posto que a discussão se encontra tão próxima ao naturalismo, o delírio dos acontecimentos fornecem uma espécie de respiro. Nestas horas, representam-se os sentimentos, em detrimento dos fatos.

É curioso que o 24º Curta-SE tenha apresentado tantas narrativas de amadurecimento centradas em torno de crianças com seus avós, retirando os pais da equação. A sensação de não pertencer socialmente, e de se sentir sozinho no mundo, equivale à ausência paterna e materna. No Início do Mundo, O que Vi, O Armário de Gisélia e Como Ler o Vento (caso de uma avó simbólica) buscam uma falta, uma lacuna. Osório possui o desafio particular de transmitir tamanha complexidade num formato agradável os olhos, que promete uma aparente simplicidade, somente para aludir a temas muito menos coloridos. 

No Início do Mundo (2024)
7
Nota 7/10

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