Em 4 de novembro, o 24º Curta-se — Festival Iberoamericano de Cinema apresentou uma sessão com sete curtas-metragens sergipanos. Trata-se de uma oportunidade rara: a produção do estado ainda é pequena, quando comparada com aquela de estados próximos (Bahia, Pernambuco), e os títulos locais nem sempre circulam pelos principais eventos nacionais. Logo, a exibição carrega um valor fundamental, no sentido de oferecer ao próprio público sergipano um espelho de sua cultura e criação audiovisual. Festeja-se que estas obras cheguem à tela grande, e sejam (re)conhecidas pelos espectadores sergipanos.
Dito isso, a aproximação entre as obras ressalta os elementos em comum, permitindo pensar num atual estado do curta-metragem local. Um aspecto recorrente nos títulos exibidos diz respeito à ambição por clareza: os filmes desejam ser facilmente compreendidos, sem ambiguidades nem mal-entendidos. Partem do pressuposto que o público desconheça os temas abordados, razão pela qual os criadores necessitariam detalhar o objeto de estudo, e também seu ponto de vista em relação aos mesmos. Pode-se falar num conjunto particularmente didático.

O Armário de Gisélia, de Eudaldo Monção Júnior, opõe a homossexualidade de um garoto ao conservadorismo da avó. Para isso, exacerba os traços de um e de outro: a senhora fala o tempo inteiro na “safadeza” das músicas pop (caso de I Kissed a Girl, de Katy Perry), enquanto o rapaz traz consigo um curioso álbum, no qual figuram autorretratos beijando outro homem. Certo, haveria maneiras mais sutis opor os pontos de vista, no entanto, a sutileza importa pouco aqui. Ao se deparar com as fotos do neto, comprovando sua homoafetividade, a avó lança um grande olhar de espanto, beirando a caricatura — ou o estilo de atuação típico do cinema mudo. É importante sublinhar a indignação desta porta-voz do conservadorismo religioso. (E o que dizer do armário, literalmente fechado com um cadeado?).
Curiosamente, o filme não permite ao garoto se expressar. Ele mal fala — somente reage, em frases mínimas —, tendo sua subjetividade dispensada pelo roteiro e pela direção. O adolescente acaba de perder os pais, e sofre com a homofobia violenta dentro do novo lar. Mesmo assim, a narrativa o abandona, literalmente, rumo a um destino desconhecido. Pouco importa. Prefere filmá-lo nu, no banho, a dedicar alguma cena em que ele manifeste seus gostos musicais, os sentimentos pelo rapaz beijado na fotografia, ou ainda a dor pelos pais recém-falecidos. Adiante, ele será visto urinando. A direção busca o acesso ao seu corpo, porém, nunca seus pensamentos, opiniões, nem sentimentos.

Por sua vez, a animação Coisa de Preto, de Pâmela Peregrino, expõe as desigualdades no Brasil. “Toda forma de racismo / É preciso desfazer”, avisa a narradora, em versos. Os traços simples, a partir da estética em areia, apresentam famílias negras, junto a grandes ícones da negritude — entre os quais, Marielle Franco. Declara-se o orgulho pela cultura negra enquanto se denuncia a opressão sistêmica. As falas são diretas, tão funcionais e instrumentais quanto as rimas deste texto veloz. Pretende-se, desta maneira, colocar a negritude em patamar de protagonismo. O movimento é plenamente justificável, e louvável em suas intenções. Em contrapartida, levanta uma discussão a respeito da associação entre imagens e sons.
Neste caso, a animação lúdica, de construção modesta em termos de volume, textura e movimentos, soa secundária em relação à fala. Em geral, serve a recheá-la, a ocupar o tempo da narração, ilustrando o conteúdo afirmado pelos sons. Corre-se o risco, em paralelo, de alertar os espectadores minimamente progressistas (dispostos a mergulhar num curta-metragem independente nacional) a respeito de algo que eles já saibam, em nível pouco aprofundado de debate. O filme nos diz exatamente o que pensar — qual argumento defender, e qual repudiar — sem investigar os contextos históricos ou políticos da violência racial. De onde ela surge? Tem se transformado? O que resta a fazer? De que maneira se propõe agir? A mera declaração de intenções e valores soa insuficiente diante da complexidade do debate.

Tanto Sergipe Way: Do Barro ao Mangue, de Gessica Lima, quanto Donas da Cultura Popular: Madá, de Davi Cavalcante, partem de movimentos culturais que se estima invisibilizados: o cenário ballroom sergipano, para o primeiro, e o samba de côco, para o segundo. Em ambos os casos, as pessoas entrevistadas compartilham com as câmeras a importância destas formas de expressão. Declaram sua conexão pessoal com as danças e a música, pontuam os pioneiros, revelam os instrumentos e jargões específicos. Funcionam, portanto, enquanto breves introduções a estes universos.
Em contrapartida, podendo representar cada manifestação, preferem contá-las. Fala-se muitíssimo sobre o samba de côco, apesar de a coreografia e a gestualidade específica permanecer em segundo plano. Por que se prefere escutar as personagens comentando sobre algo que a câmera poderia simplesmente filmar, em detalhes, desde a fabricação dos vestidos até os ensaios? No caso do ballroom, os personagens são extremamente experientes nesta linguagem, entretanto, esperamos até os créditos finais para que, enfim, apresentem-se durante poucos segundos diante de nossos olhos.

