Remanente: Voltagem (2026)

Monstros e humanos

título original (ano)
Remanente: Voltagem (2026)
país
Brasil
gênero
Terror
duração
84 minutos
direção
Kapel Furman
elenco
Ricardo Gelli, Ricardo Oliva, Clarissa Kiste, Cecília Guedes, Áurea Baptista
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

No fundo de um poço vive uma entidade maligna. O Engenheiro, como é chamada, conduz eletricidade, e depende de peças de ouro para compor suas forças. Esta criatura não tarda a cruzar o caminho de dois socorristas (Ricardo Gelli e Ricardo Oliva) que decidem roubar o metal precioso, sem suspeitarem do mal que podem despertar. Assim, os homens são punidos por sua cobiça, numa forma de justiça sobrenatural. Antes mesmo que possam desfrutar da suposta riqueza, compreendem que os inconvenientes são muito maiores do que as vantagens. Por trás desta fábula de terror, existe uma moral simples, típica dos contos de fadas, a respeito da ganância, da cobiça e a do direito à propriedade privada.

Como de costume, o diretor Kapel Furman elabora uma ótima monstruosidade. O Engenheiro modifica seu corpo de acordo com as situações, ora aproximando-se do aspecto mais humano (com nariz e fluidos), ora adotando uma versão cadavérica-metálica, na qual os olhos se fecham em redomas douradas, e uma coroa elétrica sugere seu poder e nobreza. Inicialmente, a referência aparenta ser Frankenstein, com alguns toques de Metrópolis, conforme a cuidadora (Áurea Baptista) conta a história de um sujeito traumatizado, que nunca deu valor à sua amada, e então sonha em recriá-la. Entretanto, adiante, a analogia entre as duas histórias se interrompe.

Remanente – Voltagem se insere nesta safra de terror do faça-você-mesmo, na qual a evidente limitação de recursos não impede os diretores de conceberem um aspecto visual de forte impacto.

Afinal, o foco se encontra no material humano, construído na forma de arquétipos muito precisos: Victor corresponde ao malandro sem escrúpulos, e Demian, ao pai-coragem disposto a tudo para dar um melhor futuro à filhinha pequena. Devido ao nível de desespero deste personagem, poderíamos imaginar que a garota está gravemente doente — mas este não é o caso. Ela apenas o espera em casa, sendo colocada na cama na integralidade das cenas. “Se a gente não for agora [recuperar o ouro], alguém vai roubar a faculdade da Clarinha”, argumenta Victor, em referência ao futuro da menina de aproximadamente dez anos. Nada justifica tamanho senso de urgência em conseguir dinheiro fácil, exceto pelo desejo do roteiro em acelerar o roubo e colocar o homem bom à prova de uma ilegalidade. 

Já as mulheres se restringem a papéis mal desenvolvidos. Nenhuma delas possui desenvolvimento psicológico semelhante àquele dos personagens masculinos — um provável sintoma de uma obra elaborada quase unicamente por homens. A sogra não possui vida própria para além dos cuidados com a neta, e a integralidade dos diálogos consiste em pedir-lhe que cuide da pequena. A própria criança ganha pouquíssimos diálogos ou conflitos próprios. Já a figura inicial, interpretada por Clarissa Kiste, será taxada de “louca”, “doida”, e limitada à excentricidade da busca pelo ouro, em permanente aparência de surto psicótico. A outra figura feminina é chamada somente de Babe e, mais uma vez, depende da presença do namorado para existir. Teria sido importante desenvolvê-las minimamente, no intuito de contribuir à verossimilhança deste universo.

Em contrapartida, enquanto experiência de gênero, Remanente – Voltagem funciona bem. Furman e o diretor de fotografia André Sigwalt se divertem com “insetos gigantes filhos da puta”, cabeças flutuantes em direção aos protagonistas, e manifestações assustadoras em dimensões paralelas. Percebe-se a criatividade do dispositivo, assim como a tentativa de combinar certa fluidez e leveza das aparições com um aspecto bastante físico e concreto desta grande criatura metálica. O caráter asqueroso do adversário se combina com certa imponência ou solenidade em suas aparições. Ele está cercado de indícios de uma maldade repugnante (gosmas, apodrecimento), embora, em si próprio, constitua um vilão digno de certa admiração.

O projeto seria ainda melhor caso não apostasse em tantos facilitadores de roteiro. Aqui, os personagens leem em voz alta o que estão escrevendo — uma saída pouco esforçada de informar o espectador a respeito do conteúdo. Os dois heróis deduzem com uma velocidade injustificável que existe um tesouro enterrado naquela casa. Compreendem, sem reais motivos para tal, que o ferimento na mão seria decorrente de um choque elétrico; e que a preciosidade está escondida no poço. Obtêm sem esforços os papéis relacionados à propriedade, indicando exatamente onde se encontraria o objeto procurado. A trama tem pressa para avançar logo à batalha entre humanos e criaturas, e para isso, atropela indícios mínimos do bom senso. O que dizer, então, de diálogos como aquele da namorada devolvendo o presente: “Me presenteia quando você estiver sóbrio!”.

 

Não se trata de elementos de difícil correção, pelo contrário. São fraquezas de simples polimento, mediante mais alguns tratamentos de roteiro. Às vezes, os criadores de terror dedicam tanto tempo à mitologia e à imagem de suas monstruosidades que não aplicam esforço semelhante aos humanos — que talvez lhes pareçam menos interessantes. De qualquer modo, a fábula acerca deste ouro de tolo perde parte de sua força devido às soluções rápidas demais, assim como às conveniências narrativas. Estes socorristas trabalham uma única noite, pelo visto, quando encontram a “louca” das joias. Em momento de necessidade, possuem mulheres (sogra ou namorada) para fazerem tudo o que precisem. Ninguém jamais suspeita da invasão da propriedade, nem dos homens descendo o poço e ligando as luzes do local. O filme adora facilitar a tarefa para ambos.

Por fim, Remanente – Voltagem se insere nesta safra de terror do faça-você-mesmo, na qual a evidente limitação de recursos não impede os diretores de conceberem um aspecto visual de forte impacto. O resultado transparece a paixão de Furman e sua equipe pelo gênero, visto enquanto liberdade criativa quase infinita — em termos de criação de ideias, não há nada que o terror não possa fazer. (Já a viabilização destes conceitos seria outra coisa). Mesmo assim, espera-se que estes criadores tão competentes dediquem esforço semelhante na construção dos personagens, nas motivações, nos processos, na passagem do tempo. Quanto mais digno de crença for o mundo retratado, maior será o risco (e a aflição, o medo, a empatia) uma vez que o monstro aparecer para ameaçar a paz reinante. Talvez este seja o próximo passo para estas iniciativas independentes de terror.

Remanente: Voltagem (2026)
6
Nota 6/10

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