Como Nasce um Rio (2025)

Natureza feminina

título original (ano)
Como Nasce um Rio (2025)
país
Brasil
linguagem
Animação
duração
8 minutos
direção
Luma Flôres
vozes originais
Andrea Martins, Rana Tosto
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

Certo dia, Ayla se confronta à natureza — à sua própria, àquela das outras mulheres, e àquela compreendida enquanto paisagem. A personagem, registrada como um ser minúsculo em meio às montanhas e florestas, começa a perceber uma força feminina estampada na geografia local. Logo, admira esta doce monstruosidade materna, enquanto se espelha nela, e se empenha em explorá-la eroticamente. Na jornada de uma mulher através do corpo e da identidade de outra nasce o caráter evidentemente lésbico do projeto.

Como Nasce um Rio surpreende, desde a cena inicial, pela elaboração estética. A diretora Luma Flôres demonstra uma reflexão excepcional a respeito da paleta de cores, da arquitetura de cada quadro, em termos de profundidade de campo, dinâmica de cena e interação da mini-protagonista face à gigantesca amante. Os inúmeros tons de marrom e verde compõem a impressão de diferentes camadas da imagem, enquanto sugerem sombras, volumes e texturas. Trata-se de um verdadeiro banquete para os olhos.

Poucos filmes conseguem ser, ao mesmo tempo, tão delicados e tão frontais na representação do sexo entre mulheres.

Felizmente, a autora não se contenta com uma beleza em si. Este universo é cuidadosamente utilizado para dialogar com a feminilidade a partir do momento em que Ayla visita uma floresta-púbis, e adentra a gruta-vagina. Nesta hora, ela está admirando o próprio corpo, enquanto se aventura pela constituição alheia. Poucos filmes conseguem ser, ao mesmo tempo, tão delicados e tão frontais na representação do sexo entre duas mulheres. A aventura de autodescoberta equivale a uma possibilidade de romance.

Tal potência decorre, em grande parte, do primoroso trabalho sonoro. Na ausência de diálogos, os estrondos decorrentes do vento e dos tremores de terra sugerem a grandiosidade da natureza e suas movimentações internas. Existe um senso de magnitude e opulência, em contraste direto com tamanha doçura das cores pastéis, com a aproximação paulatina entre as duas forças femininas, e o sentimento de solidão da protagonista. Flores consegue se atentar tanto à psicologia das personagens quanto a uma dimensão macro, externa, na qual se espelham as novas sensações experimentadas por Ayla.

Após tantos curtas-metragens que se encerravam de maneira abrupta (Poesia no Vinho dos Seus Lábios, Corpo Aberto, Fronteriza) na Mostra Quelly, esta narrativa apresentou o melhor desfecho, paulatino e cuidadoso. A cineasta expande sua abordagem ao propor uma linguagem fluida na qual os corpos literalmente se fundem, transformando-se em uma entidade distinta. Esta cena, de grande liberdade de linguagem, representa a união pelo amor e pelo sexo, vistos aqui como manifestações indistintas de afeto. Como Nasce um Rio demonstra o imenso horizonte de significados que a animação pode proporcionar quando se desprende da obrigação de representar o real, abraçando precisamente aquilo que o live action nunca poderia atingir.

Como Nasce um Rio (2025)
9
Nota 9/10

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