Sergipe Way ainda confere bastante tempo a um vídeo de “react”, em linguagem mais apropriada ao YouTube do que ao cinema, na qual uma pequena janela-dentro-da-imagem revela os protagonistas avaliando a dança alheia. Em outro instante, um rapaz declara o orgulho de ter confeccionado sua própria calça e sapatos, embora a fotografia não estime necessário mostrá-los ao espectador. A montagem ainda inclui espaço para a autopromoção, preservando os trechos em que os personagens felicitam os criadores por sua iniciativa. Mesmo a comparação com o artesanato (o grupo chamado DiBarro com o manuseio do barro, literalmente) se prova gracioso a princípio, embora nunca se desenvolva. (O que ocorreria caso as descrições do trabalho com a argila e o barro se sobrepusessem ao vogue, e vice-versa?).

Ressente-se, nestes novos documentários, a falta de um aprendizado a respeito da escuta e da contemplação: é indispensável saber ouvir, e saber observar estas pessoas por aquilo que possam revelar. Quando indicam novos caminhos, esta é a oportunidade de segui-los. Trata-se de um gesto de empatia, e de uma forma de colocar o cinema no mundo, ao invés de tentar comprimir e resumir o mundo para caber no cinema.
Algo semelhante ocorre em Aracaju: Uma Viagem no Tempo, dirigido pelo “cineasta Fábio Jaciuk” (que se credita desta atípica maneira nos letreiros). Para apresentar as transformações na capital, recorre a entrevistas didáticas (os personagens no centro do enquadramento, identificados com letreiros, explicando suas experiências ao público), além de uma quantidade excessiva de tomadas aéreas via drones, elaborando um panorama tão amplo quanto impessoal das avenidas, ruas e praças. Acredita-se que, assim, terá uma perspectiva sobre temas tão amplos quanto estátuas, mudanças em nomes de ruas e videolocadoras ainda em atividade. O aspecto descritivo e verbal toma conta das interações.

Sonata Beladona, de Antônio Rafael, talvez escapasse à necessidade de se explicar. Afinal, a referência à planta, enquanto metáfora para a maconha, parece permitir certa liberdade narrativa, além de um bem-vindo despojamento à atuação. Entretanto, a decisão para a compra da erva decorre de uma mensagem fixada na geladeira: “Aproveite a vida enquanto há vida”. Como se não bastasse este indicativo muito direto, a personagem o pega nas mãos, e segura o papelzinho enquanto disca o número de telefone. Adiante, a mulher, que sofre de tremedeiras fortíssimas nas mãos, vê os sintomas desaparecerem por milagre. Problema resolvido. Até a metáfora do passarinho saindo da gaiola constitui um dos clichês máximos para a representação cinematográfica da liberdade.
O curta-metragem que escapa com mais facilidade a estes facilitadores e tradutores de significados é Cancioneiras: Embarcações Poéticas. As diretoras Elaine Bomfim e Graziele Ferreira apresentam o melhor filme da sessão. Dotado de uma poesia tão simples quanto funcional, o projeto explora o sentido das palavras, convertidas literalmente num barco com velas bordadas de literatura. Assim, os versos passeiam, e os sentidos deslizam, ocupando os espaços. A produção que teria maior propensão para abusar dos drones se mostra comedida no uso de tal ferramenta, explorada pontualmente.

Além disso, nota-se uma calma no olhar, uma construção cuidadosa da luz e do enquadramento, desde o princípio. Aqui, as autoras compreendem que não precisam falar ou explicar tudo ao espectador. Elas confiam no lirismo das imagens, na eficácia do som, e deixam que a estética se converta em veículo de significados. Certo, ainda existe uma narração um tanto dispensável em primeira pessoa (“Me preparo para escutar”), incluindo os típicos questionamentos retóricos do imaginário de delicadeza (“Para onde essa história me levará?”). A exemplo dos títulos anteriores, ele se prestaria a certa depuração.
Em contrapartida, compreende melhor do que os demais a força da criação da imagem, enquanto veículo de comunicação em si. Dispensa o auxílio protocolar de entrevistas, letreiros, falas descritivas, e tampouco insiste ao espectador a respeito da importância da poesia. Através de um barco pintado, flutuando pelas águas, faz sentir o impacto destas palavras, e permite que o espectador chegue às suas conclusões sozinho. Cancioneiras oferece a ver, ao invés de verbalizar o valor de seu tema. Neste sentido, revela-se, cinematograficamente, o projeto mais maduro do conjunto.
Obviamente, em se tratando das primeiras produções dos criadores (alguns deles, alunos de escolas de cinema), as eventuais fraquezas são plenamente compreensíveis. É preciso testar formas até encontrar um estilo próprio, e se livrar de muletas convenientes ou artificiais. Resta a torcida para que estes mesmos autores tragam novos filmes em edições seguintes do Curta-SE (ou de outros festivais nacionais), permitindo apreciar a evolução de seus trabalhos.



